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Festival do Rio abre com Guilhermo Del Toro para celebrar as diferenças

A Forma da Água é uma fábula ambientada em 1962, em plena Guerra Fria, sobre uma jovem muda

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2017 | 06h00

Menos de um mês depois de vencer o Leão de Ouro no Festival de Veneza, o longa A Forma da Água, do mexicano Guillermo Del Toro, inaugura nesta noite o Festival do Rio, numa gala a ser realizada no tradicional Cine Odeon, em plena Cinelândia carioca. Del Toro é um cineasta que tem obtido reconhecimento de público e crítica para seus filmes fantásticos. Em Veneza, agradecendo o prêmio outorgado pelo júri – presidido pela atriz Annette Bening –, ele disse: “Se você permanecer puro e com sua fé naquilo em que acredita – no meu caso, monstros –, você consegue fazer qualquer coisa.”

A Forma da Água é uma fábula ambientada em 1962, em plena Guerra Fria, sobre uma jovem muda (Sally Hawkins) que só tem por amigos o vizinho gay e uma colega de trabalho negra. Ela executa serviços de limpeza num laboratório secreto. Liga-se a uma estranha criatura anfíbia, a quem tenta libertar. Para a diretora artística do Festival do Rio, Ilda Santiago, o filme de abertura é sempre uma escolha delicada porque, de alguma forma, “serve sempre de termômetro para o que o público vai ver” durante o evento. O próprio Del Toro define seu filme como uma ode às diferenças, “o antídoto perfeito contra o cinismo, já que atinge as emoções”.

Com o slogan Aqui Você Vê o Mundo, o Festival do Rio 2017 vai exibir 250 filmes de mais de 60 países, espalhados por 15 mostras em cerca de 20 locais de exibição da cidade. Além das projeções, o festival acolhe profissionais do audiovisual de todo o mundo para seminários e workshops, realiza debates, reúne música, cinema, realidade virtual e muito mais. Por esse ‘mais’, entenda-se a mostra competitiva da Première Brasil, que este ano bate o próprio recorde. Na 19.ª edição do festival, e já consolidada como maior plataforma do cinema brasileiro – o que extrapola os conceitos de exibição e competição –, a Première de 2017 vai exibir 75 títulos, entre curtas (17) e longas (59).

Um documentário foi escolhido para abrir a Première Brasil de 2017 – Em Nome da América, de Fernando Weller. O diretor tem mestrado pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutorado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Seu filme nasceu do que pode ser um delírio – muitos habitantes de Afogados da Ingazeira, na microrregião de Pajeú, em Pernambuco, acreditam que o jovem Steven Spielberg refugiou-se no local para fugir à Guerra do Vietnã. O filme pode ter surgido dessa premissa, mas ela não aparece na montagem final, que seguiu outras linhas de investigação – e descobertas.

De concreto, Weller descobriu que muitos jovens dos EUA desembarcaram nos anos 1960 e 70 na região, como voluntários da agência governamental Corpos da Paz. Fugiam da Guerra do Vietnã? Com certeza, mas muitos também agiam inspirados pelo discurso de luta contra a fome e a pobreza do presidente assassinado, John Kennedy. O importante é que, no contexto da Guerra Fria e da ditadura cívico/militar que se estabelecera no Brasil, a CIA infiltrou-se no Nordeste por meio desses jovens idealistas, com vistas a evitar o surgimento de uma nova Cuba. Como Del Toro na abertura, a escolha de Em Nome da América para abrir a Première não é fortuita. O Festival do Rio 2017 fornece ferramentas para se entender o estado do Brasil, e do mundo. Exemplo disso é o longa alemão Em Pedaços, de Fatih Akin, sobre terrirismo. Leia abaixo.

1. Por que um filme contra a direita alemã?

Os neonazistas são responsáveis pela maioria das violações de direitos no país. E, após tudo o que fizeram, parece inconcebível que nazistas ainda tenham apoio na Alemanha.

2. Por que Diane Kruger como protagonista?

Nunca imaginei esse filme com uma atriz anônima. Tinha de ser uma estrela. Quando convidei Diane, ela marcou um jantar em seu apartamento, em Paris. Cheguei lá e ela estava cozinhando. Uma frau perfeita. Não tive nenhuma dúvida.

3. Uma história de vingança, e por uma mulher?

É o empoderamento feminino. 

PÉROLAS DA PROGRAMAÇÃO

Bom Comportamento, de Ben e Josh Safdie

Em Pedaços, de Fatih Akin

A Entrevista de Putin, de Oliver Stone

Ex-Libris, de Frederick Wiseman

Me Chame Pelo Seu Nome, de Luca Guadagnino

Pequena Grande Vida, de Alexander Payne

Top of the Lake, de Jane Campion

O Venerável W, de Barbet Schroeder

Victoria e Abdul, de Stephen Frears

Zama, de Lucrecia Martel

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