Blumhouse Productions
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Filmes expõem nas telonas as experiências de terror 'social'

Dos EUA, vem 'Corra!', que aborda o racismo; do Brasil, 'O Rastro', que situa sua trama em hospital abandonado

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

18 Maio 2017 | 07h00

São duas experiências de terror ‘social’. Existe isso? Com certeza - desde os anos 1960, George A. Romero tem usado suas histórias de mortos-vivos para refletir sobre a sociedade dos EUA. Começou com o movimento por direitos civis, a luta dos negros, atravessou a contestação, chegou ao consumismo do mundo global. Jordan Peele é herdeiro de Romero, com a diferença de que é um jovem diretor negro, refletindo sobre questões (o racismo) que pareciam ultrapassadas. E, no Brasil, JC Feyer faz trabalho de pioneiro, juntando-se aos cineastas que, nos últimos tempo, tentaram incrementar o gênero terror no País.

Qualquer cinéfilo de carteirinha já ouviu falar de Corra!, o longa de JP. Run Out, Fuja. O jovem negro, o próprio diretor, é levado pela namorada branca para conhecer os pais. Há exatamente 50 anos, Stanley Kramer contou essa história como comédia dramática em Adivinhe Quem Vem para Jantar? Emboras progressistas, Spencer Tracy e Katharine Hepburn tomam um susto quando a filhinha apresenta o namorado, Sidney Poitier. Sinal dos tempos, os transformadores anos 60, tudo terminava bem. Não agora. Há mais mistérios e segredos na casa da namorada que JP gostaria de saber. Corra!

O filme bateu recordes de público nos EUA. O maior sucesso de bilheteria de um diretor negro, o maior isso, maior aquilo. JP disse que teve a ideia ao ouvir, durante a era Obama, manifestações de racismo que pareciam superadas. De repente, o namorado vira alvo de uma caçada. O horror, o horror. Para um filme tão famoso, parece engodo. E os estereótipos... tem até aquele personagens muitas vezes incômodo - o palhaço que está certo, mas em quem ninguém acredita. É o amigo negro do herói, e ele representa com caras e bocas que remontam ao primitivo Al Jolson, branco que se travestiu de negro para fazer caricatura da questão racial em The Jazz Singer, o primeiro filme sonoro.

Comparativamente, o filme brasileiro - O Rastro - parece mais genuíno. JC Feyer encara a decadência do sistema de saúde. Você sabe. Mesmo que não precise enfrentar a fila do SUS, você vê na TV, lê nos jornais. Todo dia o mesmo inferno. Na trama, o dr. João (vivido por Rafael Cardoso) tem de comandar o processo de encerramento de um hospital caindo aos pedaços. Em meio ao processo, ele descobre essa paciente jovem - que some. Aonde foi parar? Investigando, o médico descobre o que não devia. Torna-se indesejável, como o conviva na casa dos pais da namorada. Coincidência ou não, ambos os filmes - suas tramas - abordam transplante ilegal de órgãos.

JC buscou o que chama de maneira brasileira de fazer terror. Sabe que o terror da realidade, as filas dos hospitais, assusta mais do que qualquer vulto nas sombras. O clima no hospital, o som, aquele impressionante vitral na escadaria em curva, tudo revela uma inteligência de encenador. Os clichês são indissociáveis do gênero. E o elenco... Leandra Leal, como Leila, a mulher grávida do médico, pode tudo, é uma atriz extraordinária. O Rastro não faz feio, principalmente comparado com Corra!

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