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Filme e livro celebram a arte de Apichatpong Weerasethakul

- Atualizado: 18 Março 2016 | 19h 59

O lançamento de 'Cemitério do Esplendor' e do livro 'Apichatpong Weerasethakul' engrandecem o autor tailandês

São belos e misteriosos, os filmes de Apichatpong Weerasethakul. Basta citar Mal dos Trópicos e Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas para que o espectador – o cinéfilo – seja transportado a um mundo de sonho. Em sucessivas entrevistas – e em Cannes, no ano passado, num encontro para falar de Cemitério do Esplendor, que estreou na quinta, 17 –, o autor tailandês disse sempre ao repórter que sonha muito e que seus sonhos compõem uma parcela orgânica de sua vida. “Me parecem mais verdadeiros que a própria realidade. E são, com certeza, mais narrativos”, ele brinca.

Sonhos narrativos? Estão na contramão do cinema de Apichatpong, conhecido no universo do cinema de autor e das artes visuais como ‘tio Joe’. Cemitério é mais uma prova, como se necessária fosse. O filme trata de soldados vítimas de uma misteriosa doença do sono. São tratados no anexo de um hospital. Uma mulher, Jenjira – interpretada pela atriz fetiche do diretor, Jenjira Pongpas Widner –, interessa-se pelo caso de um deles, Itt, que não recebe nenhuma visita. Descobre que ele tem um diário, cheio de escritos e desenhos estranhos. Jenjira começa a pensar que o material tem conexão com um sítio mítico. Investiga e sua busca ilumina menos o caso do soldado do que indagações que a consomem – sobre ela mesma e o mundo ao redor.

Apichatpong – beleza, mistério, onirismo. Passada a temporada do Oscar, Cemitério do Esplendor estreia para ser um dos grandes filmes do ano, com O Cavalo de Turim, de Bela Tárr, e A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa. E o bom é que, simultaneamente, ocorre o lançamento do livro Apichatpong Weerasethakul, da Iluminuras. Com base no filme Hotel Mekong e na exposição realizada em 2013/14 em Belo Horizonte e no Rio, o livro disseca tudo sobre ‘tio Joe’, sua vida, seus filmes, até 2013. Cemitério é referido somente como projeto, e ainda é Cemetery of Kings, Cemitério de Reis. Em Cannes, em maio do ano passado, Apichatpong estava feliz de apresentar seu filme, mas não muito contente de ficar fora da competição. “Foi uma decisão de Thierry (Frémaux, diretor artístico), que me jogou na mostra Un Certain Regard. Por mim, estaria na competição, se me fosse dado escolher.” E se Cemitério estivesse na competição, o júri presidido pelos irmãos Coen teria continuado outorgando a Palma de Ouro para Dheepan, de Jacques Audiard? O repórter não era o único a achar que o filme de Apichatpong era dos melhores (o melhor?) da seleção oficial. O autor poderia ter bisado a Palma que recebeu por Tio Boonmee, em 2010.

'Tio Joe'. "Na Tailândia, a liberdade fica cada vez mais difícil"
'Tio Joe'. "Na Tailândia, a liberdade fica cada vez mais difícil"

Ele contou a gênese de Cemitério. “Há três anos (hoje, seriam quatro), falou-se muito na Tailândia de um hospital no norte do país, onde as autoridades colocaram em quarentena soldados que apresentavam sintomas de uma doença que ninguém conseguia identificar. A ideia do isolamento deflagrou um processo muito íntimo de lembranças que compõem minha identidade. Sou filho de médicos e cresci em Khon Kaen, onde eles eram clínicos. Morávamos numa cabana, no anexo do hospital, na selva, e as minhas memórias primevas remontam a esse lugar. Eventualmente, meus pais me permitiam brincar com o microscópio e o que via atiçava minha imaginação. Em Khon Kaen, havia um Instituto Americano – toda a região abrigava bases dos EUA. Lembro-me da minha excitação quando vi o King Kong antigo, em preto e branco (de Merian Cooper e Ernest Shoedsack, de 1933). Imagine tudo isso se misturando na cabeça de um garoto sugestionável, como eu era.”

