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Gael García Bernal vira personagem de animação em novo filme

Flavia Guerra - O Estado de S. Paulo

29 Junho 2014 | 07h 00

Galã está no brasileiro 'Zoom', dirigido por Pedro Morelli

Durante a abertura da Copa do Mundo, na Arena Corinthians, enquanto as câmeras tentavam encontrar o astro Leonardo Di Caprio em meio ao público, outro ator de Hollywood passava (quase) despercebido em plena arquibancada. Em vez de assistir à partida entre Brasil e Croácia de um dos camarotes Vips, o mexicano Gael García Bernal fez questão de ver o jogo ao lado dos torcedores.

Entre um lance e outro, Gael, que foi ao jogo com o diretor brasileiro Pedro Morelli, tirou dezenas de fotos com fãs. Mas a disponibilidade do ator para fazer pose parou por aí. De passagem pelo País para rodar Zoom, longa dirigido por Morelli, o ator não quis dar entrevistas. Mas Gael, que já filmou outras vezes em São Paulo, permitiu que o Estado visitasse o último dia de filmagens.

Tímido, cumprimentou a reportagem, mas manteve-se firme, nada de entrevistas. A visita no entanto foi suficiente para entender que, no novo filme, ele também vai estar irreconhecível. Ou quase. Em vez de sua figura real, em Zoom, Gael vai aparecer animado. Por meio da rotoscopia, técnica com que cenas reais se tornam animação, ele vai virar personagem de quadrinhos e ser Edward, um diretor às voltas com a filmagem de um longa que a cada take se torna mais difícil de ser realizado. Isso porque, na trama, seu produtor, vivido por Don McKeller (de Ensaio Sobre a Cegueira), muda a toda momento o roteiro, fazendo com que a protagonista viva cada vez mais situações surreais.

O filme de Gael, a propósito, é estrelado pela atriz Mariana Ximenes, que divide a cena com Jason Priestley (de Barrados no Baile). A brasileira vive o papel de Michelle, uma modelo decidida a se tornar escritora que deixa seu namorado (Priestley) no Canadá e se refugia em Trindade, no litoral do Rio para terminar seu livro. "Foi muito bom ter um elenco como este", conta Morelli "Gael é um ator incrível. Sempre foi um dos meus preferidos. É muito ativo, participativo, dá ideias. A gente está criando junto."

Mujica/Divulgação
Parceria. O diretor Pedro Morelli (E) durante as filmagens com Gael García Bernal

Quem visitasse, desavisado, o set que abrigou as cenas de Gael García Bernal em Zoom, em um estúdio da zona oeste de São Paulo, poderia pensar que as filmagens já tivessem acabado ou que algo estivesse faltando em cena. Isso porque o ator mexicano e o canadense Don McKeller, que contracenava com Gael, tinham apenas duas cadeiras como objetos de cena. À sua volta, uma equipe brasileira e canadense e um cenário cinza marcado por fitas adesivas fluorescentes.

A tomada, uma das últimas da história, e a última de Gael e Don, trazia a dupla tentando rodar um filme, mas o diretor (Gael) enxerga algo além de um simples monitor à sua frente e está prestes a entender a própria história. Enquanto a ação corria, o animador Adams Carvalho já desenhava quadro a quadro os personagens em 'versão quadrinhos', que ganhavam um cenário, roupas e cabelos diferentes. "É por isso que não há quase nada no set. Tirando objetos de referência, como poltronas, cadeiras, mesas, pilastras, etc., tudo vai ser criado pelo animador", explicou o diretor Pedro Morelli.

Aos 27 anos, assina seu primeiro longa (antes, codirigiu Entre Nós com seu pai, Paulo Morelli, um dos sócios-fundadores da O2 Filmes, ao lado de Fernando Meirelles e Andrea Barata Ribeiro).

