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Filme inédito do cineasta Orson Welles pode estrear em 2015

'The Other Side of the Wind' não foi adiante por falta de recursos

Fernando Mexía , O Estado de S. Paulo

06 Maio 2015 | 03h00

LOS ANGELES  - Orson Welles deixou um filme inacabado, The Other Side of the Wind, mais de 1.000 bobinas guardadas a sete chaves em um depósito de Paris. Seu conteúdo inédito poderá estrear em 2015, 30 anos após sua morte e 100 anos depois do seu nascimento, em 6 de maio de 1915, em Wisconsin. 

Welles rodou entre 1970 e 1976, em diversos intervalos e de forma caótica, um projeto muito pessoal que não foi adiante por falta de recursos. O filme, embora não exatamente autobiográfico, estava centrado na figura de um lendário diretor que acabou na pobreza depois de mudar-se para a Europa, e por fim decide regressar a Hollywood para retomar sua carreira.

O material rodado, considerado um tesouro cinematográfico, permaneceu escondido desde a morte de Welles, sob a guarda da sua única filha herdeira, Beatrice, zelosa protetora do legado paterno, que compartilha os direitos de exploração com a atriz Oja Kodar e a companhia franco-iraniana L'Astrophore.

Apesar das várias tentativas para trazer à luz o material, a falta de acordo entre as partes tornou impossível a realização de The Other Side of the Wind, até que os produtores Frank Marshall e Filip Jan Rymsza, do Royal Road Entertainment, conseguiram desbloquear a situação em 2014.

A companhia tem a autorização para concluir a película, trabalho que está sendo executado com toda discrição, embora fontes próximas do projeto tenham confirmado à agência EFE que o processo avança.

Neste momento, está se realizando a catalogação, e as bobinas ainda se encontram em Paris, à espera de serem transportadas para Los Angeles.

Na Califórnia, começará sua edição, e os produtores dependem da contratação de um editor de primeira categoria, capaz de imitar o estilo de Welles e intuir suas intenções na hora de juntar os planos. The Other Side of the Wind ainda não tem distribuição definida, embora se acredite que a fita esteja terminada em 2015, uma data provisória, pois não existem obrigações contratuais para que ela estreie em um momento determinado, motivo pelo qual sua apresentação poderá ser adiada para 2016.

"Welles queria que a película tivesse 2 horas de duração", explicou Josh Karp, uma das poucas pessoas que puderam ver parte da metragem e autor do livro Orson Welles's Last Movie: The Making of The Other Side of the Wind, publicado em abril e no qual ele conta os rocambolescos segredos da produção.

A ideia do filme começou a germinar em 1937, depois de uma briga de socos entre Orson Welles e Ernest Hemingway, um choque de egos num estúdio de gravação em Manhattan. Jovem, mas já famoso, Welles, que havia sido chamado por Hemingway para narrar seu documentário The Spanish Earth sobre a Guerra Civil espanhola, decidiu modificar o roteiro do escritor para melhorá-lo, o que não agradou ao temperamental autor que o acusou de ser homossexual.

A isto Welles respondeu com uma piada sobre sua pose de macho. A disputa acabou entre gargalhadas e uísques, segundo relatou Karp, que assinalou as coincidências entre o protagonista de The Other Side of the Wind, Jake Hannaford, e o próprio Hemingway. Hannaford representa o clichê do cineasta machão no mais puro estilo John Ford, e a ação narrada no filme se passa num 2 de julho, o último dia da vida do personagem. Hemingway se suicidou num dia 2 de julho de 1961.

Welles, explicou Karp, considerava uma pantomima esta exibição de testosterona atrás da qual poderia se ocultar uma homossexualidade reprimida, e capta isto em seu filme, em que mostra de forma sutil a atração que Hannaford sente por seu ator principal, um fator fundamental no desenlace da trama.

John Huston interpreta Hemingway na filmagem, da qual participaram também Oja Kodar, Peter Bogdanovich e Dennis Hopper, entre outros. Embora Welles conhecesse perfeitamente o roteiro, predominou a improvisação, e "as atuações que ele consegue são incríveis, principalmente a de John Huston e a de Peter Bogdanovich", afirmou Karp, que descreveu a fita como avançada em relação à sua época, de ritmo intenso e com planos breves.

As histórias daquela filmagem, incluindo a cena na qual Huston dirige na contramão numa rodovia, depois de ter tomado uns copos a mais, para terror de toda a sua equipe, poderão transformar-se também num filme. Karp vendeu os direitos do seu livro ao produtor Joe Infantolino, da Beech Hill Films.

"Estamos trabalhando num roteiro", disse o autor, que já sonha em ver Jeff Bridges caracterizado como Orson Wellws e Nick Nolte como John Huston. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

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