Some tudo – o hospital, a doença do sono, os sonhos que Apichatpong considera mais reais que a realidade, e locais que ele reencontrou em Khon Kaen. “Há muito tempo não voltava lá. A cidade mudou muito, mas lugares importantes para mim, como o lago, permaneceram intocados.” E ele contou como essa região do país é a mais marcada pelos mitos e pela espiritualidade. “Khon Kaen situa-se em Isan, que sempre esteve na confluência dos grandes impérios – Camboja, Laos. Lá permanecem vivos os signos do animismo ‘khmer’. Estou falando de antes da ‘taisificação’, quando as autoridades de Bangcoc anexaram o norte.” No filme, há o que talvez seja uma justificativa política para o sono dos soldados. Eles dormem sobre um antigo cemitério de reis, que se apossam de sua energia para travar suas batalhas no além. “A Tailândia tem vivido uma sucessão de golpes, é um país muito instável. Quis criar uma metáfora, o sono, para a letargia que paralisa tudo. De alguma forma, tenho a impressão de que se trata de uma despedida para mim. Sou conhecido, disponho de uma posição pessoal confortável, mas as liberdades, a pessoal e a artística, andam cada vez mais difíceis”, afirma.

APICHATPONG WEERASETHAKUL

Org.: Daniella Azzi e Francesca Azzi

Editora: Iluminuras (231 págs., R$ 58)

Uma terapia da cor que age no imaginário dos cinéfilos

Eles formam uma espécie de confraria (imaginária?) de autores de cinema. Apichatpong Weerasethakul, Carlos Reygadas e Miguel Gomes. “Emprestei meu diretor de fotografia (Sayombhu Mukdeeprom) para Miguel fazer As Mil e Uma Noites, a filmagem se estendeu demais e fiquei sem fotógrafo. Carlos me indicou Diego García, que vai fotografar seu próximo filme, e só tenho de agradecer. Mas, para falar a verdade, acho que ele me usou como cobaia.”

Apichatpong fez essa confissão a um reduzido grupo de jornalistas em Cannes, em maio do ano passado. O grupo era pequeno mas entusiasta. Todos amaram Cemitério dos Esplendor e tentavam extrair do cineasta informações para desvendar os múltiplos significados de tão belas imagens. Até por ser filho de médico, Apichatpong disse que sempre se interessou pelo assunto e, numa certa época, leu muito sobre o funcionamento do cérebro. Interessou-se pelo caso de um cientista do Massachusetts Institute of Technology que manipulou os neurônios de pacientes para tentar fazer reviver lembranças por meio de feixes luminosos. E Apichatpong acrescentou que, a se julgar pelos resultados anunciados pelo tal cientista, suas descobertas contradiziam a teoria de Descartes que estabelece que corpo e espírito são entidades distintas.

Isso, segundo o autor, somente fortaleceu sua crença de que a meditação é um processo biológico e que seria (é) possível para qualquer pessoa penetrar no sono ou na memória dos outros. E Apichatpong meio que delirou - “Se fosse médico como meus pais, tentaria curar os pacientes por meio de interferências luminosas no cérebro.” A parte mais significativa dessa confissão - a terapia das cores empregada no tratamento dos soldados de sua ficção baseia-se nisso, mas elas não estão lá (as cores) somente para os pacientes. Visam a atuar também no inconsciente do espectador.

Itt e Jenjira. Ela tenta penetrar nos segredos do paciente
Itt e Jenjira. Ela tenta penetrar nos segredos do paciente

Essa tem sido a tônica dos filmes de Apichatpong Weerasethakul, que visam a atingir camadas profundas no inconsciente do espectador, quase sempre cinéfilo. São filmes que se constroem em tempos lentos, nunca mortos, e que por meio do onirismo criam seu ritmo peculiar. É dessa forma que se constrói a história de Jenjira e Itt. Ele dorme, ela sonha acordada por ele. Sussurra em seu ouvido, no leito. Jenjira tenta penetrar nos segredos de Itt, com base em seu diário. 

Casada com um norte-americano - e a presença dos EUA sempre foi forte no país -, ela descobre mais sobre si mesma e o mundo que a cerca. Na entrevista acima, Apichatpong assume que Cemitério do Esplendor é um pouco a sua cerimônia de adeus ao país em que está cada vez mais difícil viver (por motivos políticos). Nada é dito de forma explícita. Tudo é relativizado, metaforizado. É como se Cemitério fosse sobre ‘nada’ - o sono misterioso dos soldados, e só. Quanto mais escava as camadas do filme, o espectador descobre que é sobre ‘tudo’. A vida, o amor, a morte - a arte.

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