RUI POCAS
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Felipe Hirsch faz mergulho no continente para falar sobre amor pela literatura

Entre o real e o irreal, 'Severina exala magia ao adaptar livro do guatemalteco Rodrigo Rey Rosa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 Abril 2018 | 06h00

Felipe Hirsch planejava filmar Severina em Porto Alegre. Seu interesse pelo romance do guatemalteco Rodrigo Rey Rosa surgiu no quadro de um projeto teatral desenvolvido especialmente para a Feira do Livro de Frankfurt, em 2013 – Puzzle. Foi ali que Hirsch começou a mergulhar no continente, nas veias da América Latina. Seu longa anterior havia sido feito em Brasília – Insolação, codireção de Daniela Thomas. “Rey é objeto de um culto, chamado de escritor dos escritores. Apaixonei-me por sua escrita e descobri uma coisa importante. Intimamente, estava procurando uma outra coisa. Levei tempo resistindo a fazer o segundo filme porque não queria permanecer retroativo em relação às questões políticas da América Latina. Buscava um projeto poético que durasse ao longo do tempo.”

O livro de Rey lhe forneceu o material. Mexeu com ele. O dono de uma livraria envolve-se com essa misteriosa garota que rouba livros. Porto Alegre, tão próxima de Montevidéu e Buenos Aires, lhe trouxe essa ambiência tão latina – uma cidade invernal. “Mas aí as coisas foram tomando outro rumo. Contava com um patrocínio que não saiu, o Rodrigo (Teixeira, produtor de Me Chame pelo Seu Nome) entrou com sua expertise. Ele já estava produzindo no Uruguai, onde fez O Silêncio do Céu. Montevidéu virou opção, e é uma cidade que me encanta. Filmamos na Ciudad Vieja, com atores argentinos, uruguaios e chilenos, fora do zeitgeist, bem como eu queria. Uma coisa poética, centrada na permanência do humano. É o que mais me interessa nesse momento em que o mundo parece fora de controle.”

Severina estreia quando ainda está em cartaz A Livraria, de Isabel Coixet, que venceu o Goya, o Oscar espanhol, sobre essa mulher que vira objeto de ódio simplesmente por abrir uma livraria numa comunidade litorânea. Simultaneamente, está entrando o novo Roman Polanski – Baseado em Fatos Reais –, em que uma autora, Emmanuelle Seigner, é enredada na teia de uma leitora, Eva Green. De repente, e em plena era dos e-books, os livros estão de volta para exaltar o que Hirsch define como “o espírito redentor do perdão”. Interpretado por Javier Drolas, o ator argentino de Medianeras, com quem o diretor filmou a série Menina Sem Qualidades para a MTV, e Carla Quevedo, Severina tem um encanto todo particular. “Sinto que, com esse filme, cheguei a um porto em que deixei meu instinto livre para falar. O mais curioso é que, para ser livre, precisei me perder nesses espaços de descobertas.”

+ Javier Drolas se divide entre Buenos Aires e peça de Felipe Hirsch

Algo de mágico está se passando com o cinema brasileiro autoral neste (ainda) começo de 2018. Arábia, da dupla Affonso Uchoa e João Dumans, embala uma discussão sobre a classe trabalhadora, que vem do ano passado, numa prosódia mineira que fica feito música no ouvido do espectador. E isso ocorre no momento em que Felipe Hirsch propõe, com Severina, outro filme que se coloca à margem das questões políticas do tempo para falar – vejam só – de amor. Severina, que estreia nesta quinta, 12, parece deslocado, atemporal – hoje, às 21h30, haverá sessão do filme no Cinearte (Av. Paulista, 2.073, sala 2), seguida de debate com Hirsch. 

O protagonista, Javier Brotas, tem essa livraria na parte velha da cidade (Montevidéu) onde amigos se reúnem para falar de livros. Ele admite que fazer um filme fora de espírito do tempo (zeitgeist) termina colocando questões que permanecem dentro da atualidade. “Severina quer ser só um filme de amor, mas o amor, como dizia François Truffaut, é um tema muito vasto e termina englobando os demais.” O livreiro se envolve com a garota que rouba livros. Sente ciúmes, porque descobre que ela rouba outras livrarias e vive com um homem mais velho – um suposto avô. “As coisas não são simples”, avalia Hirsch. “As livrarias de rua estão acabando, a América Latina que o filme retrata talvez não exista mais.” 

O que existe é o fascínio de Javier Drolas, o livreiro, por Ana (Carla Quevedo). É o mesmo fascínio que o cineasta experimenta por sua atriz. “Foi a minha mulher que me falou dela, elogiando seu trabalho na série Show Me a Hero, da HBO. A Carla também trabalhou no filme O Segredo dos Seus Olhos, que venceu o Oscar. Ana é fascinante porque permanece um enigma. Suas motivações nunca são muito claras. Roubar os livros talvez seja a grande aventura da vida para ela. E, ao fazê-lo, ela enrola, seduz os livreiros. De qualquer maneira, não creio que faça isso de forma consciente.”

Nos últimos anos, Felipe Hirsch mergulhou intensamente na latinidade, com a tetralogia Puzzle e a Tragédia e a Comédia Latino-Americana. Escreveu uma série de TV ainda inédita com 20 autores da América Latina, e foi por meio dela que chegou a Rodrigo Rey Rosa. Hirsch conta que o autor de Severina foi estudar cinema em Nova York, mas largou a escola. Em Tânger, tornou-se amigo do também escritor John Bowles, que foi quem o apresentou ao mundo anglo-saxão das letras. Roberto Bolaño sempre foi louco por ele. “Dizia que o Rey Rosa era o escritor dos escritores.” Essa riqueza do autor impregna a ficção de Severina. “Rey Rosa diz que o livro é um delírio amoroso, uma metáfora sobre o poder libertador do perdão. Tudo isso me atingiu muito porque eu estava vivendo um processo muito intenso de separação.”

Severina virou esse mergulho cinematográfico no imaginário de tantos autores/atores latinos. “Tive o privilégio de contar com a cumplicidade de grandes artistas que ajudaram a enriquecer o trabalho. O Daniel Hendler, que nem estava previsto, é uma referência no cinema de Daniel Burman. E o chileno Alfredo Castro transforma esse pequeno papel, do suposto avô, numa coisa mágica.” 

Existem ecos de Jorge Luis Borges – O Aleph – e Hirsch sabe que tudo isso contamina as fronteiras entre o real e o irreal. “Houve um tempo, na Companhia Sutil, em que eu usava linguagem de cinema no teatro. Mas, no cinema, o que me interessa é quebrar os códigos. Usar a câmera sem truques.” Daí a beleza austera de Severina, que prescinde de efeitos.

Felipe Hirsch admira-se que o filme que pretendia rodar em Porto Alegre tenha sido feito em Montevidéu, mesmo que a cidade não seja identificada como tal. “Foram as circunstâncias”, explica. Por elas entendam-se parcerias econômicas que não deram certo e outras – com o produtor Rodrigo Teixeira – que viabilizaram a empresa. A livraria de Drolas era uma antiga farmácia na Ciudad Vieja da capital uruguaia, conta. “Não faço nem ideia, mas meu diretor de arte, o Gonzalo Delgado, conseguiu 30 mil volumes (livros) para colocar lá dentro.” O resultado é admirável, esse comprometimento sincero que faz a força e a beleza de Severina.

 

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