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Em 'O Novíssimo Testamento', diretor experimenta com feminismo e religião

Na ficção de Jaco van Dormael, Deus (vivido por Benoît Poelvoorde) rege o mundo a partir de seu computador ao qual nem a filha nem a mulher têm acesso

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2016 | 04h00
Atualizado 21 Janeiro 2016 | 09h43

Jaco van Dormael admite que ficou triste “uma hora ou duas” quando O Novíssimo Testamento, após ter sido pré-selecionado entre os nove finalistas, não ficou entre os cinco que vão disputar o Oscar de língua estrangeira. “Não se pode ter tudo”, ele reflete, numa entrevista por telefone. “O filme já fez mais sucesso que pensava ou imaginava. Aliás, vou morrer sem entender por que certos filmes estouram e outros não. Fiz filmes dos quais gostava muito e que não provocaram tanta sensação.”

O Novíssimo Testamento estreia nesta quinta-feira, 21, na cidade. É ótimo. Van Dormael trabalhava na montagem quando houve o ataque a Charlie Hebdo, no começo do ano passado. Embora seu filme não seja sobre religião, ele conta, numa entrevista por telefone, que “poderia não estar falando com você se, ao invés de começar com a fala ‘Meu pai é Deus e mora em Bruxelas’, fizesse a garota dizer ‘Meu pai é Alá e mora em Teerã’. Já me teriam executado”, diz.

A Igreja Católica da Bélgica não só foi tolerante como elogiou o conteúdo antimaterialista do filme. O Novíssimo Testamento nasceu como uma provocação. “O conceito de Deus não me interessa do ponto de vista religioso, ou teológico. Mas Deus como encarnação de um poder masculino e patriarcal, isso sim, me interessa contestar. A Bíblia é machista”, diz o diretor.

Na ficção de O Novíssimo Testamento, Deus (vivido por Benoît Poelvoorde) rege o mundo a partir de seu computador instalado numa sala à qual a filha nem a mulher têm acesso. “Conhecemos o filho de Deus, mas a mulher e a filha me pareceram uma novidade muito interessante. A filha rebelde e a mulher, submissa. A partir daí, começam as dificuldades do Todo-Poderoso”, ele avalia.

A garota, que não aguenta mais a autoridade do pai, foge de casa, mas, aconselhada pelo irmão, JC (Jesus Cristo), entra na internet e... O que ela faz cria um pandemônio. O mundo, tal como o conhecemos, entra em colapso, o que obriga Deus a sair de casa e cair no mundo, onde sua autoridade é contestada.

“O humor é a polidez do desespero”, diz Van Dormael. Foi dessa maneira, como um antídoto do desespero, que ele concebeu o tom de seu filme. A filha, a conselho do irmão Jesus, acrescenta seis apóstolos aos 12 conhecidos. Ela os seleciona na internet e parte atrás deles. Um desses novos apóstolos – que escreverão o Novíssimo Testamento do título – é uma mulher casada e insatisfeita. Catherine Deneuve é quem faz o papel. Cata um garoto na rua para fazer sexo, mas o prazer e a segurança ela encontra nos braços de um gorila. Van Dormael define seus apóstolos: “Se a felicidade é uma casa, eles vivem na sala de espera”.

O grande achado de O Novíssimo Testamento é sua estrutura narrativa em episódios. “Se tivesse adotado a clássica narrativa em três atos, teria de ter personagens e um desfecho mais definido. Queria brincar com tudo e todos.”

Brincar significa, no caso, atribuir um papel à mulher de Deus, interpretada por Yolande Moreau. “Acho que um homem pode fazer um filme feminista, e eu fiz. Yolande vai além da filha e redesenha o mundo à imagem do seu matriarcado. Fica muito melhor”, diz o diretor. Foi difícil convencer Deneuve a fazer o filme? “Ela aderiu com entusiasmo. Catherine não tem medo de nada. Nosso gorila era um boneco dentro do qual havia um acrobata espanhol. Como não falo espanhol, ela se divertia muito dirigindo-o por mim. Seu domínio da língua é herança da parceria com (Luís) Buñuel, com quem fez aqueles grandes filmes (‘Bela da Tarde’ e ‘Tristana’).”

 

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