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'Fique Comigo' traz pequenas misérias humanas num relato para se sentir bem

- Atualizado: 08 Março 2016 | 05h 00

Longa é estrelado por Isabelle Huppert

Em 2007, Samuel Benchetrit virou a sensação do Sundance Festival ao vencer o prêmio de roteiro por Always Wanted To Be a Gangster. Depois disso, ele andou fazendo filmes que não ‘aconteceram’ no mercado - nem na França nem no exterior. E aí veio Asphalte/Macadam Chronicles, exibido no Festival de Cannes do ano passado. Benchetrit baseou-se numa coletânea de histórias de sua autoria. Com a cumplicidade de um elenco que inclui a grande Isabelle Huppert, fez o que chama na entrevista de filme ‘decalé’.

A ideia é pegar personagens e histórias ‘comuns’ - gente como a gente - e subverter o conjunto (o resultado) por meio de algo incomum. Por exemplo - os habitantes de um prédio de periferia, cujo elevador vive estragado. O que poderia se introduzir de estranho nesse universo? Um astronauta. Michael Pitt é forçado a um pouso de emergência. Atônito numa vizinhança que desconhece, adentra o prédio e vai bater à porta de uma senhora (do Magreb) cujo filho está preso. Ela o acolhe, à espera do socorro da Nasa.

Não é para todos os gostos. Alguém há de objetar que a mistura de realidade e fantasia é sempre fonte de problemas. Pode até ser, mas se o espectador se entregar ao duplo charme dos diálogos e do elenco poderá desfrutar o que o autor se propôs fazer. Um retrato da França na (des)ordem do mundo. São histórias de solidão urbana. Funcionam muito bem isoladamente. Integram-se, talvez, com menor fluidez, mas é interessante ver como o garoto, que se sente sozinho - negligenciado pelos pais -, liga-se à atriz. Uma das melhores cenas, senão a melhor, é aquela em que Isabelle Huppert se prepara para o teste de uma nova peça.

Cena de 'Fique Comigo'
Cena de 'Fique Comigo'

Um eterno deprimido que sofreu um acidente e ficou paralisado se liga a uma enfermeira que trabalha à noite e, de novo, é bom ver como Gustave Kervern e Valeria Bruni Tedeschi criam seus personagens com economia e delicadeza. A ligação mais inusitada é a de Madame Hamida, cujo filho está na cadeia. Ela recebe o astronauta. De todas as histórias, talvez seja a mais alegórica - a dificuldade de comunicação de Tassadit Mandit e Michael Pitt funciona em diferentes níveis.

Embora pouco conhecido no Brasil, Samuel Benchetrit vem fazendo carreira no cinema e na literatura. Além de Macadam Chronicles, escreveu Récit d’ Un Branleur - Relato de Um Masturbador. Benchetrit acredita que a função do artistas é provocar, mas em vez de insistir na violência da periferia ele busca revelar que ela possui ‘certa poesia’. Ela transparece em seu filme mais famoso, ou premiado - Sempre Sonhei Ser Um Gângster. Benchetrit busca sempre mostrar que, no mundo em que as pessoas se isolam - ou são forçadas a isolar-se -, nada nem ninguém é o que parece ser. 

Na França, e tratando de assuntos que poderiam ser sombrios - solidão, discriminação -, o tom decalé de Fique Comigo agradou ao público e aos críticos. Na entrevista, o diretor conta que a crítica ‘empurrou’ o público para ver seu filme. No limite, e na sua ‘excentricidade’ (o astronauta, alívio cômico), é o que em Hollywood se chama de ‘feel good movie’. Um filme simpático, divertido, em que a constatação das pequenas misérias humanas não impede o público de se sentir bem.

 

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