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Em 'A Viagem dos Comediantes', Theo Angelopoulos usa o tempo para abordar a História

Longa é lançado em DVD pelo selo do Instituto Moreira Salles

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S.Paulo

10 Janeiro 2016 | 21h13

Antes de mais nada, em tempos de Oscar, vale lembrar que, em 1975, o indicado da Grécia para o prêmio foi A Viagem dos Comediantes, de Theo Angelopoulos. Só complemento, o Brasil indicou naquele ano O Amuleto de Ogum, de Nelson Pereira dos Santos. Nenhum dos dois foi sequer finalista, mas não se pode dizer que a Academia de Hollywood tenha feito uma má escolha, pois o vencedor foi Dersu Uzala, de Akira Kurosawa. Angelopoulos foi indicado mais duas ou três vezes pela Grécia (por Paisagem na Neblina, Um Olhar a Cada Dia, A Eternidade e Um Dia), mas nunca foi selecionado. Na votação de 2012 da revista Sight & Sound, A Viagem dos Comediantes foi escolhido por 16 importantes cineastas e outros tantos críticos e historiadores como o melhor filme de todos os tempos, mas, no cômputo geral foi apenas o 102.º colocado (e Vertigo/Um Corpo Que Cai, de Alfred Hitchcock, foi o mais votado).

Numa das muitas entrevistas que deu ao repórter, Angelopoulos disse, certa vez, que a odisseia é o tema por excelência da cultura grega. A Odisseia narra a viagem de Ulisses tentando voltar para casa, Ítaca, após a Guerra de Troia. A Viagem dos Comediantes é sobre uma trupe de teatro que viaja, não propriamente para casa, mas pela Grécia e sua história. O filme dura quatro horas, mas, se você for cinéfilo de carteirinha – e coração –, tudo o que vai querer, no fim, é voltar ao começo. A Viagem está saindo em DVD pelo selo do Instituto Moreira Salles. Além do filme, há um extra precioso – o livreto Mito, História, Teatro, com textos de Theo Angelopoulos, Nagisa Oshima e Lino Miccichè.Se há uma coisa que definia o cinema de Angelopoulos – morreu em 2012 –, era o tempo. Ele amava os planos contínuos, de longa duração. A Viagem é narrado em 80 planos-sequência, e alguns duram bastante (5 ou 6 minutos). O filme começa em 1952 e, a partir daí, o autor usa a data como trampolim, propondo recuos no tempo, mas não na forma de flash-backs tradicionais. A memória não é individual, mas coletiva. Em 1952, ocorre a campanha eleitoral do marechal Papagos. O último plano passa-se em 1939 e, nele, os atores que compõem a trupe de comediantes avançam juntos para a câmera, ouvindo o comentário do narrador. “No outono de 1939, chegamos a Egion. Estávamos cansados. Fazia dois dias que não dormíamos.” No tempo do filme suas expectativas já foram aniquiladas. Alguns mofaram na prisão, outros foram mortos (executados) e os sobreviventes envelheceram.

Mas chegam com esperança – a arte contra a barbárie. A peça que representam, de aldeia em adeia, chama-se Golfo, a Pastora, e segundo Angelopoulos deveria funcionar em diversos níveis. Uma frase simples – “E se nos vissem?” – deixa de pertencer à peça e vira a interrogação real dos personagens no tempo presente, qualquer que seja, que vivem. Muitas vezes Angelopoulos explicou que, se escolheu esse período, é porque nele se encontrava a gênese da militarização da sociedade grega, que levou, mais tarde, ao golpe dos coronéis. A junta governou o país, com mão de ferro, entre 1967 e 74. Quando Angelopoulos iniciou seu filme, os coronéis ainda estavam no poder. Com toda a censura vigente, ele próprio não entendia direito como conseguiu finalizar a Viagem. A junta ainda fez pressão para impedir que o filme concorresse em Cannes, mas isso não impediu que ganhasse o prêmio da crítica.

No período recriado por Angelopoulos, os comediantes atravessam o último ano da ditadura fascista de Metaxas, a guerra contra os italianos, a ocupação nazista, a libertação, a Guerra Civil entre partidários da esquerda e da direita e a intervenção britânica na política grega. É uma história cheia de ciúme e traição, que tem suas raízes na ancestral casa de Atreu, o rei de Micenas. Agamenon faz a guerra contra os italianos em 1940, mas é assassinado pela mulher, Clitemnestra, cujo amante, Egisto, é informante dos nazistas. O filho, Orestes, junta-se à resistência para vingar o pai e é ajudado pela irmã. Após sua morte, Electra assume a direção da trupe. E o curioso é que Orestes e os comediantes voltaram em Paisagem na Neblina.

O outro filme, feito 14 anos mais tarde – em 1989 –, é sobre a viagem iniciática de dois irmãos, Voula e Alexandre, que partem em busca do pai. Sempre a viagem para Angelopoulos. Os dois encontram Orestes na figura de um jovem motociclista que lhes dá carona. Avançam por paisagens desoladas, pela neblina. Encontram outra trupe de comediantes que tenta, mas não consegue, montar seu espetáculo. Angelopoulos talvez estivesse mais pessimista em relação ao futuro da Grécia – não viu o país quebrar –, mas não se deixava abater. Paisagem começa com uma frase – “No início era o caos. Depois, fez-se a luz.” No final, o pequeno Alexandre, depositário de uma consciência, refaz a sentença – “No início, era o caos. Eu fiz a luz.”

Como Paisagem na Neblina, por mais incidentes que contenham as viagens, A Viagem dos Comediantes é outra odisseia interior do artista na memória coletiva. Angelopoulos era homem de grande cultura. Enche seu filme de referências – plásticas, teatrais, mitológicas, cinematográficas. Você não precisa entender todos os significados de A Viagem dos Comediantes, o que talvez seja tarefa para uma vida inteira. A cada revisão, descobrem-se coisas. Mais importante que o olhar racional é entregar-se à emoção de ver A Viagem. Ou de sentir A Viagem. Para isso só é precioso entrar no tempo do filme. Na beleza de suas imagens e na trilha que é sempre muito forte no cinema de Angelopoulos.

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