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Cultura

Marcel Carné

'É o Amor', novo filme de Paul Vecchiali, fala de casais que não se prendem a gêneros

Longa não desmonta apenas em clichês de comportamentos

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S.Paulo

12 Março 2016 | 03h00

Paul Vecchiali tornou-se um ‘caso’ do cinema francês como o primeiro diretor a vincular homossexualidade e aids. Foi no filme Encore/Ainda, em 1987. Quando isso ocorreu, ele já tinha mais de 20 anos de carreira. Iniciou-se em 1965 com Les Ruses du Diable. Na época, ainda era recente o fenômeno nouvelle vague, mas a nova onda dissipava-se, ou diversificava-se, cada vez mais distante do credo seminal do movimento. Vecchiali nunca foi um autor da nova onda, embora professasse dois de seus mandamentos – sempre filmes autorais e de baixíssimo orçamento. Seu vínculo mais notável era com o cinema francês dos anos 1930, com a artificialidade assumida do realismo poético de Marcel Carné e Jacques Prévert.

No Dicionário de Cinema, Jean Tulard observa que Vecchiali é objeto de um verdadeiro culto por parte de alguns cinéfilos. O culto chegou ao Brasil, onde seus filmes mais recentes têm chegado ao circuito. Há mais ou menos um ano estreou Noites Brancas no Píer, a particular versão de Vecchiali do clássico Noites Branças, de Dostoievski. Estreou agora – na quinta-feira, 10 –, É o Amor, que confirma a preferência do autor por personagens à margem, ou capazes de tudo sacrificar em sua busca por prazer.

São dois casais – Odile e o namorado, que ela pensa que a está traindo, formam um. O outro é um ator gay que se ligou a um ex-militar que saiu do armário. Só como curiosidade, o ator do filme dentro do filme, Pascal Cervo, acaba de protagonizar um sucesso – O Gostosão do Lago, título que obviamente remete a Um Estranho no Lago, de Alain Guiraudie. O universo do homoerotismo é forte no cinema de Vecchiali. Para provocar ciúme no namorado, Odile se envolve com o ator homossexual, e ele não apenas corresponde como se dispõe a tomá-la do ex. No fundo, o que vai aproximar todas essas pessoas é a carência afetiva e sexual. Em busca de aceitação, todo mundo arrisca-se. Os pares viram triângulo(s) e Vecchiali radicaliza estereótipos que depois desmonta, tipo a poligamia é aceitável, do ponto de vista social, somente para os homens e os gays são mulherzinhas para seus machos.

Com tratamento da cor em tons fortes, É o Amor não desmonta apenas clichês de comportamentos. Vecchiali também subverte noções elementares de tempo e espaço e, exemplo disso, é a cena da festa na praia, filmada de um jeito que desconcerta o espectador quanto ao real cenário em que se encontram os personagens. Em seu verbete no Dicionário de Cinema, Jean Tulard diz que, com a desculpa da falta de recursos, Vecchiali tenta disfarçar deficiências que talvez sejam de ordem conceitual. Mesmo respeitando-o como ‘autor’, Tulard não reza pela cartilha de Vecchiali como grande cineasta. Mas ele, como qualquer cinéfilo digno do nome, reconhece a importância do projeto de Vecchiali. O que ele quer, como ‘autor’, é libertar o real daquilo que o obscurece, sejam ideias ou olhares preconcebidos. Um cineasta ‘original’, em suma.

 

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