AFP PHOTO / VALERY HACHE
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Em Cannes, Woody Allen mostra que está de volta à boa forma

Com várias novidades, diretor mostra ‘O Homem Irracional’ no Festival na França, e o público adorou

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

15 Maio 2015 | 18h13

CANNES - E não é que Woody Allen ouviu a reclamação de seus antigos fãs e resolveu voltar à pegada mais densa/intensa de seus grandes filmes da fase com Mia Farrow? O novo filme do autor que passou aqui em Cannes o leva de volta à época de Crimes e Pecados, de 1989. Irrational Man/O Homem Irracional é sobre um professor de filosofia que começa citando Kant e seus questionamentos éticos e termina cometendo um assassinato, que, para encobrir, o leva a outra tentativa de morte. Joaquin Phoenix é o intérprete do papel e do elenco participam as atrizes norte-americanas Emma Stone e Parker Posey, duas habitués dos filmes mais recentes do diretor nova-iorquino.

Nada a ver com certa frivolidade do recente Magia ao Luar. A própria trilha afasta Woody de seus standards jazzísticos – e ele nunca foi tão barulhento em suas escolhas musicais. Ou seja, existe mais novidade no novo Woody Allen do que em tudo o que ele fez recentemente, só não é tão grande quanto os filmes dos anos 1980, sua fase mais criativa, com lampejos ocasionais posteriores. 

O público adorou. Ninguém aplaudiu durante – como no ótimo Mad Max – Estrada da Fúria, de George Miller, que recebeu ovação em cena aberta –, mas O Homem Irrational foi bastante aplaudido depois. Woody Allen veio com seu elenco e disse o que foi o tom do texto até aqui. Está feliz de voltar a uma linha de cinema da qual se afastara voluntariamente. E o que o levou a isso? A necessidade de refletir sobre o estado do mundo, por mais que pareça pedante.

Houve nesta sexta-feira, 15, um encontro do repórter com Matteo Garrone. O diretor italiano de Gomorra e Reality – ambos premiados aqui em Cannes – está mostrando seu primeiro filme em língua inglesa. Tale of Tales baseia-se em histórias de Giambattista Basile, que Italo Calvino chamava de ‘Shakespeare napolitano’. São contos de fadas, histórias de reis e princesas e monstros marinhos, mas Garrone reconhece que são contos perversos, e por isso mesmo se dirigem mais ao público adulto. Para ele, é um filme sobre o desejo, que vira obsessão. Mas pode-se fazer outra leitura – o que se deseja muito pode trazer consequências indesejáveis. Garrone não crê que Tale of Tales seja muito diferente de seus filmes anteriores. Para ele, o que os une é a imaginação visual. “Fui pintor até os 26 anos, e aí desisti da pintura para ser cineasta. Meus quadros são figurativos, e o cinema, com seu realismo, é para mim uma arte figurativa. Para Contos, inspirei-me num mestre italiano de horror, Mario Bava, e na série de 82 gravuras do pintor espanhol Francisco de Goya sobre a guerra. Não sei o que você pensa, mas foi um filme que me deu muito trabalho e do qual estou orgulhoso”, comentou ele.

Um filme como Tale of Tales não deixa de causar estranhamento na competição de Cannes. Essa ideias de uma rainha que quer um filho e precisa comer o coração de uma besta marítima, cozinhado por uma virgem. Nada disso parece fazer muito sentido, mas Garrone acha que Tale of Tales é só uma outra forma de refletir sobre a realidade, e, no limite, é isso que interessa a todo o mundo, aos autores como ao curador Thierry Fremaux. 

Em 2009, o grego Yorgos Lanthimos ganhou o prêmio da seção Un Certain Regard com Canine. Ele volta a Cannes na competição com The Lobster (A Lagosta), sobre um assustador mundo futuro em que os solitários se escondem na floresta e cometem atos de vandalismo. No universo de The Lobster, as pessoas são forçadas a viver em dupla. Os que se separam são enviados para um hotel e têm 45 dias para estabelecer nova união. Em caso de fracasso, vencido o prazo de validade, viram animais da própria escolha. Colin Farrell, por exemplo, divide o quarto com o irmão, transformado em cachorro.

O cinema já revelou muitas distopias, e na maioria o foco está na descendência. Filhos são proibidos ora limitados. Aqui, o foco é outro. Existem ecos de François Truffaut/Ray Bradbury nos solitários que se escondem na floresta, como os homens-livros de Fahrenheit 451. O que não se pode negar é a capacidade de Lanthimos de criar clima, e com sugestiva utilização da música.

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