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Filme 'Cinco Graças' vai da indignação à resistência

Longa testemunha as condições da mulher na Turquia

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2016 | 03h00

Em pouco tempo, Alice Winocour tornou-se uma importante diretora e roteirista francesa. Vinda da Fémis, a mais conceituada escola de cinema da França, ela ganhou um prêmio de curta em Cannes e, na sequência, emplacou o César, o Oscar da França, nas categorias de roteiro e melhor filme de diretora estreante, com Augustine. Alice foi colega de Deniz Gamze Ergüven na Fémis. Deniz é turca. Apoiavam-se mutuamente. Deniz tentava realizar seu primeiro filme, mas o projeto era muito grande. A verba do segundo filme de Alice, Mediterranée, também empacou. Alice foi socorrer a amiga, que ameaçava entrar em depressão. Nasceu Mustang, indicado para o Oscar de filme estrangeiro (pela França). Estreia nesta quinta, 18, no Brasil, com o título de Cinco Graças.

“Deniz entrou numa roda-viva nos EUA. O Oscar tem dessas coisas. Mesmo que seu filme eventualmente não ganhe, a exposição é grande. Você faz contactos. Eu fico aqui na retaguarda, dando entrevistas, porque o filme é importante e não podemos desperdiçar nenhuma chance.” Alice conversa com o repórter pelo telefone, de Paris. “Depois que o grande projeto dela tombou, Deniz não sabia o que fazer. Ela queria dar seu testemunho sobre as condições da mulher na Turquia. É uma coisa que também me interessa – a mulher na sociedade dominada pelos homens. É o tema de Augustine.”

Das muitas histórias que Deniz lhe contou, Alice ficou com uma, a que abre Cinco Graças. No fim do período escolar, as garotas comemoram entrando no mar com os meninos. “Deniz me contou como aquilo era tabu e quais foram as consequências. Meninas de boa família não podiam fazer aquilo. Era indecente e isso podia afastar pretendentes. Na sociedade turca patriarcal, a mulher deve se realizar pelo casamento. Achei a situação muito forte e a tomei como ponto de partida. Mas havia outro motivo. Vivi numa casa com quatro primas. As cinco protagonistas de Mustang nasceram como uma soma das experiências de Deniz e minhas.”

Mesmo sem querer maximizar seu aporte – “O filme é de quem dirige”, esclarece –, ela conta que Mustang não é autobiográfico de Deniz, mas incorpora experiências pessoais da cineasta (e dela). E Alice encanta-se com o título brasileiro, Cinco Graças. “Graças como nas pinturas de Boticelli, Rafael e Rubens? Que lindo!” O original é uma homenagem aos cavalos da raça de puro-sangue. “Os mustangues derivam de uma antiga palavra espanhola que designa ‘sem dono, selvagens’. Queríamos justamente destacar a natureza libertária das garotas. Mas o ponto de vista do filme é o da resistência. A luta das mulheres por afirmação pode ser marcada por muitas tragédias, mas também é preciso celebrar nossas vitórias.”

Na ficção de Cinco Graças, as irmãs são encarceradas pela família numa casa que vira fortaleza para guardá-las. “Ficávamos imaginando formas de resistência. A partida de futebol foi uma delas. E o curioso é que já existe um filme iraniano (‘Fora do Jogo’, de Jafar Panahi), que também retrata a dificuldade e até impossibilidade de as garotas assistirem a jogos em estádios. É um machismo que nos agride, mas está encravado em tradições seculares nos países em que predominam preceitos religiosos islâmicos.” Como a mais jovem entre suas irmãs, Deniz pôde sentir o que Alice chama de peso da sexualização. “O filme abre-se com aquela frase de Lale (a garota). ‘De repente, tudo mudou como um piscar de olhos.’ O incidente da praia é fundamental. Sexualiza o que poderia ser inocente. Conversávamos, Deniz e eu. Nunca acreditamos que esse tipo exacerbado de lição de moral possa ter um efeito positivo, como um chamado à pureza. Para nós, o efeito é contrário. Foi o que colocamos no filme.”

O mais difícil foi escrever e encenar uma experiência vivenciada pela diretora. “Deniz teve um parto difícil. E estava muito debilitada quando soube da morte brutal de Ozgecan Aslan, a garota turca que foi assassinada brutalmente numa minivan ao resistir a uma tentativa de estupro. Aquilo a devastou. Dizia – ‘Tenho de colocar meu sentimento de indignação no filme, senão não valerá a pena.’ Ela conseguiu e na Turquia, no mundo todo, seu filme poderá ajudar no esforço de liberação das mulheres”, reflete Alice. Em Cannes, no ano passado, Cinco Graças recebeu o Europa Cinemas Prix como melhor filme europeu da Quinzena dos Realizadores.

 

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