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Em 'Reza a Lenda', há tensão entre a fé e o mandonismo

Cauã Reymond vive motoqueiro no sertão; confira o trailer do filme

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Luiz Zanin Oricchio,
O Estado de S.Paulo

24 Janeiro 2016 | 04h00

Reza a Lenda tem sido vendido como uma espécie de ‘Mad Max’ ambientado no sertão brasileiro. Talvez o apelo de marketing não funcione muito bem, mas isso se verá apenas após o lançamento. Entretanto, há riscos, em especial entre a legião de fãs da distopia futurista de George Miller, que, pelo próprio fanatismo, não são muito de tolerar cópias ou referências. Sagradas escrituras têm de ser citadas sem mudança de uma vírgula. E não é o propósito do diretor Homero Olivetto, cujo senso de publicidade deve estar no DNA. O fato de não propor a cópias é talvez o que se possa dizer de melhor dessa estreia no longa-metragem.

Outra: Olivetto sabe filmar. As sequências iniciais, com perseguição noturna e acidente na estrada do agreste, passam muita tensão visual e auditiva, quando ainda não conhecemos os personagens e não tivemos tempo de desenvolver simpatias ou antipatias em relação a eles. Ou seja, o que temos é cinema, com o jogo de faróis e ruído de motores cortando o silêncio e a noite.

Depois se estabelece a trama de um grupo de bandoleiros motociclistas chefiados por Ara (Cauã Reymond), uma seita religiosa liderada por Galego Lorde (Julio Andrade), uma mocinha linda, que se esforça por parecer perigosa (Sophie Charlotte) e uma estranha a esse mundo, vivida por Luisa Arraes. Sem falar no ator cult, Jesuíta Barbosa, que integra o bando de Ara, e no coronel nordestino interpretado por Humberto Martins. Tudo gira em torno de uma santa que, se acredita, pode provocar chuvas e cuja estátua está sumida em algum ponto.

Para não parecer apenas um ponto de vista sulista sobre o drama nordestino, atores emblemáticos do cinema nordestino como os paraibanos Zezita Matos e Nanego Lira são escalados.

Não é o bastante, no entanto, para imergir o espectador no panorama mental do Nordeste. Há um toque visual um tanto fashion que cria alguma dissonância nessa trama que deseja um certo aggiornamento da temática nordestina. Os bandos andam de moto e não a pé, ou montados em jegues ou cavalos. No entanto, as fontes estruturais que faziam do Nordeste uma “terra em transe” estão todos lá, distribuídos entre a aspereza climática (a seca), o fanatismo religioso que conforta a pobreza (e cujo emblema é Canudos) e o mandonismo que impera do sertão, na figura representada pelo coronel Tenório, de Humberto Martins. Por paradoxo, caberá ao bandoleiro Ara o grito de liberdade em relação à ditadura da fé. Surpreendente, eleva a cotação do filme.

 

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