Paul Zinken/AFP
Paul Zinken/AFP

Festival de Berlim 2018 traz mais espaço para diversidade de etnias e gênero

Além disso, neste ano os filmes brasileiros participam da Berlinale em mostras paralelas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2018 | 06h00

Com expressiva participação de filmes brasileiros distribuídos em diferentes seções, a 68ª edição do Festival de Berlim começa na quinta, 15, e engaja o evento de cinema com fama de mais politizado do mundo na luta das mulheres. Se há dois anos usou a plataforma do festival para discutir a questão dos refugiados - e, coincidência ou não, o vitorioso do Urso de Ouro de 2016 foi Fogo no Mar, de Gianfranco Rosi, eleito por unanimidade pelo júri presidido por Meryl Streep -, o diretor do evento, Dieter Kosslick, abre agora a Berlinale para o movimento #MeToo, promovendo um seminário e diversos painéis para abordar o assédio e a violência contra as mulheres.

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Numa atitude inédita, a Berlinale está criando a ‘safe counselling corner’ para que as mulheres possam conversar livremente sobre suas experiências. E, sim, a diversidade de gênero, etnia, idade, sexualidade e religião continua a ser a pedra de toque sobre a qual se constrói a seleção de Berlim. Neste ano, diretores e diretoras de mais de 80 países estarão mostrando seus novos trabalhos, incluindo nomes consagrados como Gus Van Sant, Lav Diaz e Christian Petzold na competição.

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E tudo começa na quinta, com a apresentação de Isle of Dogs, Ilha de Cães. Será a segunda vez que, num período relativamente curto - quatro anos -, caberá ao norte-americano Wes Anderson a tarefa de inaugurar a Berlinale. Em 2014, ele o fez com Grand Hotel Budapeste, e no ano seguinte, seu filme ganhou quase todos os prêmios técnico-artísticos no Oscar. Será o quarto filme de Anderson no festival, e Dieter Kosslick anuncia que difere de todos os anteriores. “Não é só por ser uma animação, a primeira a inaugurar o festival. É uma honra contar com seu charme (de Wes Anderson) para enriquecer uma Berlinale que, esperamos, estará à altura das exigências do momento.”

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Isle of Dogs é uma animação feita com a técnica chamada de ‘stop motion’. Passa-se num Japão distópico, em que os cães foram segregados numa ilha por causa de uma epidemia. À ilha, chega um garoto em busca de seu cão. Une-se a um grupo heterogêneo - que inclui cães de raça e vira-latas - para procurá-lo. Entre os atores que dão vozes aos animais, estão Tilda Swinton, uma ícone da Berlinale, Scarlett Johansson, Edward Norton e Bill Murray. Embora representado por diversos filmes, o Brasil só concorre um tanto lateralmente ao Urso de Ouro de 2018. O único brasileiro da competição, em coprodução com o Paraguai, o Uruguai, a Alemanha e a Noruega, é Las Herederas, com direção de Marcelo Matinessi. O brasileiro José Padilha volta a Berlim para comemorar os dez anos do Urso que conquistou por Tropa de Elite, mas desta vez o filme é anglo-americano, 7 Dias em Entebbe, e passa fora de concurso.

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O júri será presidido por Tom Tykwer, a quem se devem filmes como Corra, Lola, Corra e O Perfume. Com ele estarão, entre outros, a atriz Cécile de France e o músico e ator Ryuichi Sakamoto. Willem Dafoe receberá um Urso de Ouro especial de carreira. Além de Padilha, há outro filme em apresentação especial que já chega à Berlinale cercado de expectativa. Steven Soderbergh exibe, também fora de concurso, numa das maiores telas do mundo, o thriller que fez com iPhone, Unsane.

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Novas tecnologias e novos suportes estão sempre em pauta quando o assunto é o futuro do cinema. Pode ser simplesmente curiosidade do repórter, mas, entre os 19 concorrentes deste ano, está Eva, thriller psicológico com Isabelle Huppert e Gaspard Ulliel, que Benoît Jacquot adaptou do livro de James Hadley Chase. Jacquot talvez esteja indo diretamente à fonte do original, mas se trata de uma grande ousadia, de Isabelle e dele, pois Eva, em 1962, já havia sido filmado por Joseph Losey, com Jeanne Moreau. Embora remontada pelos produtores, a versão de Losey é a obra-prima do grande diretor e um dos maiores filmes de todos os tempos.

