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Em 'O Segredo da Câmara Escura', Kiyshi Kurosawa retoma o suspense

Longa faz meditação visual sobre o amor e a morte

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2016 | 04h00

Sessão lotada de cinéfilos na primeira apresentação de O Segredo da Câmara Escura. Afinal, dizia-se, era o retorno de Kiyoshi Kurosawa ao cinema de gênero. Para quem não sabia nada do novo trabalho do diretor japonês, a primeira surpresa: trata-se de uma produção franco-belga, falada em francês e interpretada por elenco francófono. Segunda: menos que terror convencional, trata-se de suspense psicológico, com traços hipotéticos de sobrenatural, uma história de fantasmas à antiga que não deixa de dialogar com o modelo hitchcokiano. Com tudo isso, o filme está longe de decepcionar. Em especial pela maneira como é construído pela direção, o modo de escorregar de maneira lenta do realismo para uma dimensão mais irrealista, em que o fantástico se insinua pelas frestas abertas na racionalidade.

O que temos, de início, já é uma situação um tanto fora do esquadro, por assim dizer. Jean (Tahar Rahim) é um jovem em busca de emprego que tenta uma vaga de auxiliar com um fotógrafo famoso. Este, Stéphane (Olivier Gourmet), mora numa casa enorme, retirada e rodeada de jardins. Sabe-se que sua mulher morreu e ele vive com a filha única, Marie (Constance Rousseau), que também lhe serve de modelo.

Stéphane fez sucesso como fotógrafo de moda, mas há anos empenha-se num projeto retrô: registrar imagens à maneira dos antigos daguerreótipos, imprimindo-as em chapas de prata. É, para ele, uma volta à verdadeira fotografia, aquela que capta a alma das pessoas, ao invés de imprimir apenas a sua superfície, como as modernas câmeras digitais.

Estamos nesse ambiente retrô. A casa é antiga, enorme, tem escadarias e range. Ocasionalmente, nessas escadas aparece um vulto furtivo de mulher. O fotógrafo opera no porão, com seus dispositivos antiquados. Sente-se, nele, a febre do fanatismo, como se perseguisse algo além das imagens, além do visto, além do sentido.

Deve-se dizer também que o filme se coloca na interseção entre o mundo antigo e o contemporâneo. Se de um lado há um artista atormentado pela morte da mulher e que faz da sua arte algo de transcendente, por outro há o materialista mundo contemporâneo com um corretor de imóveis tentando fazer com que ele venda a propriedade para nela construir um condomínio.

Deve-se também acrescentar, em favor de Kurosawa, que atinge o clima irrealista que, por momentos, mostra um diálogo fértil com o Hitchcock de Um Corpo que Cai. A ideia da perseguição da imagem ideal de mulher predomina em alguns momentos. E, se o espectador conceder, mesmo alguns momentos sobrenaturais podem ser explicados pela condição de excitação mental dos personagens, levados por sua paixão à violência e ao crime. Não se desculpam, porém, certas inconsistências de roteiro, que deixam a história nas bordas do inverossímil. Quando isso acontece, o espectador “desce” do filme, embora tenha, anteriormente, aceitado as hipóteses narrativas, inclusive as do fantástico e do sobrenatural.

Com esses detalhes contra, O Segredo da Câmara Escura não deixa de ser uma estranha meditação sobre a memória, a morte e a permanência. Do ponto de vista visual, o filme é estupendo, com sua beleza estranha e envolvente.

Curumim. Para contrapor a morte irreal de O Segredo da Câmara Escura, a outra sugestão é a morte bem real em Curumim, documentário brasileiro de Marcos Prado. Trata-se da história de Marco Archer, o “Curumim”, preso e executado na Indonésia por tráfico de drogas.

O filme é impressionante e não tem obtido a repercussão merecida talvez por causa do seu tema e personagem. Deve-se dizer que o diretor, se toma partido de Archer, o faz apenas para denunciar a barbárie da pena capital. Em nenhum momento pretende endeusar o personagem nem desculpá-lo por seu crime. Aliás, o próprio Archer confessa que errou feio e apenas pede uma oportunidade de se redimir. Que não lhe foi dada, afinal, sendo executado por um pelotão de fuzilamento em 2015, na Indonésia.

O filme retraça a trajetória de alguém que destruiu a própria vida. Originário de classe social privilegiada, foi o típico playboy carioca dos anos dourados, adepto de esportes radicais – teve um acidente quase fatal com um parapent. Quando o dinheiro falta, as drogas são meio rápido para consegui-lo. E, quanto mais arriscada a jogada, mais rentável ela é. A ponto de Marcos tentar entrar em Jacarta com alguns quilos de cocaína na armação de sua asa delta. Descoberto, conseguiu fugir do aeroporto, mas foi capturado dias depois. Ele próprio conta a história e mostra seu cotidiano, através de uma câmera introduzida na prisão. Filme duro, necessário, de advertência, porém também de compaixão.

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