Sobre a experiência de misturar técnicas, linguagens e contar três histórias em paralelo em apenas um filme, Morelli se diz feliz, ainda que seja um grande desafio. "O projeto conta uma história dentro da outra, em um ciclo que se fecha. Como cada personagem está ligado à história do outro, mas vive em realidades diferentes, usar diversas técnicas tanto de roteiro quanto de linguagem faz sentido", contou o diretor, que criou Zoom a convite do produtor canadense Niv Fichman, da Rhombus Media, parceira da O2 na produção do longa, que tem distribuição da Paris Filmes.

"Há pouco mais de quatro anos, o Niv me convidou para fazer um filme, um projeto de jovens diretores. O tema era completamente livre, mas teria de ter uma pegada jovem. E achei que contar esta história, que são várias, mas que falam todas da questão da libertação, de buscarmos o que queremos e de entender o todo do qual fazemos parte, qual é nossa condição", explica Morelli.

Milena Mendes/Divulgação
O diretor Pedro Morelli (D)

Para o produtor canadense, que já conhecia Morelli desde que rodou Ensaio Sobre a Cegueira, em 2008, Zoom tem tudo para ser um sucesso. "Tenho um projeto que viabiliza primeiros filmes de jovens talentosos. E desde que vi Pedro trabalhando como segundo assistente de direção de Fernando Meirelles em Cegueira, sabia que ele seria perfeito. Ele era muito jovem, mas já tinha responsabilidade e criatividade muito desenvolvidas", afirma o produtor.

Fichman, que com o projeto já ajudou Analeine Cal y Mayor a dirigir o premiado The Boy Who Smells Like Fish e Brandon Cronenberg (filho de David Cronenberg) a filmar Antiviral, que integrou o Festival de Cannes, vê em Zoom a chance de o cinema brasileiro se comunicar com o público jovem em um comédia sofisticada. "É um filme que tem humor, mas também fala de coisas sérias", comenta.

A produtora brasileira Andréa Barata Ribeiro vê na coprodução com a Rhombus uma bem-sucedida parceria. "Trabalhamos juntos em Cegueira e deu certo. Apesar de sermos tão diferentes, as equipes se complementam. Por ser uma coprodução, mesclamos os profissionais. O roteiro, por exemplo, é de um canadense, a direção, brasileira. Já o roteiro é de um canadense, o Matt Hansen. Esta mistura funciona bem", garante ela.

Segundo Pedro, poder contar com uma equipe experiente, além de um elenco colaborativo, foi crucial. "Há um storyboard, as cenas são estudadas, mas quando chegamos ao set, tudo é repensado para que todos colaborem", explica. "Gael, por exemplo, trouxe algo muito bom para as filmagens, pois o personagem virou 'o latino', uma vez que o Gael tem sotaque e não há como tirar isso, o que eu acho ótimo, pois dá mais camadas ao personagem”, ressalta. "Já Don Mckeller é comediante, roteirista (de Cegueira) e dá o tom certo ao episódio que tem mais humor, pegada de quadrinhos e ironia", acrescenta.

Adams Carvalho/Divulgação
Traço preciso. Cenas de Gael García Bernal vão ser animadas por meio de técnica chamada rotoscopia

Sobre Mariana Ximenes, que vive a modelo e escritora Michelle, o diretor observa: "O personagem dela está querendo se libertar dos padrões de beleza. Ela foge do Canadá e de seu namorado, Dale (Jason Priestley) e vem para o Brasil, para poder se dedicar ao livro. Aqui, conhece a dona de uma pousada, superlivre, vivida pela Cláudia Ohana. Elas se encaixam perfeitamente nos papéis. E se identificam com os personagens. Isso engrandece". 

Já Priestley, ainda que improvável, se revelou uma escolha acertada. "Foi ótimo. Vai muito além do Brandon de Barrados no Baile. Mariana e ele formam ótimo casal", conta Morelli, que parte em um mês para o Canadá, onde filma a segunda parte da história de Dale e Michelle e o episódio de Emma. 

