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'Era o Hotel Cambridge' fala de moradia com contundência

Filme de Eliane Caffé narra o cotidiano de um grupo de refugiados, palestinos e congoleses, que divide com brasileiros uma ocupação no centro de São Paulo, num velho hotel abandonado

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2016 | 20h28

A prometida edição política da Mostra 2016 só foi acontecer, de fato, com a exibição de gala de 'Era o Hotel Cambridge', de Eliane Caffé, no Cinearte 1, terça-feira à noite. Lá, de fato, houve clima de festival político. O tema do filme – os movimentos sociais dos sem-teto – aumentou a temperatura e levou-a ao ponto de fervura.

Havia, claro, a presença do elenco, formado por alguns (poucos) profissionais e vários representantes dos sem-teto, que interpretavam a si mesmos. E como o filme, em si, é muito bom, a plateia reagiu de maneira positiva. Ouviram-se os já quase esquecidos (em São Paulo) gritos de “Fora Temer” e manifestações contra a PEC do teto dos gastos públicos. O longa será reprisado hoje, às 15h, no Cinesesc. Não se sabe se com o mesmo ambiente, mas, de qualquer forma, é obra a se ver sem falta. Lili Caffé soma a urgência do tema à ousadia da forma. E, como sabe qualquer cinéfilo (mas há críticos que ignoram), uma coisa não vai sem a outra. 

O longa é apresentado como obra coletiva – entre o MSTC (Movimento Sem Teto do Centro), o GRIST (Grupo Refugiados e Imigrantes Sem Teto) e a Escola da Cidade. Narra o cotidiano de um grupo de refugiados, palestinos e congoleses, que divide com brasileiros uma ocupação no centro de São Paulo, num velho hotel abandonado. Vivem em tensão, pois uma juíza expediu a reintegração de posse do imóvel e serão desalojados pela polícia em 15 dias. Enquanto isso, algumas lideranças planejam novas "festas", jargão para novas ocupações de imóveis abandonados. O roteiro é obra da própria diretora Lili Caffé, com Luis Alberto de Abreu (do Teatro da Vertigem) e Inês Figueró. 

Não se trata de um registro bruto. Pelo contrário. 'Era o Hotel Cambridge' passa por um minucioso trabalho de elaboração e depuração dos fatos. Se o que fica explícito, o tempo todo, é a situação de injustiça social, evita-se o caminho fácil da denúncia ou do miserabilismo cristão. Destaca-se a luta e esta ganha corpo, e muito corpo, no trabalho de ficção e mise-en-scène. 

A distribuição de papéis também é fundamental. José Dumont, ator habitual dos outros trabalhos de Lili, funciona como espécie de mestre de cerimônias do grupo. É ele, na pele do personagem Apolo, quem dirige um laboratório do grupo, que deverá redundar num filme. Esse aspecto metalinguístico, do “filme dentro do filme” será usado de forma natural, sem sobrecarregar a obra com alusões pós-modernas. Mesmo porque, de qualquer forma, o foco é outro, e a questão social jamais é esquecida. 

Mas, se o fundo social é onipresente, há tempo para o desenvolvimento e para os dramas e as alegrias dos personagens. E também para os conflitos entre eles, que acontecem em qualquer comunidade, ainda mais num grupo tensionado por uma desocupação imediata e a perspectiva nada longínqua de enfrentar a truculência policial e ir parar no olho da rua, ou talvez na cadeia. Mas, dentro da luta, há espaço para o humor e para o amor. 

Desse modo, sobressaem as figuras de Apolo, mas também da atriz Suely Franco, com sua personagem um tanto delirante, egressa de um circo. Também destaca-se Carmem Silva, a líder da ocupação, com sua presença forte, dura, às vezes conciliadora, mas que acusa um momento de cansaço que a humaniza profundamente. Toda luta comporta esse instante de desânimo, que deve ser vencido para que tudo prossiga e Carmem vive esse momento de maneira dramática, pungente, e solitária – como convém a uma líder. É uma grande personagem. Um imigrante dá um toque romântico ao se apaixonar pela cinegrafista. E o exilado palestino, o poeta Isam (Isam Ahamad Issa) rouba as cenas de que participa. É ator nato, envolvente, carismático. Seu personagem é cheio da sabedoria universal de quem passou pela guerra e reencontrou-se na solidariedade. 

'Era o Hotel Cambridge' é esculpido em planos precisos e de uma beleza dura. O trabalho de som é notável, passando ao espectador a tensão do ambiente. A passagem dos dias que faltam para a desocupação são marcados por um ruído forte, uma pancada sonora, como o fechamento de um portão de penitenciária, ou um gongo que assinala a proximidade do Juízo Final.

O cumprimento da ordem judicial paira como espada de Dâmocles sobre os ocupantes. E o plano final, com a câmera descendo e focando na vertical os andares do edifício, enquanto as bandeiras com as siglas dos movimentos sociais se apresentam, é de arrepiar. 

Cinema social da melhor qualidade, 'Era o Hotel Cambridge' coloca suas questões urgentes sem nada simplificá-las. Se o trabalho do filme é coletivo, encontrou uma diretora de mão segura para escolher os melhores caminhos estéticos, e os que produzissem mais efeito. Coloca-se como um objeto incômodo na discussão social do regressivo Brasil contemporâneo. Se às vezes a questão social tem sido tratada como caso de polícia, como recomendava Washington Luis nos anos 1920, parece claro que em 2016 os movimentos sociais não vão recuar. O filme deixa isso bem explícito, ao não tratá-los como coitadinhos, mas como cidadãos dispostos a fazer valer seus direitos. 

William Friedkin cancela vinda

O diretor William Friedkin cancelou sua vinda a São Paulo para a Mostra. O americano viria ministrar uma masterclass durante o evento, no qual é homenageado com um Prêmio Leon Cakoff e a exibição de sete títulos. Um “imprevisto de saúde”, segundo a organização do evento, o impediu de viajar - ele estaria com problemas auditivos. A homenagem a William Friedkin comemora os 45 anos do longa Operação França. Mais seis títulos do diretor estão em exibição na 40ª Mostra, entre eles O Exorcista (1973) e Parceiros da Noite (1980).

 

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