Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Filmes, novela e Sophie Charlotte ainda curte o metrô e o ato de amamentar

Atriz estrela o filme 'BR 716'

Entrevista com

Sophie Charlotte

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2016 | 07h00

RIO - Sophie Charlotte tinha 4 anos e morava em Hamburgo, na Alemanha, quando surpreendeu a família ao dizer o que queria ser quando grande. Você pode até imaginar que ela talvez tenha tropeçado na palavra, cheia de consoantes - “Schauspelerin”. A tradução é bem simples - atriz. Aos 8 anos, já morando no Brasil, ela começou a se preparar, fazendo dança. Teve uma grande mestra, Helfany Peçanha. Sophie teve outros mestres durante sua trajetória. Fez o Tablado, a Malhação, um dia conheceu Domingos Oliveira. Fez com ele espetáculos maravilhosos. Nem sabia o que era um cabaré literário. Foi uma descoberta. Canto, poesia, expressão corporal. O Apocalipse Segundo Domingos Oliveira a marcou muito. Ama seu diretor de paixão. E ela ainda teve mais um mestre.

“Um dia soube que Heitor Dhalia me queria para o Serra Pelada. Pedi que me enviasse o roteiro. Li, e fui logo dizendo que sim, mesmo não tendo a mínima ideia de como ia conseguir fazer aquela prostituta tão diferente de mim.” Foi aí que surgiu mais um anjo, o preparador Chico Accioly, com quem Sophie voltou a trabalhar na TV, ao fazer O Rebu, o reboot da novela famosa por George Moura e o diretor José Luiz Villamarim. Sophie faz esse passeio pelo próprio passado num encontro com o repórter na Livraria Argumento, no Leblon. Ela escolheu o local. Seu apartamento de solteira ficava ali perto. Sophie não conseguiu se desfazer dele ao se casar. “Marcou minha independência, foi muito importante.” Chega simples e radiosa. Aos 27 anos, nem parece mãe do Otto, de 6 meses, que ainda amamenta. Até quando? “Até quando der. É muito prazeroso (amamentar).”

A prostituta de Serra Pelada, aquele inferno na Terra documentado pelo fotógrafo Sebastião Salgado. Nada mais distante dela. No recente Festival de Gramado, em agosto, ela virou a musa do evento participando de dois filmes da competição - o grande vencedor dos Kikitos, BR 716, e Tamo Junto. O diretor do segundo, Matheus Souza, disse no palco do Palácio dos Festivais, na serra gaúcha, que ela é “a nossa Audrey Hepburn”. Bonequinha de luxo. Corrigindo - bonequinha sem luxo. Sophie vem caminhando. Solta os cabelos, a pedido do fotógrafo do Estado. Ele arma a luz, como se fosse um estúdio, para fotografá-la no banco em frente à livraria. As pessoas entram e saem da Argumento. Uma família mineira, pai, mãe e filha adolescente, pede para fazer fotos. Ela concorda, abraça, fala com gentileza.

Não é nenhuma tentativa de mitificar (ou mistificar) Sophie Charlotte. Linda daquele jeito, ela já virou mito. Cinema, TV e teatro. O encontro no Rio, onde mora, é para falar de BR 716, que justamente nesta noite - terça-feira, 11 -, será exibido, fora de concurso, numa gala no Odeon, em plena Cinelândia carioca, como homenagem do Festival do Rio aos 80 anos do diretor Domingos Oliveira. Todo dia, toda hora, nas mais de mil sessões do evento, durante seus onze dias - termina neste domingo, 16 -, passa uma vinheta da Globo Filmes. Grandes diretores comentam filmes míticos. Jorge Furtado fala sobre Todas as Mulheres do Mundo, o primeiro Domingos, com Leila Diniz e Paulo José. Furtado derrama-se em elogios, diz que esse filme é ‘uma poesia”.

Exatamente 50 anos separam Todas as Mulheres de BR 716. A fascinação de Domingos pelas mulheres permanece intacta. O BR do título refere-se a um endereço, à Rua Barata Ribeiro, em Copacabana. Lá, antes de virar cineasta, Domingos reunia os amigos. E bebiam. Lá fora, o pau comia, com a repressão do regime (cívico-)militar. Jean-Luc Godard, A Chinesa. Uma garotada parisiense, no pré-Maio de 68, planeja sua revolução (a salvo, entre quatro paredes). Um dos amigos ficcionais de Domingos quer ir para a rua, para virar guerrilheiro e fazer a revolução. Sophie, no filme, é Gilda. Femme fatale. O que ela faz no filme - ele vai passar na Mostra - dá todo sentido a BR 716. Sophie diverte-se.

