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Em 'Estudo Para o Vento', diretores filmam o vento em objetos e pessoas

- Atualizado: 27 Janeiro 2016 | 20h 21

Curta foi o destaque do festival até aqui

TIRADENTES - E a Mostra Aurora teve seu primeiro salto qualitativo com Aracati, na terça-feira, 26, à noite. O longa documentário de Aline Portugal e Júlia De Simone amplia uma experiência anterior da dupla de diretoras, que apresentou o curta Estudo Para o Vento, em 2011. Como se filma o vento se ele não tem forma? Por meio de seus efeitos na paisagem, em objetos e pessoas. E é um vento especial, que sopra no Ceará, percorrendo centenas de quilômetros e parando, de repente, de forma tão instantânea como começa.

Ele sopra numa época do ano e prenuncia chuva ou seca. É tão pontual que se pode marcar compromissos para depois do vento. Aline e Júlia usam planos preferencialmente fixos. Cataventos, sombras, galhos de árvores criam o movimento. O plano é fixo, mas, dentro dele, há um mundo em movimento. Se há movimento, há transformação. De cara, plano lindíssimo, insólito, aparece um foguete, numa base no Ceará. Símbolo de progresso: a paisagem transforma-se. Um rio é desviado de seu leito, uma cidade inundada. Assim como, ao parar, o vento coloca para o espectador um tempo suspenso, o efeito destruidor – dos ventos do progresso? – coloca uma questão. Onde há ganho, também há perda.

Beleza. Em 'Aracati', pessoas são inseridas nos cenários
Beleza. Em 'Aracati', pessoas são inseridas nos cenários

Aline e Júlia não filmam apenas paisagens e objetos. Inscrevem pessoas nessa paisagem – e no vento. Um homem assovia para chamar o vento. Uma paisagem em permanente conflito, como quer o tema da 19.ª Mostra de Tiradentes e, dentro dela, a 9.ª Mostra Aurora. Um dos caboclos (sertanejos?) observa que o cearense precisa do vento para sacudir suas tristezas e, quando ele diz isso, o vento (sim!) arranca o chapéu de uma das diretoras detrás da câmera e ele corre atrás, rindo. O espírito da Aurora está no Aracati, o vento e o filme. O vento que interfere na paisagem e na vida das pessoas e o filme que quer dar conta dessa abstração, se é que se pode dizer assim, que produz um efeito tão real. É sempre o compromisso da Aurora. A vontade de balançar o cinema tradicional, de acrescentar novas formas e vozes. Em geral, são diretores iniciantes – é o primeiro longa de Aline e Júlia – e são muito bem-vindos. O cinema brasileiro precisa desse sopro.

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