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Filme de Vicente Ferraz mostra o sacrifício brasileiro na Segunda Guerra Mundial

‘Estrada 47’ capta o elemento humano, frágil numa situação de risco

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

08 Maio 2015 | 03h00

Há qualidades a serem apontadas em A Estrada 47, de Vicente Ferraz. Em primeiro lugar, o esmero técnico, obtido em condições de filmagem difíceis, ainda mais com orçamentos apertados como os do cinema nacional. Um elenco muito bom – Daniel de Oliveira, Thogum, Julio Andrade, Francisco Gaspar, além do italiano Sergio Rubini e do alemão Richard Sammel. 

Por fim, mérito ao abordar um tema complicado, a presença brasileira na 2.ª Guerra Mundial, encontrando um caminho justo, que evita tanto o ufanismo como o deboche. Essa soma de qualidades bastou para dar a Estrada 47 o prêmio principal em dois dos mais importantes festivais de cinema do País – o de Gramado e o Cine Ceará, ambos em 2014. 

A ideia de Ferraz é dar dimensão humana aos combatentes da Força Expedicionária Brasileira na campanha da Itália. Existe ainda muita controvérsia histórica a respeito dessa participação. Há quem garanta que foi a moeda de troca de Getúlio Vargas para o financiamento americano da usina de Volta Redonda.

Ao longo da primeira fase da guerra, Getúlio procurou manter a neutralidade, até ser obrigado a tomar partido. Enviar tropas era decorrência de haver escolhido um lado. E lá foram os pracinhas, heroicos para uns, simplesmente despreparados para outros. Por exemplo, a campanha brasileira é ironizada num filme como Rádio Auriverde, de Sylvio Back, que rendeu muita polêmica na época do seu lançamento. A Cobra Fumou, de Vinicius Reis, toma partido oposto. 

A opção – ficcional – de Vicente Ferraz toma o lado dos soldados. A história é a da conquista da tal Estrada 47, minada, que, uma vez liberada, permitiria o avanço das tropas americanas. Para fazer o serviço, os brasileiros vão para o sacrifício, enfrentando a neve, a solidão, o medo. No final, a glória ficará para outros, o que é um comentário adicional sobre os vencedores da História (com agá maiúsculo) e o local privilegiado que ocupam no panteão. São também esses bons propósitos críticos, ao lado das atuações convincentes, que fazem a força do filme. 

No entanto, há que se dizer que, apesar de muitos bons momentos, A Estrada 47 sofre de uma espécie de anemia interna, uma falta de punch que o torna menos eficaz e emocionante do que poderia ser. Há muitos tempos vazios em sua estrutura. Ok: os tempos mortos fazem parte de algumas das narrativas mais fabulosas (como O Deserto dos Tártaros, de Valerio Zurlini), mas é preciso cuidado para agenciá-los. Tempos de espera devem soar como de ação, como em Onde Começa o Inferno, de Howard Hawks, com seus 141 minutos que não se veem passar. É preciso que se integrem, por assim dizer, à narrativa, algo que nem sempre acontece em A Estrada 47. A sensação, no espectador, é de que o longa padece um pouco de falta de assunto. Pode até nem ser isso, mas causa esse incômodo subjetivo. 

Talvez essa impressão de ser arrastado lhe cobre algo no desempenho de público, pois A Estrada 47 não é, nem quis ser, um filme convencional de guerra. Não interessava ao diretor a dinâmica dos combates e, se eles existem em alguns momentos, o foco é sempre outro: o elemento humano, frágil numa situação de risco total de vida e procurando manter a dignidade nas condições em que seria mais lógico perdê-la. A falta de tradição do cinema brasileiro nesse domínio também contribui para a impressão de estranheza. É filme a ser visto com cuidado, respeito e atenção. Não sei se despertará paixões. 

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