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Emmanuelle Bercot concorre em Cannes como diretora e atriz por obras distintas

Será inédito na história do festival se a realizadora de 'La Tête Haute' vencer por sua atuação em 'Mon Roi/ Meu Rei', de Maïwenn

Luiz Carlos Merten / Cannes, O Estado de S. Paulo

17 Maio 2015 | 21h26

É inédito na história de Cannes, e talvez na de qualquer outro festival, que a diretora do filme de abertura – Emmanuelle Bercot, de La Tête Haute – seja premiada como atriz por outro filme, mas é o que pode ocorrer este ano. Emmanuelle é admirável em Mon Roi/Meu Rei, de Maïwenn. Faz uma mulher que, no começo, sofre um acidente numa estação de esqui e, depois, passa o filme tentando se recuperar da ruptura dos ligamentos do joelho – e do efeito devastador que teve, sobre ela, a paixão pelo modelo de homem encarnado por Vincent Cassel, o rei do título. Em seu filme sobre a brigada criminal de menores – Polisse –, Maïwenn já trabalhara com Emmanuelle, como atriz e corroteirista. As duas amam as cenas intensas, tratadas em bloco, nas quais a emoção flui e vai ao limite. Emmanuelle e Maïwenn não têm medo de se expor. Nos diálogos, nas cenas de sexo.

Mulheres talvez encontrem um prazer especial nessa auto-exposição que, aos homens, talvez pareça excessiva. Mas é um tema que está em discussão em Cannes. Os filmes ‘de’ mulheres estão ganhando um peso cada vez maior no mercado. O Brasil é citado como exemplo, graças ao sucesso de filmes como Lucy, Fault e 50 Tons de Cinza. O júri de Cannes é 'masculino', presidido pelos irmãos Coen. Serão sensíveis ao psicodrama filmado de Maïwenn? O curioso é que, no dia anterior, passara o filme que arrebatou o público na sessão de imprensa. Carol, de Todd Haynes, possui elementos que o aproximam de outro trabalho do diretor, Longe do Paraíso, com Julianne Moore que descobre a homossexualidade do marido e, ao invés de silenciar, como se espera de uma boa dona de casa no sonho americano dos anos 1950, tem um affair com o jardineiro negro. Cate Blanchett é agora casada (com um ricaço), tem uma filha, mas desafia tudo e todos com o lesbianismo que a aproxima da personagem de Rooney Mara.

O filme é lindamente fotografado, cenografia e figurinos captam o look da época, mas as informações não chegam a criar um retrato contundente da América sob o macarthismo. E o filme é frio, até, ou principalmente, nas cenas de sexo. Todd Haynes é pudico ali onde Maïwenn é despudorada com seu elenco. Até onde deve ir a emoção na tela? Gus Van Sant está sendo massacrado pelo que os críticos consideram uma deplorável filiação ao melodrama em The Sea of Trees. The Hollywood Reporter escreveu que o aspecto mais desagradável do filme é quebrar a vitoriosa série de grandes atuações que catapultou Matthew McConaughey a um outro estágio de sua carreira. É tudo uma questão de ponto de vista. Como McConaughey não emagreceu até o ponto de ficar cadavérico para viver o aidético de Clube de Compras Dallas, ele não pode estar tão bom.

Mas a verdade é que está, tornando palpáveis a culpa e o desespero desse marido devastado pela morte da mulher e que escolhe uma floresta no Japão como o lugar perfeito para morrer. De alguma forma, Gus Van Sant fez o seu Floresta dos Lamentos, sem se reportar necessariamente ao grande filme de Naomi Kawase. Premiadíssimo aqui em Cannes – Elefante teve a Palma de Ouro, lembram? –, ele foi vaiado na sessão de imprensa. Isso não parece ter abalado McConaughey, que considerou legítimo que a plateia se manifeste por meio de vaias como de aplausos. Mas ele defendeu seu diretor. Disse que O Mar de Árvores tornou-se caro, no sentido de querido, essencial, para quantos o fizeram. Esse tema do luto, como se lida com ele, também está no novo Nanni Moretti.

Ele montava Habemus Papam quando sua mãe morreu. Ela era professora e, no funeral, ao reencontrar muitos de seus ex-alunos, Moretti deu-se conta de que lhe relatavam aspectos para ele inéditos da mulher que lhe dera a vida. Veio a vontade de refletir sobre a morte e o cinema, do ângulo de uma mulher. E ele criou essa personagem de diretora em crise. A velha mãe está morrendo, a filha adolescente a confronta, e nesse mundo de incertezas ela só tem certeza de uma coisa. Seu coração não está no documentário que faz, sobre operários face à nova administração da fábrica. Margherita Buy faz a diretora, John Turturro é o empresário e Moretti faz o irmão que largava tudo para cuidar da mãe. Uma mãe já morria em La Messa è Fioniota, depois houve a morte traumática de O Quarto do Filho e agora Moretti encara o tema de forma mais serena. “A morte do filho é antinatural, a dos pais, por mais que sinta, faz parte da ordem das coisas”, explica. É o filme mais bem cotado do festival, até aqui. Sete Palmas de Ouro, num total possível de 15. Mas não é grande. Bom, sim.

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