Marcos Mendes/Agência Estado
Marcos Mendes/Agência Estado

Documentário vai em busca das sete ondas de Caio Fernando Abreu

Filme recupera trajetória múltipla do escritor, recriado por meio de seus livros e do depoimento de amigos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

28 Abril 2014 | 02h10

Caio Fernando Abreu foi um cometa que assolou as letras brasileiras. Nascido em 1948, morto em 1996, escreveu livros de contos, romances e peças de teatro, e inspirou filmes que deram testemunhos das ansiedades de sua geração, que viveu intensamente os anos 1960. Sexo, drogas, desbunde, exílio. Os amigos dirão que, mais que qualquer livro, a vida de Caio talvez tenha sido sua obra-prima e a verdade é que vida e literatura sempre estiveram juntas para ele. Espelhavam-se. É impossível falar do desbunde da geração de Caio sem enfocar a política.

Não por acaso, foi perseguido pelo Dops, o Departamento de Ordem Política e Social. Depois de se refugiar na casa de Hilda Hilst, em São Paulo, se autoexilou na Espanha e viajou pela Europa. O Ovo Apunhalado, Morangos Mofados, Onde Andará Dulce Veiga?, Pequenas Epifanias. Cada um terá o seu Caio para amar. Dois diretores gaúchos, Bruno Polidoro e Cacá Nazario, trouxeram esse personagem singular para o cinema, por meio do documentário Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes. Para dar conta da complexidade de Caio, eles dividem o filme em sete ondas. São blocos narrativos com os significativos títulos de onda da solidão, do espanto, do amor, da melancolia, do transbordamento, do irremediável e do além muros. São temas - tessituras - que permeiam a obra do escritor.

Amigos dão seu testemunho, leem os textos de Caio e ele próprio verbaliza sentimentos e (in)certezas. Adriana Calcanhotto, Maria Adelaide Amaral, Marcos Breda, Grace Gianoukas, Reinaldo Moraes e Luciano Alabarse somam suas vozes às dos tradutores de Caio para o alemão, o holandês, o francês e o italiano, todos tentando decifrar/iluminar o mistério de sua escrita. O filme já foi chamado de 'road movie poético'. A experimentação formal cria 'camadas' nas próprias imagens. É uma plasticidade elaborada e refinada, sem ser videoarte.

O que o fazia de Caio Fernando Abreu um ser tão especial? A câmera vira personagem e visita os lugares em que ele viveu, e que amou. Nascido em Santiago do Boqueirão, no Rio Grande do Sul, morreu em Porto Alegre. Mas outras cidades foram cenários de suas andanças como peregrino do tempo, do seu tempo. Paris, Londres, Amsterdã, São Paulo, Rio. Se a escrita de Caio muitas vezes é fragmentada, com algo de tênue - ele foi um grande cronista no Estado -, o filme expressa suas ondas por meio de fragmentos filmados. É um filme muito bonito. Entra num circuito bem alternativo - Matilha Cultural, um horário do CCSP. Na vida, Caio fez essa passagem. Falou de afetos, de sexualidades alternativas e chegou ao mainstream da arte.

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