Filmes confirmam diversidade da produção nacional

'O Primeiro Dia de Um Ano Qualquer' e 'O Dia Que Durou 21 Anos' foram apresentados no Festival do Rio

Luiz Carlos Merten / RIO,

02 Outubro 2012 | 17h48

Nos últimos anos, o cinema brasileiro tem recontado, principalmente por meio de documentários, a história dos anos de chumbo. Em tempos de Comissão de Justiça, às vezes são filmes que já nascem polêmicos. Como Marighella, de Isa Ferraz, que traça um retrato afetivo de seu tio guerrilheiro, tentando mostrar que ele não era o monstro sanguinário pintado pelos militares. Surgiu agora no Festival do Rio o que talvez seja a gema - a pedra preciosa - dessa tendência. O Dia Que Durou 21 Anos, de Camilo Tavares, é a versão para cinema do trio de documentários curtos (26 minutos cada um), que o diretor fez para a Rede Brasil - e que passaram na TV no primeiro semestre.

Você ouviu falar muitas vezes na participação norte-americana no golpe militar. Não era paranoia da esquerda. Documentos finalmente revelados - e expostos, com imagem e som - revelam de forma inequívoca o papel do embaixador Lincoln Gordon na sequência dos acontecimentos. Os militares, ‘apoiados’ por Washington para fazer a faxina no Brasil e afastar o perigo comunista, representado por João Goulart, tomaram gosto pelo poder e a ‘faxina’ durou 21 longos anos.

Camilo é filho de Flávio Tavares, jornalista que integrou o grupo de 15 presos políticos trocados pelo embaixador Charles Elbrick. Nascido no exílio, segundo seu pai - produtor de O Dia Que Durou 21 Anos, presente na mesa de debate -, ele fez o filme para tentar entender a própria origem (e a pátria da qual vivia distante). O filme é documentado, informativo - e ágil. Camilo explica - "Queria atrair o público jovem, que conhece tão pouco dessa história. O resgate é fundamental, mas há que falar com a audiência". Boa parte do diálogo é em inglês, com base em documentos sonoros (e na fala de brasilianistas entrevistados). Era um efeito calculado - "Legitima nossa pesquisa para um público colonizado por Hollywood".

Sai a revisão da história do Brasil e entra... o amor. "Que outro tema existe?", pergunta, não sem provocação, o ator e diretor Domingos Oliveira. Depois do dia - 31 de março - que durou mais de duas décadas, ele traz O Primeiro Dia de Um Ano Qualquer. Não é o ‘último’ Domingos nem mesmo seu filme mais novo. No final do debate, realizado no Armazém da Utopia - no porto do Rio, sede do festival -, Priscilla Rozenbaum, atriz e mulher de Domingos, segreda para o repórter que ele já tem outro filme - pronto.

Quando o espectador brasileiro os verá? O sonho da produtora Tereza Gonzalez (alô-alô, distribuidores e exibidores) é lançar O Primeiro Dia em 1.º de janeiro de 2013. O filme trata de amigos que se reúnem numa casa na região serrana do Rio para o réveillon. Ano-novo, velhos amores. As pessoas - os casais - brigam, separam-se, reúnem-se, formam-se novos casais. O amor pode ser seu grande tema, mas Domingos garante que não tem fórmula. O discurso sobre o cinema também é único. Domingos, de 76 anos, faz o mesmo filme desde 1966 - há 46 anos -, quando surgiu Todas as Mulheres do Mundo.

O mesmo filme? No sentido em que Alfred Hitchcock e François Truffaut diziam que o autor se repete para se renovar (e depurar). Quase cinco décadas, a mesma fascinação pelo amor, pelo encontro de homem e mulher (os gays são minoria, quando aparecem, no cinema de Domingos) e um fascínio imenso pelo ator. Muitos filmes de Domingos nascem no teatro, mas não esse. Domingos estava na casa da amiga Maitê Proença. Uma casa de cinema, que ela nunca abriu para Caras, e agora põe na tela.

Filmado em menos de duas semanas, todo o processo durou oito meses. O custo? A produtora diz que o regime foi de cooperativa. O custo real, pagando todo mundo, seria de R$ 1,8 milhão. Do jeito que Domingos filma, ficou em R$ 80 mil. Por que pensar em custo? O importante é desfrutar as frases, as reflexões (sobre a vida e o cinema), as músicas, o desfecho lindo. Domingos tem uma definição de doido, no bom sentido. Diz que o cinema tem dois inimigos. "A imagem e o som." Seu desafio é cooptar esses inimigos - e também técnicos e artistas - para expressar sua visão de mundo. A mensagem de O Primeiro Dia - o mundo, ao contrário do calendário dos maias, não vai acabar. E o amor, como diria Vinicius, é eterno enquanto dura.

 

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