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Filme de diretor turco que ganhou a Palma de Ouro em Cannes está em cartaz no Brasil

Nuri Bilge Ceylan esculpe o tempo e bebe na fonte de Chekhov para discutir a função do intelectual em ‘Winter Sleep’

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

11 Maio 2015 | 03h00

Durante anos, o turco Nuri Bilge Ceylan integrou a competição de Cannes, sempre como favorito à Palma de Ouro. Ele foi, como se diz, comendo pelas bordas, ganhando prêmios importantes, mas nunca o principal. Até que, no passado, o júri presidido por Jane Campion, enfim, lhe outorgou a Palma. Talvez não fosse o ano em que Ceylan devesse ter sido premiado, mas Winter Sleep é um belíssimo filme. Todo o autor está ali presente. Na luz, nos planos longos, nos extensos diálogos, na discussão sobre o papel (a função) do intelectual no mundo.

Ceylan volta à Anatólia. Seu personagem possui um hotel. É pesquisador, está escrevendo um livro sobre o teatro da Turquia. É mesquinho nas questões que envolvem dinheiro. Tem problemas com a mulher, que o acusa de asfixiá-la com sua presença dominadora. E a irmã lhe joga na cara a grande promessa de intelectual que foi, mas não concretizou. Há uma arquitetura peculiar. Casas esculpidas na pedra, como cavernas. Há um mistério da luz, outro, do tempo – Ceylan ama os planos longos. O diálogo de Aydin com a irmã – ele no computador, no primeiro plano, ela sentada no sofá, ao fundo – seria só uma rara manifestação de virtuosismo, se não fosse tão vivo. Eles discutem conceitos artísticos, filosóficos. Falam de si, tudo taco no taco, sem fôlego, uma fala imensa. Será preciso ver a cena umas dez vezes para captar as nuances da movimentação da câmera. E para tirar a dúvida? Ceylan corta? O plano é realmente contínuo?

Um cinema falado, feito de longas pausas, e no qual a paisagem irrompe no quadro como na vida dos personagens. Todos eles terminam expressando o meio em que vivem. Em sucessivas conversas com jornalistas em Cannes, Ceylan disse sempre a mesma coisa: “Faço filmes que por suas características estruturais não se dirigem a uma audiência massiva. Não excluo ninguém, mas o fato de não me ligar a gênero nenhum e de não contar histórias – meus filmes me parecem sempre se desenrolar entreatos –, nada disso favorece a adesão. Os próprios personagens não preenchem expectativas, aquilo que o público espera deles. Não faço isso por gosto nem como uma operação calculada para ser ‘autor’. Ocorre ser assim que eu me vejo, e vejo as pessoas e o mundo ao redor. Talvez esteja condenado a ser um diretor para minorias. Talvez seja melhor”.

Após receber a Palma, Ceylan deu uma coletiva e disse que o prêmio superara “minhas mais exageradas expectativas”. Bem antes disso, num rápido encontro com o repórter no stand da Unifrance, parecia conformado de que, mais uma vez, não ia ganhar. “Se nem (Andrei) Tarkovski ganhou a Palma, me parece excessivo esperar que ela me seja atribuída. Mas seria excepcional, sem dúvida. Quem entra numa competição é porque gostaria de ganhar.” Por mais que o cinema de Tarkovski, a forma como ele esculpia o tempo, seja uma referência para Ceylan, no caso de Winter Sleep a inspiração veio do teatro. Strindberg, a abordagem das mulheres, e a contribuição de um russo genial. Há 15 anos, Ceylan leu uma história curta de Chekhov, A Mulher (Esposa). Ficou tão fascinado que começou a escrever um roteiro, ao qual acrescentou outras tramas e personagens do autor. Gente Comum, por exemplo. Mas A Mulher sempre predominava.

“Na verdade, embora não aconteça muita coisa, me atraía a construção do clima e a forma como a personagem divagava suas autorreflexões.” A questão era – como transformar isso em cinema? “Na verdade, foi só depois de Era Uma Vez na Anatólia que me liberei para fazer Winter Sleep, encontrando a forma de dar vida a Chekhov. Percebi que devia dar significados mais profundos às texturas dos eventos literais da trama. A prosa de Chekhov me guiou na elaboração dos monólogos. É algo que está além da história, em si.” Uma cena já nasceu antológica em Winter Sleep. A que envolve o dinheiro, e a relação entre pai e filho, na visita à casa dos arrendatários das terras de Aydin. Poucos diretores – Naomi Kawase? Apichatpong Weerasethakul? – logram essa densidade/integração ao fundir a paisagem à vida interior dos personagens. 

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