Filme de Sebastião Salgado é atração do Festival do Rio

Longa retrata trajetória de um dos fotógrafos mais importantes

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

22 Setembro 2014 | 19h13

Juliano Ribeiro Salgado nasceu em Paris, em 1974. Tem dupla nacionalidade. Vive na França, tem uma carreira lá, mas o coração é brasileiro. Ele conta que sua relação com o pai nem sempre foi fácil. Sebastião saía para seus projetos e, às vezes, ficava longo tempo fora. O diálogo era difícil. A mãe, Lélia, tinha de ser os dois, pai e mãe. Mas Sebastião Salgado sempre apoiou o filho. Quando resolveu fazer cinema, quando partiu para o Afeganistão. E em 2004, quando Sebastião foi fazer seu grande projeto, Genesis, quis ter o filho a seu lado.

Ficaram próximos e Juliano acompanhou, com sua câmera, o pai em outras viagens. Já pensava num documentário, mas havia um problema. “Muitos filmes foram feitos sobre Sebastião. Para a maioria desses documentaristas, o mistério termina quando ele clica e a foto aparece. Eu queria ir mais fundo, contar sua história, que pouca gente conhece. Por mais de 40 anos, Sebastião viveu confrontado com condições extremas, fotografando uma humanidade que sofria todo tipo de hecatombe. O que me interessava era o efeito disso. O que muda um homem, o que mudou no Sebastião? Eu sei, eu o vi no meio dos índios, na Guiné, em muitos lugares. Sebastião olha as pessoas e não as julga. Coloca-se no mesmo plano delas, compartilha. E ele não chega, tira uma foto e vai embora. Tem de conviver, ganhar confiança, entender. Tudo isso exige tempo e só depois a foto sai. Ele detesta o termo militante, mas é um. Sabe que seu olhar sobre as pessoas pode ter efeitos transformadores para elas. Mas eu sabia que, para contar isso, precisava do suporte de um olhar estrangeiro. Não era só o filho falando do pai. Tinha de somar outro olhar, e foi o de Wim.”

Em Cannes, onde o filme foi premiado na seção Un Certain Regard, Wenders contou que acompanha o trabalho de Sebastião Salgado há mais de 25 anos. Gostou tanto de duas de suas fotos que as comprou, emoldurou e colocou sobre a mesa de trabalho. Fotos de gente, não de paisagens, para lembrá-lo da humanidade. E quando Juliano o contactou e ele começou a pensar o filme e a falar com Sebastião - a quem, a essa altura, já conhecia -, Wenders deu-se conta de que eram dois filmes. “Fizemos juntos a seleção das fotos. Minas de ouro no Brasil, genocídio em Ruanda, fome no Sahel. Imagens impressionantes. Como esse homem consegue ficar tão próximo das pessoas? Como consegue captar a alma delas nas fotos? E então descobri o conservacionista, com um trabalho genial no interior do Brasil. As terras ao redor da fazenda do avô de Sebastião em Aimorés sofreram brutalmente os efeitos do desmatamento. A mulher e ele criaram uma ONG, Terra, plantaram 2,5 milhões de árvores, vão plantar mais 1 milhão. Recuperaram a floresta, deram empregos. E não fizeram para eles. A nova floresta virou reserva ecológica. Essa era a outra história que tínhamos de contar e as duas tinham de se unir, num só filme. E ainda havia a relação pai-filho. Mais que um desafio, foi um estímulo para fazermos o filme.”

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