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ESTREIA–"Amores Inversos" faz boa adaptação de conto de ganhadora do Nobel

REUTERS

27 Agosto 2014 | 16h 51

Baseado num conto da canadense Alice Munro, ganhadora do Nobel de Literatura no ano passado, “Amores Inversos” é um filme, como o texto original, que se revela aos poucos, em fogo brando. O texto da escritora – como a maioria de suas histórias (ela só escreve narrativas curtas) – mostra apenas o necessário; descobrimos a vida interna das personagens por meio de suas ações e reações.

O longa, dirigido por Liza Johnson e adaptado por Mark Poirier (baseado no conto “Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento”), se mantém fiel a esse princípio, embora trate de trazer para o mundo contemporâneo a trama que, originalmente, se passa nos anos 1950.

Logo na primeira cena, vemos Johanna Perry (Kristen Wiig) em seu trabalho como cuidadora de uma idosa. Com a morte da mulher, a protagonista se revela uma alma de bom coração. Em seu novo emprego, será uma espécie de babá de Sabitha (Hailee Steinfeld), uma adolescente que mora com o avô rico, Mr McCauley (Nick Nolte), no Iowa. Ela tem uma relação conturbada com o pai, Ken (Guy Pearce), que mora em Chicago, é viciado e cumpriu pena pela morte de sua mulher num acidente.

Johanna é uma personagem cuja vida parece acontecer mais dentro de si do que aquilo que vemos. Para alguns, seria apenas uma paspalha, mas ela é mais do que isso. Pouco sabemos sobre o seu passado para que ilumine o seu comportamento presente, mas é fácil notar que uma simples carta de Ken, agradecendo por cuidar de sua filha, representa mais do que uma simples carta. E a partir de então, um plano de Sabitha e sua melhor amiga, Edith (Sami Gayle), para humilhar a babá desencadeia uma série de confusões com consequências nas vidas de todos esses personagens.

Kristen Wiig, que é mais conhecida como comediante (“Missão madrinha de casamento”) aqui encontra todos os tons de nuance que cabem em Johanna. Como já foi dito, essa é uma personagem que revela muito pouco, por isso qualquer ação, por menor que seja, tem uma reverberação gigantesca – seja um suspiro ou o esboço de um sorriso no canto da boca.

A atriz sabe disso e nenhum gesto é feito à toa. E é nessa personagem que “Amores Inversos” encontra sua força, uma vez que a diretora e o roteirista deixam de fora a tessitura das relações sociais que compõem o conto original.

Se a certa altura o filme fica indeciso sobre o que quer contar e como contar, a atriz e sua personagem nunca saem do trilho. Mesmo quando as opções narrativas não parecem ser as melhores, Johanna está ali para nos lembrar do porquê desse filme existir.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb