Filme revive amizade de Ettore Scola e Fellini

Longa faz sua estreia no circuito comercial depois de passar pelo Festival de Veneza e pela Mostra de Cinema de São Paulo

Luiz Zanin Oricchio , O Estado de S.Paulo

07 Junho 2014 | 16h00

Moço pobre e ambicioso, um certo Federico saiu de sua cidade natal e foi tentar a vida na capital do país. Queria dedicar-se às artes, talvez ao cinema, mas começou pelo Jornalismo. Essa é a história de um Federico que se chamava Fellini e viria a se tornar um dos gênios incontestes do cinema mundial. Ele deixou sua Rimini natal, foi a Florença, depois a Roma e, como desenhava, pediu emprego na revista satírica Marc'Aurelio. Essa é a história de Que Estranho Chamar-se Federico - Scola Conta Fellini, que estreia no circuito comercial depois de passar pelo Festival de Veneza e pela Mostra de Cinema de São Paulo.

Na verdade, o filme é celebração de uma grande amizade entre esses dois cineastas absolutamente fora do normal. Fellini é o gênio, e Ettore Scola, um dos últimos grandes do cinema italiano ainda em atividade. O filme estreia 20 anos depois da morte de Fellini, ocorrida em 1993.
A amizade dos dois está contada no filme desde quando se conheceram. O então garoto Fellini chegara à revista com seus desenhos debaixo do braço e conseguiu um lugar. É caçula numa turma de cobras criadas, uma equipe que, em pleno fascismo, enfrentava a censura de Mussolini. Como se sabe, nada mais ingrato, mas também nada mais recompensador que fazer graça sob a ameaça de um regime totalitário. Os riscos são grandes, mas a simples obrigação de driblar a censura pode ser um fator de estímulo muito poderoso.

Scola, aos 16 anos, chega à Marc’Aurelio em 1947, já no após-guerra. Fellini, 11 anos mais velho, então já é um veterano e está envolvido com o cinema. Acolhe o recém-chegado como a um irmão mais moço e passam a frequentar a noite romana. O garoto Ettore acompanha Federico em seus longos passeios romanos, falando com bêbados, mendigos, prostitutas, saltimbancos, artistas de rua, ricos excêntricos, notívagos em geral, tipos curiosos e sem eira nem beira - enfim, pessoas de toda a espécie que, no futuro, entrariam como personagens nos filmes de ambos.

Curiosamente, um filme tão italiano como Que Estranho Chamar-se Federico começa com uma citação em espanhol, e da qual deriva seu título: “Entre los juncos y la baja tarde, qué raro que me llame Federico”. Os versos, claro, são de outro Federico, de García Lorca, o poeta formidável, fuzilado pelos fascistas durante a Guerra Civil na Espanha. Scola toma esses versos como sugestão de um título original, mas também como alusão ao fascismo, sob forma italiana, enfrentado pelo próprio Fellini. Essas experiências de juventude sob o Duce aparecerão em filmes posteriores, em especial neste que tem na própria ideia da memória o seu tema maior - Amarcord, que, no dialeto de Rimini, significa “Eu me Recordo".

Que Estranho Chamar-se Federico trabalha numa linha narrativa dupla. Usa atores para reconstituir passagens da vida tanto de Fellini como de Ettore Scola (ambos são interpretados por netos de Scola). Mescla essas encenações ao material de arquivo, com imagens do “verdadeiro” Fellini em diversas fases de sua vida. Vasto arquivo disponível, diga-se, já que Fellini, depois de um começo um tanto anônimo como diretor, logo conheceria a fama. Frequentou - e venceu - os grandes festivais de cinema do mundo, recebeu vários Oscars entre outros prêmios, foi popular, encantou a crítica e teve toda a mídia disponível em seu tempo. Portanto, imagens suas não faltam.

Assim como não faltam imagens dos seus filmes, desta fabulosa filmografia que vai de 1950, a estreia com Mulheres e Luzes, em parceria com Alberto Lattuada, até Vozes da Lua, de 1990, seu último trabalho e testamento. Entre eles, obras-primas absolutas, como A Doce Vida e Oito e Meio, além de A Estrada da Vida, Noites de Cabíria, Os Palhaços, Roma, Amarcord, etc. Uma filmografia de sonho, que muitas vezes usa o próprio sonho como fonte de inspiração e material de trabalho.

Entre as imagens selecionadas por Scola há algumas bastante conhecidas e outras no mínimo raras, senão inéditas. Por exemplo, as provas para a escolha de um ator que interpretasse Giacomo Casanova, e que acabou ficando com Donald Sutherland, não sem antes terem sido testados vários outros atores. Essas provas de bastidores são muito reveladoras da personalidade de Fellini, um humanista que às vezes não deixava de se comportar como um bruto com seus atores. Há o making of de Satyricon, seu grande filme que adapta o relato romano de Petrônio, no qual uma das atrizes lhe diz, queixosa: "Você não tem o direito de tratar uma atriz desse jeito”. Ao que Fellini "responde" com um gesto de enfado tipicamente italiano.

Bem-humorado, irônico, satírico, ele não era sempre fácil de lidar. Seus atores, no mais das vezes, trabalhavam no escuro, sem sequer conhecer suas falas. Fellini mandava que recitassem números durante as cenas. Mais tarde as falas seriam dubladas e acrescentadas sobre o movimento dos lábios. Nada disso é escondido. Scola não pretende fazer uma hagiografia. Gostava de Fellini do jeito que ele era, sem qualquer necessidade de esconder seus defeitos, que ele tinha às pencas, sem deixar de ser genial por isso.

Talvez seja por isso mesmo que esse mix de ficção e documentário comova tanto as pessoas. Ele não é uma ode aos homens perfeitos. É retrato de um cineasta que legou uma obra fundamental, mas, quando visto de perto, era humano, falível, bondoso, irascível ou gozador, como qualquer um de nós pode ser. A amizade entre os dois estava acima dessas turbulências e era tanta que Scola convenceu Fellini a interpretar a si mesmo em seu filme Nós Que Nos Amávamos Tanto, de 1974. Nele, Fellini aparece rodando a cena que se tornou ícone do cinema da modernidade - o banho da divina Anita Ekberg na Fontana de Trevi, sob o olhar fascinado de Marcello Mastroianni. No final da filmagem, um fã dirige-se a Fellini: "Vi todos os seus filmes, ... senhor Rossellini".

Fellini era autoirônico e, sendo muito famoso, achava graça quando o confundiam com outro. No caso, o grande Roberto Rossellini, pai do neorrealismo italiano e com quem Fellini, ainda iniciante, trabalhou como roteirista e até como ator. Em outro de seus filmes, o falso documentário Os Palhaços (I Clown), Fellini faz uma bibliotecária chamá-lo de "Signore Bellini".

Sendo a graça, a autogozação, o não levar-se a sério uma característica do amigo, Ettore Scola não poderia dar desfecho triste ao filme, mesmo que este retrate Fellini até a morte. A maneira como trata do velório do amigo, realizado no estúdio de Cinecittà onde ele costuma filmar, é uma verdadeira epifania. Mas esta terá de ser revelada a cada espectador em particular.

Basta dizer que, graças a essas cenas finais, Que Estranho Chamar-se Federico produziu um rio de lágrimas em Veneza. Na seção de gala, chorou até o presidente da Itália, Giorgio Napolitano. À sua maneira seca, Ettore Scola disse que não via razão para tanto: "Fellini era um homem alegre, realizou tudo o que quis em sua vida; não há nenhum motivo para lamentar quando evocamos uma vida assim completa".

Verdade. Mas também puro jogo de cena. Scola sabe muito bem que não se chora apenas de tristeza. Chora-se mais ainda de emoção.

Que estranho chamar-se Federico-Scola conta Fellini

Gênero: Drama (Itália/2012,90 min.) Classificação: 16 anos

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