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Em SP, argentino Rodrigo Grande conta a gênese de 'No Fim do Túnel'

Diretor e roteirista reflete sobre obras e autores que o inspiraram na elaboração de seu thriller

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2016 | 05h00

Rodrigo Grande esteve em São Paulo no começo da semana para participar de uma iniciativa inédita do circuito Arteplex. Veio trazido pela distribuidora Warner, cuja subsidiária argentina é parceira de No Fim do Túnel, o explosivo thriller do diretor que estreia nesta quinta-feira, dia 6. A iniciativa inédita - Adhemar Oliveira promoveu a pré-estreia do filme na segunda à noite em salas do seu circuito, em todo o Brasil. Após a exibição, houve um debate ao vivo, em circuito interno de TV, atingindo toda a rede. Foi um sucesso.

 

Pela manhã, o cineasta encontrou-se com o repórter no Itaú Augusta. E contou a gênese de seu belo filme, sucesso de público e crítica na Argentina. Só para situar - No Fim do Túnel é sobre esse homem que vive isolado com seu cão numa casa com um jardim em ruínas. Está preso a uma cadeira de rodas, e consumido pela culpa. Já teve mulher e filha, mas morreram no acidente que o deixou paralítico. Leonardo Sbaraglia, de O Silêncio do Céu, é quem faz o papel. O (anti)herói descobre um plano para assaltar a agência bancária que fica ao lado. Um túnel está sendo cavado, sob a casa. Entra em cena uma mulher (fatal), com uma filha. E Joaquín, o protagonista, vai romper seu isolamento.

Ao repórter, Grande contou que No Fim do Túnel surgiu num momento muito duro de sua vida. “Estava me separando, depois de 15 anos de casamento. Casei-me cedo, constituímos família. Um dia, o amor acabou, e com ele a união. Estava me sentindo péssimo, arrasado. E comecei a trabalhar, obsessivamente. O que faz um roteirista? Escreve. O que faz um diretor? Filma. Para fugir de casa, com suas lembranças, passava os dias no bar, escrevendo e reescrevendo. Esse guión (roteiro) nasceu assim. Não pensava em metaforizar o que acontecia comigo, mas está tudo na tela. O sentimento de impotência, a perda da família. E a vida que vem.”

Existem ecos evidentes de Alfred Hitchcock e de Quentin Tarantino em No Fim do Túnel. O voyeur bisbilhoteiro de Janela Indiscreta, o assalto e o bando selvagem de Cães de Aluguel. “O projeto nasceu como obra de gênero, impregnado por filmes que vi, e amo”, explicou em São Paulo o diretor e roteirista Rodrigo Grande. Nascido em Rosário, em 1974, ele realizou curtas premiados e alguns longas. Rosarigasinos obteve repercussão nacional e internacional. No Fim do Túnel está indo pelo mesmo caminho - mas o filme não foi indicado pela Argentina como representante do país na disputa do Oscar. O escolhido foi El Ciudadano Ilustre, premiado no recente Festival de Veneza.

Rodrigo Grande reconhece que o próprio cinema lhe serviu de inspiração, num momento difícil de sua vida, como esclarece o texto da capa. “Mas eu não dizia - vou colocar um pouco de Hitchcock, de Tarantino. Os filmes impregnam nosso imaginário. O meu, o seu. Você vai escrevendo e nem se dá conta. Busca certa originalidade, certa força e nem se dá conta de que muita coisa já foi feita, até melhor. O importante é colocar a sua verdade nas coisas. E acho que isso No Fim do Túnel tem. É um filme sobre culpa. Sobre um homem que se reconstrói.” Rodrigo queria muito que a morte estivesse presente, mas não como representação do fim de tudo. “Era mais como passagem, transformação. O fim pode ser um (re)começo.”

E foi assim que ele criou o cachorro, que acompanha Joaquín, o personagem de Leonardo Sbaraglia. Quando a mulher - a femme fatale - adentra a casa com a filha emparedada no seu silêncio, é com o cão que a menina começa a se soltar. A garota sussurra no ouvido do ‘perro’ as verdades que a mãe nem sonha. O vilão da história, o chefe do bando que organiza o assalto à agência bancária - e, por isso, o grupo constrói o túnel sob a casa de Joaquín -, é um monstro. Percebemos isso por duas ou três cenas que é bom não antecipar - olha o spoiler. Mas tem também o abuso. “É o mais hediondo dos crimes”, reflete o diretor. “Digo isso como pai, como cidadão. Para o próprio desenvolvimento da trama, era preciso que esse homem fosse abjeto, para provocar uma resposta visceral e imediata, e não apenas do público. Conspurcar a inocência é crime”, diz Grande.

