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Em entrevista, George Miller comenta a ida de ‘Estrada da Fúria’ ao Festival de Cannes

Filme faz parte da seleção oficial do evento e estreia no Brasil na próxima quinta-feira, 14

Entrevista com

George Miller

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

11 Maio 2015 | 03h00

George Miller está feliz da vida de voltar a Cannes. Ele já foi jurado em 1988 e 1999 e volta ao maior festival de cinema do mundo integrando a seleção oficial da edição que começa na quarta-feira, 13, com Mad Max – Fury Road/Estrada da Fúria. O filme estreia quinta, 14, no Brasil. Não concorre à Palma de Ouro, mas terá direito a sessão de gala e tapete vermelho. Dá para imaginar Tom Hardy e Charlize Theron na montée des marches. Ela, com certeza, voltará a ser uma das mulheres mais belas do mundo, despindo o braço artificial e as roupas que celebram a androginia da personagem Imperatrix Furiosa. 

Em Los Angeles, há duas semanas, houve a junket de Fury Road. Basicamente, duas coletivas – uma com o diretor e o elenco principal, a outra com as ‘wives’, as mulheres que, na ficção do novo Mad Max, o vilão Immortant Joe utiliza somente como procriadoras. Mad Max viveu três vezes na interpretação de Mel Gibson, em 1979, 1981 e 1985. Há 12 anos, Miller experimentou o imperioso desejo de retomar sua criação mais famosa. Fez o seu filme mais caro, US$ 150 milhões, e o mais grandioso. Não é um remake, nem uma continuação, mas um recomeço. E, como diz o próprio diretor – numa entrevista por telefone, depois de Los Angeles –, “considerando as dificuldades, o filme saiu muito melhor do que havia sonhado".

O que representa para você mostrar o filme em Cannes?

É mais que um sonho. Já fui jurado no festival, mas independente disso, como cinéfilo, sei da sua importância. Sei também como foi difícil para todos nós concretizarmos o projeto, que foi caro, mais do que qualquer dos filmes anteriores – na verdade, mais que os três primeiros juntos –, e numa filmagem que nos consumiu, num dos lugares mais infernais da Terra, o deserto da Namíbia. Sinto, antes de mais nada, que se trata de um reconhecimento. Japão e França foram os primeiros países a abraçar Mad Max, antes mesmo que a série se tornasse cult. Falei em abraço e é assim que sinto. Voltar a Cannes com Mad Max é como receber um abraço do tipo ‘Valeu a pena tanto esforço’.

Com suas cenas eletrizantes de ação, o filme justifica o título Fury Road, Estrada da Fúria. Mas eu tenho a impressão que poderia se chamar A Ascensão de Furiosa, a personagem de Charlize Theron. Concorda?

Mad Max criou uma mitologia a partir de outras mitologias. O sujeito solitário que se torna herói, mesmo não querendo, num mundo apocalítico, tem raízes na tragédia grega, é Orestes. Mas em toda parte ele foi incorporado pelas culturas locais. Nas França, Mad Max foi chamado de western sobre rodas. No Japão, foi comparado a um ronin. Na Escandinávia, a um viking. Os três primeiros filmes construíram sua dramaturgia a partir de um tema clássico do western, a vingança. Mas você deve se lembrar do último, Além da Cúpula do Trovão. Tina Turner cantava We Don’t Need Another Hero. Estamos vivendo uma época em que até os super-heróis andam quebrados. Fragilizaram-se, tornaram-se humanos, como os semideus da mitologia grega. E, assim, na minha cabeça, quanto mais eu pensava em retomar a saga, pensava que Max não poderia mais ser o mesmo homem. Foi a primeira coisa que disse para Tom Hardy, que faz o papel. Ele queria a bênção de Mel Gibson. OK, disse-lhe, encontre-se com ele, mas depois o esqueça. Porque nós vamos reinventar o personagem e a saga. No segundo filme, tínhamos uma guerreira. Agora, na minha concepção, Max deveria encontrar uma igual. Furiosa/Charlize, num universo em que as mulheres fornecem o leite e o ventre para os guerreiros, se insurge contra seu destino. Ela anula o próprio sexo, e ousa fugir com as quatro mulheres de Immortant Joe, o que desencadeia a perseguição no deserto. Furiosa esculpiu seu corpo à imagem masculina. O filme não tem romance, mas eu não queria que esse mundo futuro fosse destituído de ternura...

E por isso você criou a cena de Nicholas Houit e Riley Keough no carro. Ele é um guerreiro de Immortant Joe. Sonha dar a vida para ter direito a um lugar num hipotético paraíso post-mortem...

Sim, e é uma das minhas cenas preferidas. Sob certos aspectos, ele é um mutante e, quando essa mulher o toca, ele descobre em si mesmo um sentimento que nunca experimentou antes. Desde o início, desde o roteiro, sabia que essa cena seria uma quebra no relato. Ação, ação, ação, quase nenhum diálogo e, aí, de repente, esse encontro fortuito entre dois personagens secundários, como nós não vamos encontrar entre os protagonistas. Max e Furiosa se estranham, brigam e eventualmente se aliam, mas cada um tem sua trajetória. Sim, é a ascensão (the rise) of Furiosa. Em Fury Road, liberei meu lado feminista (risos). Mas o mérito da personagem é de Charlize. Ela criou Furiosa com a dureza que imaginava e lhe emprestou sua doçura. Atores e atrizes formam uma raça à parte. Com Mel (Gibson), era a mesma coisa. Ele deu ao personagem muito mais que havia imaginado.

Você não tem muitos efeitos. Todos aqueles carros se rebentando, a adrenalina, o calor do deserto. Tudo é real, não?

De cara, imaginava que o filme teria de ser verdadeiro e, por isso, até a participação de Mel (Gibson) foi cancelada. Não faria sentido ele voltar. Os efeitos que tenho são as ferramentas de computação para eliminar os fios quando os atores e atrizes voam daqueles carros. Tom (Hardy) e Charlize fizeram a maioria de seus dublês. Ela é muito brava.

Não posso deixar de falar da trilha. Você tem uns solos agudos, dilacerantes de cello. Como trabalhou a trilha?

Tive um compositor genial, que entendeu meu conceito – queria que o filme se situasse entre um concerto selvagem de rock e uma ópera. Como não tenho muitos diálogos, o que os personagens diriam, para se expressar foi para a música. Foi a mixagem de som mais difícil da minha carreira. Atingir o tom exato das cordas. Fazê-las lancinantes. Se você sentiu, é porque deu certo.

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