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Em todo o mundo, fãs prometem vigílias e comemorações pela vitória de Leonardo DiCaprio no Oscar

Ator pode levar primeiro prêmio da academia por papel em 'O Regresso'

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2016 | 04h00

Desta vez, vai. Mas, como gato escaldado, Leonardo DiCaprio deve ser o primeiro a encarar com reservas a própria candidatura para o Oscar. Ele já concorreu tantas vezes, e sempre perdeu, que só vai se sentir laureado de posse da estatueta dourada, na grande festa desta noite da Academia de Hollywood. Leo tem sido indicado por sua parceria com Martin Scorsese, e o diretor, depois de perder muitas vezes, ganhou finalmente por The Departed/Os Infiltrados, em 2006. Há três anos, meio mundo já achava que DiCaprio era imbatível por O Lobo de Wall Street. Quer dizer, parecia imbatível, mas ainda não era sua vez (veja o quadro). Agora, é imbatível de novo por O Regresso. Para alguma coisa devem servir os indicadores. DiCaprio ganhou todos. Globo de Ouro, prêmio do Sindicato dos Atores. Só falta o premio da Academia.

E o Oscar vai para... Vamos fazer um exercício de ficção. Leo estará sentado no Kodack Theatre e, como sempre, haverá uma câmera dirigida para ele, assim como outras quatro para os demais finalistas. Será inequívoca a decepção, se mais uma vez ele for preterido. Confirmado, vai suspirar de alívio. Mas, vamos insistir – se não for ele, quem? Eddie Redmayne pode ser queridinho da Academia. Ganhou no ano passado o prêmio de ator por A Teoria de Tudo. Será um exagero se bisar por sua criação em A Garota Dinamarquesa. A própria vitória pelo papel como Stephen Hawking tinha algo de carta marcada, e fraudulenta. A Academia não resiste a um tour de force. Personagens deficientes, com algum handicap físico, sempre chamam prêmios. O problema é que o melhor ator foi também o pior do ano – pelo papel em O Destino de Júpiter, a extravagante fantasia científica dos irmãos Wachowski. E quando ele mais merecia, nem foi indicado – pelo revolucionário de Os Miseráveis, o musical de Tom Hooper.

Bryan Cranston concorre por Trumbo. Legal, mas o filme de Jay Roach é médio, não merece. Matt Damon nem deveria estar entre os cinco, assim como Perdido em Marte, de Ridley Scott, não é melhor de coisa nenhuma – embora essa seja uma afirmação polêmica. Tem gente que adora o filme. Sobra Michael Fassbender, o Steve Jobs de Danny Boyle. Se não for DiCaprio deveria ser ele, mas Fassbender, por melhor que seja, também tem aura de perdedor. É, de qualquer maneira, magnífico como o criador da Apple. DiCaprio, portanto. A torcida é tão grande que chega a haver uma mobilização nas redes sociais. E, em todo o mundo, os fãs prometem vigílias, comemorações. Tudo pela vitória de Leo.

A questão é – ele merece? Sim, embora, como todo prêmio, o Oscar nem sempre seja uma questão de merecimento. A história da Academia é pródiga em injustiçados, esquecidos.

A primeira indicação de DiCaprio foi para melhor coadjuvante. Ele era garoto, em 1993, mas tão bom em Gilbert Grape – Aprendiz De Sonhador, de Lasse Hallström, que até hoje pode-se lembrar da delicadeza e sinceridade do papel, mas a Academia preferiu o Tommy Lee Jones de O Fugitivo. Leo concorreu de novo, e agora para melhor ator, por filmes de Martin Scorsese. O Aviador, em 2004, e O Lobo, em 2013. Perdeu, respectivamente, para Jamie Foxx, por Ray, e Matthew McConaughey, por Clube de Compras Dallas. Entre os dois, concorreu também em 2006, por Diamante de Sangue, e tanto a interpretação de Leo quanto o filme de Edward Zwick merecem uma análise especial.

DiCaprio tem feito escolhas ousadas. Dentro da indústria, prefere o cinema autoral. Scorsese, Clint Eastwood (J. Edgar), Steven Spielberg (Prenda-Me Se For Capaz). Não importa que o próprio Scorsese tenha ganhado seu Oscar por um filme que é quase um remake quadro a quadro (Os Infiltrados, adaptado de um megassucesso de Andy Lau) nem que J. Edgar seja, talvez, o pior filme do grande Clint. Em contrapartida, o ‘comercial’ Diamante de Sangue é muito bom, um daqueles filmes de indústria que redefinem o conceito de qualidade no cinemão. Sem ser um remake, O Regresso baseia-se na mesma história de Fúria Selvagem/Man in the Wilderness, com Richard Harris, de 1971. Alejandro González Iñárritu dá de ombros quando se compara seu filme ao de Richard C. Sarafian, que é melhor. Ele já ganhou o prêmio do Sindicato dos Diretores, e isso o torna favorito na categoria. Mas o Sindicato dos Produtores preferiu Spotlight, e nos últimos oito anos o prêmio dos produtores repetiu-se no Oscar. Teremos um Oscar dividido? Filme para um, direção para outro? E por que não Thomas McCarthy, de Spotlight, também para diretor? Não importa – Leo é poderoso como o grizzly man Hugh Glass. O personagem passa por uma experiência brutalmente física para se elevar espiritualmente. Leo sofre – o masoquismo dos grandes atores – para se engrandecer. Só falta o Oscar. É hoje. Será cruel, o último sofrimento de Hugh Glass, se ele não levar.

 

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