É Emma quem completa o elenco, e a trama. Vivida por Alison Pill (de Meia-noite em Paris e Para Roma, com Amor), ela, além de desenhar a história de Edward (Gael), é personagem do livro que Michelle escreve. "É uma comédia irônica e metalinguística. A graça se dá na forma como cada história se liga e como cada personagem mexe com o outro, como se manipulassem um boneco vodu", finaliza Morelli.

ENTREVISTAS

Don McKellar, Ator

'Vai ser divertido me ver como desenho'

Você usa uma peruca curiosa nestas filmagens. Seu visual vai melhorar na pós-produção?

Vai! Estou horrível, mas faz parte. Adoro saber que vou me tornar um personagem de quadrinhos. Posso filmar sem maquiagem, sem me preocupar com as roupas, pois tudo será desenhado. Vai ser estranho, e divertido, me ver como desenho. 

Este filme é diferente de todos os outros que você já fez?

Sim, completamente. Já fiz dublagem para desenhos, mas não era meu rosto em cena. Adoro este projeto, ainda que seja difícil imaginar como será o filme, pois muito ainda vai ser criado. É muito interessante. 

Como é seu personagem, o produtor Horovitz?

É um produtor que quer se tornar diretor e está tirando, aos poucos, o filme das mãos do diretor (Ed/Gael). Mas não é um bom diretor, não sabe o que fazer e, mesmo assim, quer o poder. Ele é ressentido por isso e com o fato de que a executiva do estúdio, Marisa (a canadense Jennifer Irwin), apaixona-se pelo Ed. E Horovitz detesta isso. 

A história de vocês é a mais divertida do filme, não? Colaboraram muito para o roteiro durante as filmagens?

Nosso episódio tem mais humor, muito porque somos um quadrinho e podemos ser mais loucos. Jennifer e Gael são muito engraçados. Funcionamos bem juntos. E Pedro é um diretor jovem, mas experiente. É seguro e trabalha bem com colaborações, o que não é comum para diretores estreantes, que, em geral, estão preocupados demais. Gosto de trabalhar com brasileiros. Somos complementares. De Ensaio sobre a Cegueira, que escrevi e atuei, até A Madrinha Embriagada, que escrevi e Miguel Falabella montou, é um País que sempre me surpreende.

Mariana Ximenes, Atriz

'Ela vai ter aventuras libertadoras'

Você nunca tinha atuado em inglês. Como foi a experiência?

Foi uma aventura. Quando cheguei ao set de Zoom, tinha acabado de filmar uma coprodução com o Uruguai, o Mãos de Cavalo, do Roberto Gervitz. E fui para outra coprodução, mas com o Canadá. Nosso set era misturado, gente falando inglês, português... Foi ótimo. Atuar em inglês é um desafio, pois não é meu idioma e preciso me concentrar mais para, por exemplo, usar o improviso. Mas adorei a experiência.

Quem é a Michelle?

Minha personagem é uma modelo que mora no Canadá e se cansou da rotina da profissão. Resolve abandonar tudo para escrever um livro. Ela vai para Trindade, no Rio, em busca de uma conexão com ela mesma, de concentração para poder colocar suas ideias no papel. Ela, que está em busca de inspiração, vai ter aventuras libertadoras lá. Mas seu namorado, que ficou no Canadá, vai em busca dela. Aí tudo se complica.

Sua história é filmada pelo personagem do Gael, que vive um diretor. Como foi isso?

Muito interessante isso de um personagem interferir na história do outro. No filme, são três tramas, uma dentro da outra. É difícil explicar, mas o roteiro é diferente e muito bom. Meu livro, por exemplo, não tem uma escrita lógica, escrevo tudo em forma triangular, circular. E Pedro (Morelli, diretor) levou isso para a forma de filmar. Já minha história tem o fator Dale, meu namorado, vivido por Jason Priestley. Cada vez mais, ele complica as coisas. E que faz algo que me obriga até a pular de um helicóptero!

Como foi atuar com Priestley?

Ótimo. Ele é canadense e era perfeito para o elenco desta coprodução. Eu via Barrados no Baile! Disse isso a ele, que foi ótimo, supercompanheiro, grande parceiro.