Em 'Riocorrente', cenas da vida constroem a antiutopia nacional

Novo filme de Paulo Sacramento se perde na ambição do diretor e o resultado é meio óbvio

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

07 Junho 2014 | 02h00

Paulo Sacramento arma seu filme com a meticulosidade de uma bomba. O que ele espera, e seus exegetas também, é que ela exploda no inconsciente do público. Um filme para perturbar as consciências, para fazer bem. Um filme que, num contexto completamente diverso, segue uma lição de Robert Altman. Como em Short Cuts – Cenas da Vida Americana, adaptado de Steve Carver, constrói, por meio de short cuts, suas cenas da vida brasileira. São poucos personagens, o que concentra a narrativa, mas eles se dispersam em múltiplas ações, compondo um amplo e ambicioso painel psicossocial.

A ambição não é, em si, negativa, muito menos num artista que queira pensar o mundo, dando seu testemunho sobre a realidade que o cerca. Sacramento, ótimo montador e responsável por um documentário intrigante – O Prisioneiro da Grade de Ferro –, transforma sua ambição em pretensão. Muitos símbolos para expressar a distopia brasileira e, no limite, o resultado é meio óbvio. Riocorrente dá voltas e voltas como os rios que circundam São Paulo. Não precisava tanto para compor uma receita revolucionária, a partir daqueles personagens.

Há o menino de rua, que se chama Exu, com o prego com que arranha carros. O garoto nunca sorri, e aliás nem teria motivos, considerando-se a situação em que vive. Exu deambula pela cidade. Tem um pai/protetor, mas Lee Taylor, que se chama Carlos, mal consegue dar conta de si. Receptador numa loja de motos, ladrão de carros, grafiteiro – o perfil é de alguém que vive fora dos códigos de ajuste social. Carlos integra um triângulo com Renata e Marcelo, interpretados por Simone Iliescu e Roberto Áudio. Um jornalista, crítico de arte, e uma garota burguesa que ora faz sexo com um ora com outro. De cara, Carlos vai um show de música e ouve a frase que vai persegui-lo por todo o filme. A hora de mudar a gente é que faz. É aqui e agora.

Carlos detona sua bomba, vira o homem bomba e em cumplicidade com Exu... Num filme tão cheio de símbolos e pistas é melhor deixar que o espectador faça suas descobertas. Marcelo, embora preocupado em estabelecer o novo na arte – quem sabe como ferramenta para mudar o mundo –, estaciona no passado, como lhe joga na cara Renata. Ele chora, derrotado. Ela chora durante outro espetáculo musical. Lágrimas não bastam para construir a hora. É preciso o gesto – de Carlos e Exu. Tudo isso é realmente muito ambicioso como proposta de pensar a arte, num momento em que o cinema brasileiro está sendo acusado de dar atenção demais ao mercado, produzindo só obras palatáveis.

Ana Carolina, em outro filme que estreou na quinta-feira, também discute o fazer cinema no País. O filme dela é sobre um diretor que realiza sua versão da Primeira Missa. Entram em cena burocratas. Discutem o mercado e se o filme é viável. Na verdade, Ana Carolina, que vem pensando o Brasil desde seu primeiro longa – o documentário Getúlio Vargas, de 1974 –, está mais interessada em ampliar a discussão para saber se o País é viável. A discussão de Paulo Sacramento toma outro rumo, ou adota outro tom. Numa cena, Renata acompanha Marcelo, que entrevista o artista Marcelo Grassmann – ele próprio, numa participação especial.

Grassmann faz uma longa dissertação sobre a função da arte e o papel do artista, e encerra sua fala cobrando do interlocutor, o jornalista, uma pergunta que dê conta daquilo que acabou de dizer. Em outra cena, Marcelo, de novo, discute com Renata os limites entre igual e diferente. Renata sustenta que o diferente, por natureza, é inovador, diverso. Ele retruca que o diferente pelo diferente cria uma nova mesmice. É o que ultimamente ameaça ocorrer com o cinema brasileiro de autores jovens. Tiradentes, que tem sido sua grande vitrine – e onde Riocorrente foi exibido fora da mostra competitiva Aurora, depois de vencer Brasília –, tem evidenciado sintomas dessa crise.

Uma resposta sem pergunta. Uma pergunta que não chega a ser feita. E um acúmulo de informações que se torna dispersivo. A distopia é, por definição, a antítese da utopia ou a utopia negativa. Riocorrente parte desse desejo de romper a paralisia. A mão que brande a bomba caseira e a cabeça que explode trazem para a tela um sentimento de revolta que tem estado presente desde ‘junho’ (aquele junho, o passado). Vira uma coisa meio black bloc, ou que assim parece. De admirável, mesmo, só as imagens captadas por Aloysio Raulino, diretor de fotografia e cineasta que morreu em maio de 2013. 

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