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É Tudo Verdade trouxe riqueza de temas e abordagens

Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo

11 Abril 2014 | 20h 21

Grandes filmes nacionais e estrangeiros estão na pauta da mostra que anuncia premiados no sábado, 12

E a 19.º edição do maior evento de documentários do Brasil (e da América Latina) chega ao fim. O É Tudo Verdade de 2014 termina oficialmente neste sábado, 12, com a premiação, às 19 h, no Cine Livraria Cultura, embora prossiga domingo com reprises de filmes vencedores. Um dos bons programas de hoje é o filme da abertura em SP – A Canção da Floresta, de Michael Obert, mas, como diz Amir Labaki, criador do É Tudo Verdade, "é belo filme, mas não foi para a competição porque abrir o festival já é uma honraria".

A mostra apresenta hoje uma programação dedicada a Helena Solberg. A primeira mulher homenageada com uma retrospectiva pelo evento terá parte de sua produção exibida neste sábado. Desde o curta A Entrevista, sua obra de estreia, que investiga as expectativas das mulheres em relação ao casamento e ao amor, até A Nova Mulher e Das Cinzas – Nicarágua Hoje, para culminar com As Aventuras de Helena, você poderá ver a síntese das preocupações da diretora. A Helena feminista, a do olhar estrangeiro, e esse olhar não é só da brasileira que morou nos EUA e algumas vezes olhou o Brasil de fora. Também é da cidadã do mundo que foi à Nicarágua tentando entender o país no pós-sandinismo, como foi ao Chile e a outros países da América Latina para falar de sonhos e resistência.

A Alma da Gente é exemplar. Documentando um projeto de cidadania por meio da dança do coreógrafo Ivaldo Bertazzo com comunidades carentes do Rio, Helena e o marido, David Meyer, filmaram um grupo de jovens em dois momentos de suas vidas. O que ocorre no intervalo com um deles leva ao dilacerante desfecho. Helena retrata jovens em busca de cidadania, e identidade.

Carlos Nader filma o homem comum. É o título de seu novo filme, ao qual dedicou 20 anos de sua vida, seguindo o mesmo personagem. O Homem Comum é sobre caminhoneiro que Nader segue na estrada e quando ele fica doente, e o fato subverte sua vida e a da família. Seu tema, apesar das particularidades, não difere do de Helena. Identidade e cidadania estão em foco, de novo. Como o de Nader, dois outros filmes brasileiros e um sueco clamam por sua atenção.

Uma das produções mais impactantes veio da Suécia. Em The Black Power Mixtape, Göran Hugo Olsson havia investigado o movimento negro nos EUA e devassa agora, em Sobre a Violência, os arquivos da TV sueca para discutir as sangrentas lutas pela independência de vários países da África, após a 2.ª Guerra. Quantas vezes você já ouviu falar na barbárie das lutas tribais que resultaram em massacres próximos do genocídio, em países como Ruanda? Os africanos aprenderam com os europeus. O que os ‘civilizados’ belgas fizeram no Congo excede qualquer relato de ficção de horror.

Em Democracia em Preto e Branco, Pedro Asbeg fala de futebol, política e rock e oferece seu acurado retrato do Brasil. O filme sobre a chamada democracia corintiana, no começo dos anos 1980, vincula a luta de Sócrates e de outros grandes jogadores do Corinthians ao movimento nas ruas (por diretas já) e à luta de artistas por liberdade de expressão.

E há o filme de Jorge Furtado sobre a imprensa. O diretor de Ilha das Flores sempre se interessou pela discussão do tema. Ao descobrir que o dramaturgo elisabetiano Ben Jonson escreveu, em 1625, uma peça sobre o assunto – O Mercado de Notícias –, ele se surpreendeu com a acuidade com que Jonson, o segundo maior dramaturgo de seu tempo – o primeiro foi um certo Shakespeare – já antecipava o que a imprensa, invenção recente, poderia ser. Furtado encenou a peça e convidou jornalistas que admira – Paulo Moreira Leite, Jânio de Freitas, Mino Carta, etc. – para ver sua montagem (exclusiva para o filme), buscando similaridades com o Brasil contemporâneo, que é, afinal, o que lhe interessa. O filme aborda temas como a isenção jornalística e os interesses dos donos de empresas. É brilhante, e muito bem montado (por Giba Assis Brasil).

É TUDO VERDADE

Até 13/4. Grátis

Locais: CCBB, Cine Livraria Cultura, Espaço Itaú Augusta. Reserva Cultural.

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