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ROBERT DOISNEAU

Filmes analisam a influente trajetória feminista de Simone de Beauvoir

Caixa de DVDs 'Simone de Beauvoir e o Feminismo' traz três documentários que ajudam a perfilar a autora francesa

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S. Paulo

08 Março 2016 | 11h47

Pergunte a mulher de uma geração mais madura. A Fernanda Montenegro, por exemplo. Ela vai dizer que a leitura de Simone de Beauvoir foi decisiva para sua conscientização de mulher. Outras mulheres, de gerações mais novas, talvez nem saibam, mas devem à intelectual francesa os gérmens de sua libertação feminina, ou será feminista? Companheira do filósofo Jean-Paul Sartre, Simone Lucie Albertine Marie de Bertrand Beauvoir, ou simplesmente Simone de Beauvoir, nunca se considerou uma filósofa, mas teve uma influência muito grande para o pensamento existencialista feminista e para a teoria feminista, em geral.

Nesta terça-feira, 8, Dia Internacional da Mulher, vale avaliar seu legado. E para isso contribui a Versátil, que está lançando um DVD, Simone de Beauvoir e o Feminismo, com três documentários que ajudam a perfilar a autora. Uma Mulher Atual, de Dominique Gros, tenta dar conta, em reduzidos 52 minutos, da multiplicidade de Simone – vida e obra, a relação com Sartre, os romances, o feminismo. Os outros dois são – Por Que Sou Feminista?, com a entrevista que Simone deu a Jean-Louis Servan-Schreiber, em 1975, 50 minutos, e o terceiro, Simone de Beauvoir Fala, de Wilfrid Lemoine, com outra entrevista, 40 minutos, que ela deu à Rádio Canadá, em 1959, e que foi censurada por pressãso da Igreja Católica. Simone fala de existencialismo, religião, casamento, amor livre. Foi demais para o pensamento conservador da época.

Em menos de duas horas e meia, assistindo ao três documentários, você terá um panorama amplo do pensamento de uma mulher que foi decisiva no século 20. Seu primeiro romance, A Convidada, de 1943, inspira-se na relação aberta que Simone e Sartre mantiveram com as irmãs Kosakiewicz, Olga e Wanda. Liberdade, ação, responsabilidade individual, tudo já está lá e, na época, o flagelo nazista assolava a Europa, o mundo – e aprisionava a França. Mas é o ensaio O Segundo Sexo, de 1949, que se torna obrigatório quando se tenta entender o pensamento da autora. Ela analisa o papel da mulher na sociedade dominada pelos homens e esboça seu perfil da nova mulher que reivindica seu espaço. A liberdade sexual faz parte do processo. O domínio do próprio corpo, também. Em 1971, quando o aborto era ilegal na França, firmou o Manifesto das 343 – mulheres que admitiam ter feito aborto ilegal. Entre elas estavam Catherine Deneuve e Delphine Seyrig. Em 1974, o aborto foi legalizado na França.

Quando Françoise Sagan escreve Bom-Dia Tristeza e expressa o mal-estar da juventude, ou quando Patriciá/Jean Seberg vai parar na cama de Michel Poiccard/Jean-Paul Belmondo e, depois, participa da fuga dele em Acossado, de Jean-Luc Godard, de 1960, tudo isso está conectado no mesmo movimento de recusa da tradição, das regras fixas. Simone rejeitava a ideia de que a natureza da mulher é a submissão ao homem. Dizia que isso era consequência da cultura – patriarcado, casamento, exploração capitalista. Anos mais tarde, Yoko Ono diria que “a mulher é o negro do mundo”, fazendo a ponte entre a submissão feminina e a escravidão. Só a consciência liberta.

Servan-Schreiber questiona Simone sobre uma frase – uma 'sentença' – que se tornou emblemática. “Ninguém nasce mulher, mas se torna uma.” Ela resaponde que, sim, essa é a base de toda a sua teoria. “O que quero dizer é muito simples, ser mulher não é um fato natural. É o resultado de uma certa história. Nãso existe destino biológico nem psicológico que determine como uma mulher deve ser. Bebês do sexo feminino são manufaturados para virar mulheres.” Com isso ela quer dizer – submissas. E é contra isso que se insurge.

Simone de Beauvoir morreu em 1986 – no dia 14 de abril vão se completar 30 anos. Seus últimos livros expressam inquietações sobre o envelhecimento e a morte, Uma Morte Suave e A Cerimônia do Adeus, sobre o fim da existência de Sartre. Eles nunca formaram um casal tradicional. Tinham seus (e suas) amantes, que passavam. Quando ela morreu, aos 78 anos, pediu para ser enterrada no mesmo túmulo que ele, no Cemitério de Montparnasse, em Paris.

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