“Domingos me deu algumas informações, mas me deixou livre para criar a minha Gilda. E eu criei na cara de pau. Olha aqui se tenho cara de mulher fatal.” Nem femme fatale nem bonequinha de luxo. Sophie Charlotte é do tipo que pega metrô. No Rio, se você vir no metrô alguém que parece com ela, as chances de que seja são imensas. E as pessoas não estranham? “Ah, um pouco. Mas ficam em dúvida. Acho normal. Só aqui que tem essa frescura. Já vi em Nova York gente vestida a rigor no metrô. Mas, para a gente, parece que não fica bem.” Como assim, uma celebridade no metrô, sem estar fazendo propaganda? Sophie Charlotte é tão celebridade que não se preocupa com isso. Está além. O que ela quer é fazer as coisas bem-feitas. E desfrutar o momento.

Quem você gosta como ator, Sophie? Brasileiro? “Daniel de Oliveira”. Ela não titubeia. Cita o marido, pai do Otto e também do Moisés e do Raul (com Vanessa Giácomo). Os enteados a adoram. Sobre Daniel, diz - “Ele é bonito, talentoso.” Conheceram-se durante as gravações de O Rebu. Estarão na próxima novela das 11, Jogo da Memória, que ela começa a ensaiar em novembro, para gravar a partir de janeiro. Três gerações de mulheres - avó, mãe e neta. Cada uma terá sua história, sua época, sua juventude. “Mas a gente não vai contracenar. Ele pertence a outra geração”, ri. “A autora é Lícia Manzo, uma linguista refinada, que arma conflitos muito interessantes e usa muito bem a língua, construindo diálogos que são a delícia de qualquer ator.” Zé (Villamarim) será o diretor, com Chico Accioly na preparação. Um elenco de feras - Sophie, Daniel, Cássia Kiss Magro. O repórter cita a estreia de Villamarim na direção de cinema, com Redemoinho, baseado em Luiz Ruffato, apresentado na Première Brasil.

Ela viu, e gostou muito. “Julinho (Andrade) é meu amigo e um ator extraordinário. Ele, o Irandhir (Santos), que também vai estar em Jogo da Memória. O Zé é muito bacana, porque gosta de trabalhar com os mesmos atores, como se a gente fosse uma trupe.” Cássia Kiss Magro faz, em Redemoinho, uma daquelas mães caladas e sofredoras das quais somente ela parece possuir o segredo. “Imagina eu, no mesmo set da Cássia. É um privilégio.” E como uma atriz se prepara? “Com seriedade, muito trabalho.” O assunto volta à mestra de Sophie na dança? “O balé exige muita disciplina, muita concentração, e a Fany dava isso para a gente. Ela era durona, mas muito generosa. Nos deu (a suas alunas) ferramentas para a vida toda. Como atriz, não deixo de usar meu corpo. É outra dança. Quando a Fany morreu, fomos todas (as alunas) ao enterro dela. E parecíamos umas loucas. Porque a gente estava muito triste, muito emocionada, mas se lembrava das histórias e ria.”

E como foi a preparação para Tamo Junto? Sem entrar muito em detalhes, o final tem uma cena nitidamente inspirada em A Primeira Noite de Um Homem, de Mike Nichols, de 1967, quando Dustin Hoffman rouba a noiva (Katharine Ross) e foge com ela de ônibus. Em Tamo Junto, o casal foge com uma mala, ou um mala, e é o personagem interpretado pelo diretor, Matheus Souza. Sophie ri da definição de Matheus como ‘mala’. “Não é, ele é muito fofo. Conheço o Matheus desde antes de ele fazer cinema, quando a gente só sonhava com tudo que nos está acontecendo hoje.” Sonhos podem virar realidade. Sophie que o diga. E o Primeira Noite...? “Foi uma referência superconsciente do Matheus. E é um grande filme, né?” Mesmo se não fosse, mas é, seria difícil discordar de Sophie Charlotte.

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