1. Usuário
Assine o Estadão
assine


ESTREIA-Garota em coma analisa passado e presente em "Se Eu Ficar"

REUTERS

03 Setembro 2014 | 19h 58

A proximidade da morte parece ser o contexto perfeito para discutir a própria vida, seja com as grandes ou pequenas questões que marcam e definem a trajetória de uma pessoa. O tema não é novo no mundo literário, mas tem conquistado um destaque especial entre os romances voltados aos jovens adultos, um segmento que cresce cada vez mais no mercado.

São exemplos desta tendência “A Culpa é das Estrelas”, obra de John Green que se detém sobre Hazel e Gus, um jovem casal com câncer, e “Se Eu Ficar”, livro de Gayle Forman sobre uma garota que, após um grave acidente, tem uma experiência extracorporal ao ficar entre a vida e a morte.

A curiosidade é que ambos também foram para o cinema em um espaço de tempo muito curto. “Se Eu Ficar” (2014), de R.J. Cutler, estreia nas salas brasileiras na quinta-feira, três meses depois do lançamento de “A Culpa é das Estrelas” (2014), que foi um fenômeno de bilheteria, arrecadando US$ 271 milhões em todo o mundo.

A soma já obtida pelo primeiro filme nos Estados Unidos, em duas semanas, é bem mais modesta, mas ainda sim um sucesso para a produção que, claramente, visa alcançar e levar às lágrimas o mesmo público que se encantou com a história do par vivido por Shailene Woodley e Ansel Elgort na segunda película.

Neste caso, a tragédia logo se instala nos primeiros minutos da trama, quando o início de uma nevasca cancela as aulas pela manhã e a família Hall decide tirar um dia de folga para visitar os amigos que estão com uma filha pequena. No caminho, eles sofrem um gravíssimo acidente ao se chocarem com outro veículo na rodovia. Mia (Chloë Grace Moretz) acorda do choque e tenta se comunicar com os paramédicos até que percebe que ninguém a vê ou escuta, pois está fora do corpo, que está sendo atendido pelos socorristas.

A garota, então, segue com eles para o hospital, observando a gravidade do seu estado, os procedimentos do corpo médico para poder salvá-la e a aflição dos parentes e amigos, enquanto ela própria tenta descobrir o que aconteceu com seus pais, Denny (Joshua Leonard) e Kat (Mireille Enos), e seu irmão caçula, Teddy (Jakob Davies). Tudo isso fora do próprio corpo, embora não seja bem um espírito ou fantasma – o romance deixa mais claro que ela não pode atravessar paredes, nem coisas do tipo. E neste momento em que parece depender dela decidir ficar ou não, ela começa a refletir sobre a sua própria vida, relembrando acontecimentos anteriores.

É assim que o público conhece melhor Mia, uma jovem e talentosa violoncelista, que está no último ano do ensino médio e muito próxima de entrar em Julliard, famosa universidade especializada em música, dança e artes cênicas. O problema é que a faculdade fica em Nova York, enquanto toda a vida ela morou no Oregon – mais especificamente, Portland, no filme, e uma cidade próxima dela, no livro.

Isso tem desestabilizado o relacionamento dela com o namorado, Adam (Jamie Blackley), junto com o fato de ele, após terminar o colégio e excursionar em turnê com sua banda de rock, também estar mais distante. Se foi a paixão de ambos pela música que os uniu, já que o rapaz se apaixonou pela jovem ao vê-la tocando seu violoncelo com tanta intensidade, de certo modo é ela que também pode separá-los.

O roteiro adaptado por Shauna Cross, responsável pelo script de “Garota Fantástica” (2009) e “O Que Esperar Quando Você Está Esperando” (2012), fora um detalhe aqui e outro ali, além de alterar ligeiramente a ordem de intercalação entre passado e presente, é até bem fiel ao texto de Gayle Forman. Talvez, a mudança mais sentida ao leitor seja a criação do ambiente hospitalar, mais abrandada e clean na tela do que é descrita nas páginas do livro, onde a narradora Mia fala, por exemplo, do estado deplorável que ficou seu rosto. O cenário do hospital, às vezes, se assemelha ao de alguma série médica, mas sem tanto sangue, talvez para evitar uma classificação etária maior.

Do mesmo modo, as passagens de tempo também parecem bem televisivas, contribuindo para esta sensação. Talvez, o fato de R.J Cutler também ser documentarista e ter experiência em televisão – além de ser sua estreia na direção de longas – explique esse fato. A questão é que somente Stacy Keach como o avô da protagonista consegue dar o seu melhor em uma emocionante cena deste segmento.

O talento de Chloë Grace Moritz, que muitos viram crescer desde a menininha de “Vovó... Zona 2” (2006), passando pela estranha Hit-Girl de “Kick Ass: Quebrando Tudo” (2010) e até, mais recentemente, como a protagonista de “Carrie, a Estranha” (2013), flui de maneira mais natural quando está na pele da adolescente com seus problemas cotidianos. Sua química com Jamie Blackley ajuda. O ator inglês de “Branca de Neve e o Caçador” (2012) não compromete e contribui não só com o seu charme, que deverá alegrar as espectadoras, mas também pelo fato de ser músico e realmente cantar e tocar guitarra com a banda formada especialmente para o longa.

Mas é no dia-a-dia com a família e a amiga Kim (Liana Liberato) que o filme tem maior encanto do que no enfoque romântico. Não só Mireille Enos e Joshua Leonard conseguem construir personagens extremamente cativantes, como a mãe militante em protestos e o pai baterista de banda de punk-rock que abandonaram tudo para se dedicar aos filhos. Há um bom entrosamento de todo o elenco, que colabora para que a criação do clima neste segmento seja mais bem sucedida.

No que diz respeito às lágrimas, a comparação com “A Culpa é das Estrelas” é inevitável, até pelo longa ainda estar fresco na memória do público. Assim como este, ele também é o típico filme “feito para chorar”. Mas existia ali uma sinceridade muito mais eficiente do que a vista em “Se Eu Ficar”.

(Por Nayara Reynaud, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb