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Festival de cinema de Veneza abre com ‘Birdman’, uma exceção entre os 'marginais'

Lista de filmes deste ano não inclui nenhuma produção latino-americana

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Luiz Zanin,
O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2014 | 03h00

 Em sua 71ª edição, o Festival de Veneza, o mais antigo evento do gênero no mundo, cozinha sua receita habitual: muitos concorrentes europeus, também muitos norte-americanos, alguns da Ásia. Os latino-americanos costumavam desfrutar de uma pequena parcela de consolação nesse banquete. Este ano, o jejum. Nenhum brasileiro, como já tem sido a regra nas últimas edições, mas também nenhum latino-americano. Se você for perguntar aos selecionadores da mostra as razões desta ausência, a resposta será padrão: não existem “cotas”.

O critério único é a qualidade. Mas não é verdade. Pelo menos, não toda a verdade. Existem zonas de influência em todos os festivais e cinematografias periféricas só conseguem penetrar nesse clube fechado quando se tornam modas – que, como as modas, dificilmente duram mais de uma estação. Já houve uma moda argentina, depois veio o Chile, etc.

No Festival de Veneza 2014 o Brasil comparece apenas com o curta Castillo y El Armado, uma animação gaúcha de Pedro Harres.

De qualquer forma, Veneza abre sua festa com um diretor mexicano – Alejandro González Iñarrítu – devidamente reciclado numa produção estadunidense. Birdman - or the Unexpected Virtue of Ignorance traz Michael Keaton como o artista que interpretava um super-herói e agora precisa lutar contra o próprio ego para salvar a família e a si mesmo.

Iñarrítu é diretor de talento, surgiu com um título forte, Amores Perros (Amores Brutos, no Brasil) e logo foi cooptado pela indústria do país vizinho. Birdman abre quarta-feira a Mostra e integra a competição pelo Leão de Ouro. Serão 20 longas em busca dessa bonita estatueta, uma das mais desejadas no calendário internacional do cinema.

Olhando-se a seleção mais de perto, nota-se que Alberto Barbera, em seu segundo ano à frente da Mostra, busca um equilíbrio entre nomes mais conhecidos e outros menos. Entre os primeiros, há o turco-alemão Fatih Akin (The Cut), o francês Xavier Beauvois (Le Rancon de la Gloire), o norte-americano Abel Ferrara (Pasolini), o russo Andrei Konchalovsky (The Postman White Nights) e o italiano Mario Martone (Il Giovane Favoloso).

Destes, a maior curiosidade talvez seja a despertada por Abel Ferrara e sua recriação da vida de Pier Paolo Pasolini, o cineasta, ator, escritor, poeta, ensaísta e polemista italiano, assassinado em 1975 na praia de Óstia por um garoto de programa. O poeta maldito, ícone de uma geração contestadora, será interpretado por Willem Dafoe, grande ator, sem dúvida, e corajoso na abordagem de papeis difíceis. Basta vê-lo em filmes de Lars Von Trier, por exemplo, como Anticristo, para saber do que é capaz. De Ferrara, por outro lado, espera-se que tenha recuperado a inspiração depois do horrendo Bem-Vindo a Nova York, em que faz Gérard Depardieu interpretar um caricato Dominique Strauss-Kahn, ex-diretor do FMI e ex-candidato a presidente da França caído em desgraça após acusação de assédio sexual nos Estados Unidos.

O italiano Mario Martone também se interessa por um personagem real – o poeta Giacomo Leopardi – em Il Giovane Favoloso. Lembremos que Leopardi foi fonte de inspiração para Federico Fellini em seu último trabalho, A Voz da Lua. No filme de Martone, quem encarna o poeta é o ator Elio Germano (de Nossa Vida).

Há nomes que dizem pouco, à primeira vista, como o do sueco Roy Andersson, que apresenta em Veneza um título tão insólito quanto A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence. Bem, mas quando lembramos que ele fez certo sucesso de estima entre o público da Mostra de São Paulo com o estranhíssimo, mas muito bom, Nós os Vivos, podemos esperar algo de original sobre um pombo pousado num ramo a refletir sobre a existência.

Da França vêm filmes em tese também muito interessantes, como este Loin des Hommes, de David Oelhoffen, com Viggo Mortensen. Trata da revolta argelina contra os franceses e se diz uma livre adaptação de Albert Camus, o grande escritor de A Peste e A Queda, entre outros.

Também francês é Three Hearts, de Benoît Jacquot, com Charlotte Gainsbourg, Catherine Deneuve e sua filha Chiara Mastroianni. Em todo caso, se elas vierem, charme não faltará ao Lido.

Enfim, atrações não faltam, mesmo fora de concurso, como O Velho do Restelo, que Manoel de Oliveira, o grande diretor português de 105 anos de idade, tirou da épica de Luis de Camões. Ou James Franco, que será homenageado com o prêmio Jaeger La Coutre e apresenta sua versão de O Som e a Fúria, de William Faulkner. Só Deus, ou o diabo, podem dizer o que Franco realizou com o texto magistral de Faulkner.

Veremos. Na entrevista coletiva concedida para a apresentação da edição deste ano, Barbera, ao responder à pergunta sobre o que se poderia esperar da seleção proposta, disse simplesmente: “o inesperado”. Informou que os 55 longas-metragens inéditos, distribuídos pelas diversas seções do festival, foram escolhidos a dedo, a partir de 1500 filmes inscritos.

Disse que Veneza se via obrigada às vezes a descartar pretendentes muito bons, isso por ser um festival de tradição e muito seletivo – alfinetada na mostra de Toronto, que acontece simultaneamente do outro lado do Atlântico e é acusada de muito comercial pelos puristas. Esperemos, de nossa parte, que esse inesperado a que se refere Barbera seja composto de boas surpresas.

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