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Filme 'Tangerine' agrada a todos porque é espontâneo

- Atualizado: 08 Fevereiro 2016 | 11h 20

Longa supera carência de produção com a vivacidade das personagens; confira o trailer

Cena do longa 'Tangerine', dirigido por Sean Baker
Cena do longa 'Tangerine', dirigido por Sean Baker

Em geral, não se dá muita atenção aos modos de produção de um filme, a não ser em casos especiais. Quando é muito caro ou muito barato, por exemplo. Ou quando é filmado com um iPhone 5 S, como foi o caso de Tangerine, de Sean Baker. Nesse caso, a primeira reação é admirar-se mais com a possibilidade de criar com um desses gadgets da vida moderna do que com a obra em si. Ok, a tecnologia democratizou o cinema (ao menos em sua fase de filmagem).

Não se é mais dependente dos custosos aparatos do passado, do preço da película e da iluminação, e o cinema pode então viver a utopia antecipada pelo crítico e diretor francês Alexandre Astruc em seu artigo Caméra-stylo: a câmera deveria ser tão econômica e ágil para o cineasta quanto a caneta o é para o escritor. Bastam, para um filme, uma ideia na cabeça e uma câmera (barata) na mão. Era o que também dizia a turma do Cinema Novo brasileiro. A frase é de Glauber Rocha.

Isso tudo é muito legal. Mas não exatamente novo. Cineastas “independentes” existem às dúzias em cada país. Inclusive no Brasil. Essa independência nada diz sobre a natureza dos filmes. Apenas que esses se produziram em condições livres das imposições econômicas tradicionais. Nada mais. Passada a fase (infantil) de deslumbramento com a nova tecnologia, é preciso voltar a pensar nos filmes em si mesmos.

E o que nos traz Sean Baker? Uma história de travestis, passada em Los Angeles. As duas personagens são engraçadas. Não são capazes de pronunciar uma única frase sem a palavra “fucking”. Bem, Tarantino também não é. São desbocadas, alegres, cheias de vida. Mas a realidade delas não é nada romântica. Prostituem-se para sobreviver. E uma delas tem um problema adicional. Soube que seu homem (e cafetão) pulou a cerca. Traiu-a. E com uma mulher, ainda por cima. Boa parte da ação será a busca pela cidade dessa “piranha”. Enquanto isso, sua colega preocupa-se com o show que fará como cantora num boteco noturno.

Backer também está atento à diversidade étnica de Los Angeles. Outro dos personagens principais é um taxista de origem armênia, mas que gosta de frequentar as travestis. Ele é casado com uma bela mulher, tem um filho pequeno, e a sogra lhe atazana a vida.

A história começa sem muito rumo aparente, como se fosse se contentar com o registro semidocumental de uma vida de periferia social. No entanto, com o decorrer do tempo, a dramaturgia se insinua e, quando damos por nós, estamos acompanhando com interesse a trajetória dos personagens e o jeito que arrumarão para resolver seus problemas e acomodar seus desejos.

Pois é disso que se trata nessa pequena fábula urbana com a duração de uma noite (a véspera de Natal): como sobreviver num mundo hostil sem renunciar ao que se deseja.

Muito do que o filme tem de agradável se deve à espontaneidade das personagens. São interpretadas por duas transgêneros. Sin-Dee Rella (Kitana Kiki Rodrigues) e Alexandra (Mya Taylor) conhecem por dentro o mundo em que se movem suas personagens de ficção. Foi a boa (e lógica) intuição de Baker. Trabalhar com gente por dentro daquele universo, e que podia encará-lo sem problemas e também sem idealização e menos ainda preconceitos.

A filmagem pode ter alguns pontos de precariedade. Mas isso em nada atrapalha o projeto. A boa ideia e a honestidade são fundamentais. A câmera faz o resto.

 

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