EM COMPETIÇÃO

3 Days in Quiberon

De Emily Atef (Alemanha / Áustria / França)

Season of the Devil

De Lav Diaz (Filipinas)

Damsel

De David Zellner e Nathan Zellner (EUA)

Don't Worry, He Won't Get Far on Foot

De Gus Van Sant (EUA)

Dovlatov

De Alexey German Jr. (Rússia / Polônia / Sérvia)

Eva

De Benoit Jacquot (França / Bélgica)

Daughter of Mine

De Laura Bispuri(Italy / Alemanha / Suíça)

Las Herederas

De Marcelo Martinessi (Paraguai / Uruguai / Alemanha / Brazil / Noruega / França)

In the Aisles

De Thomas Stuber (Alemanha)

Isle of Dogs

De Wes Anderson (Grã Bretanha / Alemanha)

Pig

De Mani Haghighi (Irã)

My Brother's Name is Robert and He is an Idiot

De Philip Gröning (Alemanha / França / Suíça)

Museum

De Alonso Ruizpalacios (México)

The Prayer

De Cédric Kahn (França)

The Real Estate

De Måns Månsson and Axel Petersén (Suécia / Reino Unido)

Touch Me Not 

De Adina Pintilie (Romênia / Alemanha / República Checa / Bulgária / França)

Transit

De Christian Petzold (Alemanha / França)

Mug

De Malgorzata Szumowska (Polônia)

U - July 22

De Erik Poppe (Noruega)

Há dez anos, 'Tropa de Elite' era premiado com o Urso de Ouro

Sempre interessado em questões de segurança, o diretor brasileiro José Padilha comemora na Berlinale de 2018 os dez anos de seu Urso de Ouro pelo longa Tropa de Elite apresentando, fora de concurso, seu novo filme. Tem sido uma década prodigiosa para Padilha, que se converteu em um diretor de carreira internacional. Seu remake de RoboCop não obteve muita repercussão, mas a série sobre Pablo Escobar ganhou elogios da crítica e fez sucesso de público. Padilha mostra agora dentro da competição, mas fora de concurso - existe a categoria, por mais esdrúxula que pareça -, 7 Dias em Entebbe.

Em meados de 1976, terroristas desviaram um jato de passageiros para o aeroporto internacional de Entebbe, em Uganda. O governo local não apenas apoiou os sequestradores - o presidente/ditador Idi Amin Dada solidarizou-se com eles. Em 4 de julho, uma missão israelense de contraterrorismo conseguiu ocupar militarmente o aeroporto e libertar os reféns. A chamada ‘Operação Entebbe’ virou paradigma e é considerada por especialistas a mais perfeita e complexa operação de resgate de todos os tempos. Naquele mesmo ano, no calor da hora, foram realizados dois filmes para a TV, dirigidos por Irvin Kershner, realizador do cultuado Império Contra-Ataca, e Marvin J. Chomsky, com a participação de Elizabeth Taylor.

Decorridos mais de 40 anos, e em meio à ascensão da direita em todo o mundo, à retórica militarista do presidente Donald Trump e à paranoia devido a novos ataques do terror, etc, Padilha volta a Entebbe para retomar sua eterna discussão sobre a segurança. O filme é uma coprodução entre Grã-Bretanha e EUA, interpretada por Rosamund Pike, Daniel Brühl e Vincent Cassel, entre outros.

O diretor já tem pronta, com previsão de estreia em março, a primeira temporada de uma série sobre a Lava Jato na Netflix, O Mecanismo. Muita gente, sem ter visto o novo trabalho, já comparou o juiz Sérgio Moro com o Capitão Nascimento. Padilha diz que não filma para criar heróis. Só no Brasil, o Capitão Nascimento foi visto como um. 7 Dias em Entebbe e O Mecanismo prometem muita polêmica.

Filmes brasileiros participam da Berlinale em mostras paralelas

Uma coprodução dirigida por um paraguaio (Las Herederas) e um filme anglo-americano dirigido por brasileiro (7 Dias em Entebbe) estarão no Festival de Berlim, mas os brasileiros que vão representar o País serão outros, no Panorama e no Fórum. O Processo, de Maria Augusta Ramos, e Dois Pesos e Duas Medidas, de Petra Costa, prometem polêmica porque abordam o impeachment de Dilma Rousseff de um ângulo nada oficial. Os demais - Bixa Travesty, de Kiko Goifman e Cláudia Priscilla; Ex-Pajé, de Luiz Bolognesi; Aeroporto Central, de Karin Aïnouz (outra coprodução); Tinta Bruta, de Márcio Reolon e Filipe Matzembacher; e Eu Sou o Rio, de Gabraz Sanna e Anne Santos. São filmes desobedientes, que discutem “políticas de corpo” e “resistência ao machismo”.

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