Foram anos de dedicação ao projeto, e por isso mesmo Rodrigo Grande teve tempo de pensar em tudo. Algumas reviravoltas de roteiro - o que os norte-americanos chamam de ‘twists’ - poderão surpreender e até desconcertar, mas Rodrigo diz que foi um trabalho sincronizado do escritor com o diretor. “Como exerço as duas funções, pensava sempre na melhor maneira de servir a uma e a outra.” A casa foi concebida por ele como personagem. “Os brinquedos no jardim abandonado estão lá para lembrar Joaquín de sua culpa.” O túnel tanto pode ser uma lembrança de A Um Passo da Liberdade/Le Trou, de Jacques Becker, como de Fugindo do Inferno, de John Sturges. O elenco superou sua expectativa - “Són bárbaros”, ele diz, em bom argentinês. Mas contar com Federico Luppi (e suas cãs) “foi um luxo”, define.

'Leonardo é um obsessivo maravilhoso'

Rodrigo Grande diverte-se contando como conseguiu Leonardo Sbaraglia como protagonista de No Fim do Túnel. “Sabia que era um ator estupendo, mas o papel é difícil, tanto do ponto de vista emocional como físico. Enviei o roteiro para seu agente e ele retornou marcando um café comigo. E lá estou eu no café, em Buenos Aires, esperando por ele. Vejo esse tipo que avança numa cadeira de rodas e começo a prestar atenção, até por um cacoete profissional. Meu protagonista é paralítico, o tipo me atrai. Vamos ver como se move. Mas espera aí, ‘che’, ele se parece com Leonardo. Caramba, é Leo!”

Sbaraglia foi para a entrevista com o diretor já investido do personagem. “Nunca vi uma entrega tão grande de um ator. Numa cena particularmente dura, ele tinha de chorar. Eu já tinha gritado ‘Corta!’ e Leo não parava de chorar. E foi durante dias assim. Um dia tive de dizer ‘Agora, basta, che!’. O próprio Sbaraglia comentou com o diretor no fim da filmagem. “Embora preso na cadeira de rodas, nunca fiz outro filme em que o personagem se mexesse tanto. Ele brincou que estava exausto. Precisava de férias, mas, na verdade, terminou emendando três ou quatro filmes depois desse.”

Ao repórter, quando esteve em São Paulo para a estreia de O Silêncio do Céu, de Marco Dutra, Sbaraglia disse que, como ator, não consegue dispensar esses desafios que o fazem avançar na carreira. “São personagens muito ricos, densos. E o mais curioso é que, tanto no Silêncio como no Túnel, não falo muito. Mexo-me muito como Joaquín, mas o personagem, paradoxalmente, tem algo de contemplativo. É um voyeur que abruptamente, e de forma violenta, é reclamado pela vida. A família é essencial em ambos os filmes. A família biológica, a família que a gente elege. Gosto disso.”

Violência, a nova tendência argentina?

Pode ser mera coincidência, mas a Warner argentina é parceira de dois grandes êxitos do cinema de lá, e ambos são interpretados por Leonardo Sbaraglia. Ele interpreta o episódio dos motoristas que se disputam na estrada em Relatos Selvagens e o paralítico de No Fim do Túnel. “Meu filme está indo muito bem, no país e fora, mas não se compara a Relatos, que virou um fenômeno nacional e internacional”, diz Rodrigo Grande.

O repórter não se furta a observar - muitos espectadores, no Brasil, lamentam que o cinema nacional não tenha o mesmo comprometimento humano e até social do que se pratica na Argentina. São histórias de classe média, quase sempre pequenos dramas humanos. Existem exceções, e é o que o repórter coloca para Rodrigo Grande. Nos últimos anos, os maiores sucessos argentinos são filmes marcados por forte violência, os já citados de Damián Szifrón e Rodrigo Grande, e também O Clã, de Pablo Trapero. São filmes que abordam a criminalidade urbana, e de certa forma espelham a crise econômica e social da Argentina em anos recentes.

“Sempre tivemos violência, muitas vezes ligada aos temas da ditadura”, reflete Rodrigo Grande. “A responsabilidade nunca abandonou a pauta da discussão. Percebo que há uma mudança, mas é coisa recente e não me arrisco a dizer que venha a se constituir ou já seja uma tendência. Está nesses filmes, inclusive no meu. De minha parte, quis colocar um imaginário de cinema na tela, mas com comprometimento humano e político. Não gostaria de ver filmes em que a violência seja puramente bestial. Tem que ter justificativa.”

 

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