Monika Skolimowska/AP
Monika Skolimowska/AP

Filme romeno pode ambicionar Urso em Berlim

'Ana, Mon Amour', de Calin Peter Netzer, é o melhor longa do festival

Luiz Carlos Merten, ENVIADO ESPECIAL

17 Fevereiro 2017 | 21h52

BERLIM - E no último dia da competição, a sexta, 17, veio o melhor filme desta Berlinale - o romeno Ana, Mon Amour, de Calin Peter Netzer. No ano passado, em Cannes, a Romênia já se destacara com uma representação excepcional, incluindo Bacalaureat, de Cristian Mungiu, e Sieranevada, de Cristi Puiu. Filmes sobre a família, que refletem as diferenças de classes no país como herança do comunismo E mais - cada um do seu jeito, os autores romenos praticam uma estética baseada no plano-sequência como unidade de tempo e espaço.

Ana é sobre uma mulher mentalmente instável. Tem um namorado que abre mão de muita coisa por ela, para estar com ela. A situação se inverte - Ana se fortalece e Tomu, é seu nome, se fragiliza. Só que Ana fica sufocada com a demanda dele. Precisa da sua independência. O filme segue as terapias dele, e dela. Tomu se analisa, Ana se analisa e o filme analisa os dois. Foi-se o sonhado prêmio de interpretação masculina para Júlio Machado, por Joaquim, de Marcelo Gomes.

Foi-se? Pois o júri presidido por Paul Verhoeven, que outorga seus prêmios na noite deste sábado, 18, teria de premiar conjuntamente Mircea Postelnicu, que faz Tomu, e Diana Cavallioti, a Ana. Um fornece o diapasão para o outro. Poucas vezes a intimidade de um casal foi tão devassada na tela. E aí voltam as chances de Machado. Júris não costumam premiar melhor ator e atriz pelo mesmo filme. Ana, Mon Amour, pode ambicionar o Urso de Ouro de melhor filme ou os de Prata de direção e/ou especial do júri. O favorito - questão social, imigrantes, um calor humano muito grande - segue sendo O Outro Lado da Esperança, de Aki Kaurismaki. Seria o ouro do consenso.

Até pela personalidade controversa do presidente do júri - o diretor de Elle, Verhoeven -, a melhor atriz deve ser a transexual chilena Daniela Vega, por Una Mujer Fantástica, de Sebastián Lelio. Em termos estritos de qualidade estética, podem ambicionar prêmios o senegalês Felicité, de Alain Gomis, o documentário alemão Beuys, de Andres Veiel, sobre o lendário artista do chapéu, Joseph Beuys; o japonês Mr. Long, de Sabu; e o inglês The Party, de Sally Potter, mas aí será um prêmio à politesse britânica. De Portugal veio um filme convulsivo sobre a crise - Colo, de Teresa Villaverde. Do Brasil, Joaquim. Da China, a animação Tenha Um Bom Dia (Hao Ji Le), de Liu Jian, que bem merece um daqueles prêmios de contribuição artística que Berlim gosta de atribuir.

O júri, decididamente, não leva jeito de premiar o coreano On the Beach at Night Alone, de Hong Sang-soo, nouvelle vague demais (mas encantador). E sempre haverá a opção honrosa de premiar Final Portrait, de Stanley Tucci, em que Geoffrey Rush está genial como o pintor Alberto Giacometti. Nos últimos anos, com menos filmes - neste ano, são 12 - o Brasil sempre tem saído premiado da Berlinale, vencendo nas mostras paralelas. E agora? Embora a competição seja sempre a cereja do bolo, as demais seções são sempre atraentes. Um dos melhores filmes desta Berlinale concorre ao Oscar de documentário e está em cartaz em São Paulo. Eu Não Sou Seu Negro, de Raoul Peck, é um assombro, como História e cinema.

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