Em ‘Philomena’, Steve Coogan cria para si papel dramático

Ator conta como foi deixar passado de comédia para assinar roteiro que concorre ao Oscar 2014

Nancy Mills, The New York Times

18 Fevereiro 2014 | 17h58

O ator Steve Coogan é especialista em fazer rir. Pense nos dois filmes Uma Noite no Museu ou em Trovão Tropical. Ainda assim, o riso não é seu único objetivo. “Queria ir além do que faço normalmente, que é divertido, mas limitador. Não sou o primeiro da lista de ninguém para papéis dramáticos”, diz. Isso explica o motivo de o ator ter tido de escrever um papel para si mesmo em Philomena. O feito foi conseguido ao lado de Jeff Pope e, juntos, venceram o prêmio de melhor roteiro no Festival de Veneza e, agora, concorrem no Oscar 2014.

Dirigido por Stephen Frears, Philomena traz Judi Dench no papel principal, uma senhora que resolve buscar o filho que foi tirado dela 50 anos atrás. Coogan é Martin Sixsmith, um ex-jornalista da BBC que se interessa por sua história -- que é baseada em fatos reais.

 

Divulgação

 

“Quatro anos atrás, li um artigo no The Guardian que tinha o título ‘A Igreja Católica vendeu meu filho’. Chorei quando li. Realmente foi algo que me afetou”, lembra. “A foto que acompanhava a notícia era curiosa. Philomena e Martin Sixsmith sorriam, mas a história era perturbadora.” Um dos comediantes mais conhecidos da Inglaterra, o ator de 48 anos sentiu uma conexão pessoal com os fatos que leu.

“Philomena tem aproximadamente a mesma idade que a minha mãe. Tudo isso poderia ter acontecido com ela num universo paralelo. Como tenho ascendência católico-irlandesa, conheço muitas senhoras como Philomena. Senti que poderia abordar aquele mundo com certa segurança.”

A história de Lee começa na Irlanda de 1952, quando Philomena está grávida e solteira. Ela é enviada a um convento para dar à luz, e é forçada a assinar um contrato em que abre mão de tentar conseguir informações sobre o filho depois de ele ser adotado. Tempos depois, a jovem se casa, tem outros filhos, e passa décadas tentando, sem sucesso, reencontrar seu primogênito. As freiras do convento recusam-se a ajudá-la.

Quando Sixsmith ouviu a ideia de Lee, ofereceu-se para ajudá-lo. O projeto cresceu, e dali nasceu o livro homônimo, lançado no País pela editora Verus.

“Não queria contar a história que estava no livro. Meu interesse era a vida das duas pessoas naquela fotografia”, explica Coogan. “Quando os conheci, senti que poderia usá-los para falar de coisas que achava interessante. Eles têm abordagens diferentes da vida.” Coogan descreve Philomena como uma pessoa intuitiva da classe trabalhadora, e Sixmith como um intelectual liberal, uma pessoa cínica. “Obviamente, eu me identifico mais com Martin, apesar de haver uma serenidade em Philomena e no que ela representa que Martin não tem, apesar de todo o seu conhecimento. Esse contraste entre os dois é algo que me intriga”, explica.

“Também queria abordar o assunto da fé e do secularismo de um modo que não ofendesse ninguém. Muitas pessoas evitam qualquer reflexão sobre a religião porque têm pavor de contrariar alguém.”

 

 

 

 

Coogan ficou famoso no Reino Unido por interpretar um apresentar de talk-show inseguro na televisão, Alan Partidge. Ele agora tem seu próprio filme, Alan Partridge: Alpha Papa, que está previsto para estrear nos Estados Unidos no começo do ano que vem.

Philomena, contudo, representa um recomeço para ele. “É divertido ser cínico, porque é o melhor modo de se proteger. Percebi que dizer algo simples e sincero tornou-se uma raridade. Há uma noção de que, se você for honesto, parecerá bobo, sentimental, ingênuo. A sinceridade assusta, porque o torna vulnerável, mas estava convencido de que isso tocaria as pessoas.” De acordo com essa crença, enquanto escrevia o roteiro, Coogan colocou seu cinismo de lado.

“Sou ateu, e tenho raiva de instituições religiosas. Isso posto, reconheço as pessoas com fé simples, as que vivem vidas quietas, dignas, irretocáveis. Elas são normalmente esquecidas”, diz. “Não queria desrespeitá-las, porque as admiro. Meus pais são assim, e eles acolheram crianças pobres e vítimas de abuso, e continuam católicos. Herdei deles suas diretrizes morais.”

As diretrizes do filme não são nada cômicas. Ainda assim, Coogan colocou pitadas de humor em Philomena. “Entendo de comédia. Assim que você faz as pessoas rirem, elas param de ficar na defensiva”, explica ele, que diz-se surpreso com seu talento como roteirista.

“Achava que escrever era coisa para intelectuais. Venho de uma família de classe média baixa, na qual você apenas sobrevive, não é encorajado a almejar alto demais, a se iludir com coisas que estão fora de sua zona de conforto.” Apesar de gostar de atenção, o jovem Coogan jamais consideraria tornar-se ator até que outras pessoas lhe disseram que esta era uma opção. “Imitava vozes na escola, e sempre respondiam que eu deveria tentar a televisão.”

“Só fui para a escola de drama porque era um pouco preguiçoso. Não estava interessado no Método ou em Stanislavsky. Não devorava Chekhov ou Shakespeare. Só assistia TV”, conta o ator, que frequentou a Manchester Metropolitan School of Theatre. Durante o curso, alguém preparava um espetáculo de comédia e o colocou no palco, pedindo para que fizesse as vozes que sempre imitava. “O público gargalhava. Nunca tinha feito isso na frente de 500 pessoas. Ao sair do palco, pensei que queria sentir aquilo de novo, que poderia transformar aquilo num trabalho.” A princípio, ele fazia apresentações abrindo para bandas de rock, o que nem sempre era um sucesso. “Jogavam copos em mim e me mandavam sair do pouco, aos poucos começaram a me ouvir.”

 

 

Apesar de já ter atuado com algumas estrelas, como Jackie Chan em Volta ao Mundo em 80 Dias: Uma Aposta Muito Louca, Will Ferrell e Mark Wahlberg em Os Outros Caras  e Steve Carell em Meu Malvado Favorito 2 , ele sentiu um friozinho na barriga antes de entrar em cena com Dench. “Nos divertimos muito no set, ríamos um com o outro. Ficamos confortáveis juntos, como se eu estivesse passando o dia com uma senhora irlandesa.”

Philomena foi um passo tão importante para Coogan que ele já trabalha em outro roteiro com Pope. “É a primeira vez que faço algo que queria fazer, em que acreditava. Quis seguir meus instintos e ver se o público gostava, se eu conseguiria fazer meu projeto decolar. Tenho a sorte de ter um bom respaldo econômico e poder assumir um risco sem que nada de ruim aconteça além de algumas críticas negativas.”

Mesmo com a estreia positiva no drama, Coogan não pretende abrir mão das comédias. Ele compara os dois gêneros à comida. “Quando você envelhece, você quer uma comida com mais nutrientes, não se contenta mais só com um cheeseburger. Que tal um peito de frango com muitos vegetais e vinagre balsâmico?”

TRADUZIDO POR CLARICE CARDOSO

Mais conteúdo sobre:
Prêmio Oscar

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.