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Em livro, Henry Jaglom reúne as conversas que teve com Orson Welles

Amigos, eles estiveram juntos em muitos almoços

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

06 Maio 2015 | 03h00

Entre 1983 e 85, Orson Welles encontrou-se regularmente com Henry Jaglom, que ficara seu amigo, para almoçar - e conversar sobre... tudo. Esses diálogos foram editados por Peter Biskind e resultaram num livro visceral - My Lunches With Orson (Editora Picador). No que virou o último diálogo entre ambos, Welles conta uma história sobre como Verdi, o compositor italiano, não conseguia mais produzir nada de valioso no fim da vida. Um dia, contaram-lhe que Wagner havia morrido e ele se lançou numa atividade febril, produzindo verdadeiras obras-primas. Na época, o próprio Welles não conseguia fazer mais nada. Jaglom pergunta - quem seria seu Wagner? Quem teria de morrer para ele voltar a produzir? Welles diz que não ia responder a uma pergunta dessas.

Foi seu último encontro. Ele morreu cinco dias depois, em 10 de outubro de 1985. Completam-se neste ano o centenário do nascimento de Orson Welles - hoje, 6, justamente - e os 30 anos de sua morte. Welles tinha 70 anos, mas parecia ter muito mais. Tinha projetos, mas não produtores. Desdenhava dos ‘amigos’. Dizia que havia prejudicado tanta gente que agora o mundo lhe retribuía. Mas mantinha-se lúcido, e ferino. A leitura de Meus Almoços com Orson - Diálogos Entre Orson Welles e Henry Jaglom lança nova luz sobre a personalidade do diretor de Cidadão Kane. Welles não tinha papas na língua. Seus comentários são mordazes, e ele tem sempre uma fofoca para contar.

Confessa que nunca se interessou muito pela mídia de cinema. Gostava de fazer filmes, isso sim. Jaglom passa o livro tentando conter os arroubos de Orson. No primeiro diálogo, diz que não vai apertar a mão de Jaglom, nem de ninguém, com medo de morrer de aids. Jaglom acusa-o de preconceito. Ele diz que não seria humano, se não fosse preconceituoso. Tem sempre um comentário para fazer - sobre FBI, Churchill, Roosevelt, Chaplin, Marlene Dietrich, Laurence Olivier, David Selznick, Rita Hayworth.

Ele esclarece pontos essenciais - dá sua versão do episódio de It’s All True e da montagem de Soberba. Repete que Greg Tolland era o maior diretor de fotografia do mundo, mas foi ele, Welles, que iluminou Cidadão Kane. Garante que seu roteiro era melhor que o de Herman Mankiewicz e desmente que tenha sido o diretor nos bastidores de O Terceiro Homem. Na verdade, tem muito respeito por Carol Reed. 

Maledicente com quase todo mundo - despreza Hitchcock; o que diria se soubesse que Vertigo/Um Corpo Que Cai iria desbancar Cidadão Kane como melhor filme de todos os tempos? -, só é carinhoso com a ex-mulher, Rita. Conta como certa vez, ele já estava ligado a Paola Mori e Rita o chamou, em Hollywood. Ele atravessou o Atlântico - estava na Itália - e ela o esperava de négligé, na porta do quarto. Ele disse não. Ela lhe pediu que pelo menos lhe pegasse a mão, para ela dormir. Você pode imaginar a cena? A mulher mais desejada do mundo?

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