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ESTREIA–Toni Servillo vive papel duplo na sátira política "Viva a Liberdade"

REUTERS

09 Julho 2014 | 15h 18

Tão conhecido na Itália como cineasta e como romancista, o siciliano Roberto Andò une os seus dois talentos ao adaptar para a tela seu próprio romance, “Il Trono Vuoto”, na comédia político-dramática “Viva a Liberdade”.

Um grande trunfo é ter à frente do elenco o veterano Toni Servillo (“A Grande Beleza”), interpretando dois papeis. Se é frequente a situação de gêmeos de temperamentos ao menos aparentemente opostos, é menos comum vê-los como no contexto desta história – uma campanha política em que um deles é candidato e resolve sumir e o outro secretamente entra em seu lugar, com resultados surpreendentes.

Enrico Oliveri é o político, secretário do principal partido da oposição, que destila cansaço em cada poro numa nova eleição. As pesquisas indicam que seu eleitorado também está farto dele e do partido, sinalizando um fracasso de grandes proporções.

Sem dar sinais de sua intenção, Enrico decide desaparecer. Um sumiço que deixa todo mundo perplexo, especialmente os mais próximos, sua mulher, Anna (Michela Cescon), e ainda mais seu fiel assessor, Andrea Bottini (Valerio Mastandrea), que é quem deve inventar desculpas para o resto do partido, a imprensa e a opinião pública.

É numa conversa com Anna que o assessor descobre a existência do irmão gêmeo de Enrico, Giovanni Ernani, um professor de filosofia tido como brilhante, mas que registra algumas passagens por hospitais psiquiátricos. No momento, ele está liberado pelos médicos e aceita, não sem alguma relutância, fazer-se passar pelo irmão, com quem não mantém grande contato.

Enquanto isso, Enrico refugiou-se em Paris, na casa de uma antiga namorada, Danielle (Valeria Bruni Tedeschi), agora casada com Mung (Eric Nguyen) e mãe da menina Hélène (Stella Kent). Nesta situação um tanto constrangedora, mas certamente longe de tudo o que o constringia, o político espera encontrar iluminação, um novo eixo.

Enrico nem desconfia o que se passa em casa, com seu irmão assumindo sua identidade e agenda, morando em sua casa (a mulher é a única, além do assessor, a saber da verdade).

No partido, todos pensam que ele sofreu uma metamorfose, já que se tornou, do dia para a noite, emotivo e espontâneo a ponto de recusar os discursos preparados por Bottini, preferindo improvisar declarações apaixonadas que mexem com o público. A subida nas intenções de voto não tarda a aparecer.

Dando uma chance e tanto a Toni Servillo de desdobrar-se em duas chaves de interpretação, uma mais interiorizada, outra mais cômica, o filme oferece também uma reflexão bem-humorada sobre a possibilidade de os políticos saírem – ou não – dessa espécie de gangorra: de um lado, os pragmáticos, dissimulados ou aferrados a programas e rotinas que afinal brecam os caminhos das mudanças e, de outro, os carismáticos, quem sabe às vezes loucos ou demagogos, que lançam plataformas idealistas capazes de mover as massas.

Há outros caminhos viáveis além desta dicotomia insana? Ninguém sabe a resposta, nem o filme se arrisca a dá-la. Mas assinala, ainda assim, alguns dilemas da vida política que encontram paralelo em vários países fora da Itália, inclusive o Brasil.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb