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Documentários exploram trajetórias de cantoras brasileiras

Filmes sobre Cássia Eller, Aracy de Almeida, Elza Soares e Maria Bethânia estreiam neste Festival do Rio

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2014 | 16h00

RIO - “A música me comanda. Cantando eu sei mais de mim.” A reflexão é de Cássia Eller e abre o documentário Cássia, que estreia no Festival Internacional do Cinema do Rio. Mas poderia sair da boca de outras duas cantoras perfiladas em filmes programados para a mostra: Aracy de Almeida, apresentada no curta Araca – O Samba em Pessoa, e Elza Soares, desnudada (literalmente) em My Name Is Now. Ao lado da professora Cleonice Berardinelli, Maria Bethânia está em (O Vento Lá Fora), que a enfoca como intérprete de Fernando Pessoa. 

Os quatro são projetos bem distintos. O primeiro recupera imagens raras da carreira de Cássia (1962-2001), desde as experiências músico-teatrais em Brasília, nos anos 1980, e entrevista figuras centrais em sua vida: músicos, parentes, a companheira, Maria Eugênia Vieira Martins, e o filho, Francisco (Chicão), hoje com 21 anos. “Queria fazer justiça a Cássia, mostrar que ela era o oposto da doidona do palco: uma pessoa doce, família e que não fazia questão de sucesso”, diz Paulo Henrique Fontenelle, o diretor. “A Eugênia a princípio não quis, mas topou porque o Chicão gostou do Loki (seu premiado documentário sobre Arnaldo Baptista). A condição foi que não fosse chapa branca.” 

Para o fã, é uma viagem inevitavelmente lacrimosa por uma trajetória marcada pelo ecletismo (ia de Nirvana a Edith Piaf com o mesmo magnetismo) e a persona tímida-espalhafatosa (mostrava os peitos no palco, mas tremia diante de situações sociais corriqueiras). 

Araca revela a Dama do Encantado (1914-1988), cantora favorita de Noel Rosa, para uma geração que a conheceu como a jurada rabugenta que esculhambava os calouros de Silvio Santos. O diretor, Aleques Eiterer, escolheu começar o filme com uma cena recorrente dos dominicais: Aracy apertando a campainha para expulsar um candidato desafinado do palco. Silvio reclama e ela responde: “Ô, patrão, e tu manja gente que canta?”. E seguem vaias da plateia. “Não é justo a Aracy ser lembrada só por isso”, considera Eiterer, que descobriu a voz grave e triste de Aracy ao encontrar um LP seu perdido num sebo. O filme é pontuado por interpretações definitivas de Noel por Aracy, como Último Desejo, Palpite Infeliz e X do Problema. 

My Name Is Now é um projeto ambicioso que a diretora Elizabete Martins Campos desenvolveu por seis anos. Ela preferiu não recorrer ao formato tradicional do doc musical. “Busquei um fluxo de cinema. Elza é uma artista completa e fiquei encantada com a capacidade dela de improvisação. Senti que isso tinha que entrar.” 

O tom é íntimo: a cantora aparece em close e diante de um espelho. Por sugestão própria, foi filmada nua, aos 77 anos, e em posição fetal – a imagem é usada no ousado cartaz do filme. Os scats hipnotizantes e as gravações de sucessos como o inaugural Se Acaso Você Chegasse, Lata D’Água e Dura na Queda embalam o espectador, que se sensibiliza com “a dor, a pancada, as humilhações” por que passou a mulher negra e pobre.

A amizade e os afetos que unem Maria Bethânia e Cleonice Berardinelli dão o tom caloroso de (O Vento Lá Fora). “É denso e havia a preocupação de não ficar enfadonho, mas o filme tem oxigenação e condensa a potência da poesia”, considera o diretor, Marcio Debellian, convocado por Bethânia. A cantora, que inclui Pessoa no roteiro de seus shows, e Dona Cleo, sumidade em Pessoa, escolheram poemas de seus principais heterônimos e construíram um retrato do poeta dramático, tratando de temas pertinentes à obra, como a mentira e as diferentes personas. Bethânia é reverente e Dona Cleo, de 98 anos, é exigente com a prosódia e o fluxo dos versos.

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