Pandora Filmes
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Documentário ‘O Homem Que Matou John Wayne’ narra a trajetória de Ruy Guerra

Ruy Guerra, um dos nossos mais radicais cineastas, tem sua vida e obra revisitada com entrevista e depoimentos

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

16 Agosto 2017 | 06h00

Está mais do que na hora de sabermos que Ruy Guerra, brasileiro nascido em Moçambique, é um dos grandes artistas do País. O documentário O Homem Que Matou John Wayne se complementa com a biografia Ruy Guerra – Paixão Escancarada, já disponível nas livrarias e que será lançada dia 21 no Rio. O nome por trás dos dois projetos, a historiadora Vavy Pacheco Borges, assina a biografia e a produção executiva do filme. É também corroteirista do longa, em cartaz a partir de quinta, 17. 

Dirigido por Diogo Oliveira e Bruno Laet, O Homem Que Matou John Wayne é composto por uma entrevista com Ruy, bastante densa, sobre política & estética. Registra imagens atuais do cineasta em Paris e Moçambique. Traz cenas de arquivo, como uma entrevista com o jovem Ruy Guerra, explicando por que veio para o Brasil, depois de passar pela Europa, acabando por se radicar por aqui. Contém depoimentos de alguns dos seus amigos, como Chico Buarque, Gabriel García Márquez e Werner Herzog, entre outros. 

Enfim, o filme é uma meditação, ainda que incompleta, sobre a vida e a obra de um dos nossos grandes autores. O título refere-se a uma anedota privada de Ruy, mix de realidade e fantasia, que explicita seus sentimentos em relação aos poderosos do mundo. Melhor assistir ao filme e escutar a historieta, ambientada em Hollywood, e contada pelo próprio Ruy. 

A partir desse caso que, como dizem os italianos, “si non è vero è ben trovato”, podemos começar a entender a personalidade do artista. Ruy é um personagem de ideias fortes. Certo ou errado (mas, como dizer?), ele as defende com tenacidade. 

Por exemplo, caso talvez raro entre criadores contemporâneos, ele não acredita em arte apolítica. O criador está, queira ou não, imerso em seu tempo, em sua realidade, e não precisa fazer força para trazer sua posição sobre esse “real” e esse tempo para sua obra. A passagem se dá com naturalidade. 

Corte para uma fala iluminadora de Gabriel García Márquez, de quem Ruy Guerra adaptou diversos textos para as telas (Erêndira, O Veneno da Madrugada, A Bela Palomera, os contos de Me Alquilo para Soñar). Gabo diz que ideologia é simplesmente a maneira que o artista tem de olhar para o mundo, seu jeito de entendê-lo. Dessa forma, é natural que essa maneira de ver entre em sua obra, mas sem didatismo ou panfletarismo. Quando isso acontece, e a visão de mundo do artista se sobrepõe aos interesses da obra, esta se perde. Isso acontece, diz Gabo, quando o artista não acredita em seu meio de expressão e tenta convencer à força o espectador de suas ideias. 

Esse conjunto de temas rima com o que diz o grande crítico francês Michel Ciment sobre Ruy Guerra. Ciment lembra que os anos 1960 foram marcados por profunda transformação dos meios de expressão, mas que essa criatividade se via menos no cinema político. “Ruy Guerra era uma das exceções”, diz. Citando Os Cafajestes, mas, sobretudo, Os Fuzis, Ciment lembra que Ruy, junto de Nagisa Oshima, Jerzy Skolimowski e Francesco Rosi, eram ousados tanto do ponto de vista da forma como do conteúdo político. Ou seja, uma obra de ruptura política embalada numa forma convencional seria uma espécie de contradição em termos. 

Desse modo, faz mais sentido uma das falas centrais de Ruy Guerra no filme: “A única coisa que um artista não pode deixar de ter é coragem. Pode não ter talento. É preferível um artista corajoso que um artista talentoso e covarde”. O talento, para Ruy, se cultiva ao longo de toda uma vida, com leitura, filmes, escrita, reflexões, conversas. A coragem é a disposição para o confronto. Corpo a corpo com a vida, com a obra. É, digamos, uma opção ética tanto como estética. Sem ela, a obra pode ficar bonitinha. Mas não vibra. 

Ele dá um exemplo de coragem. A longa sequência de Os Cafajestes, com Norma Bengell nua na praia, sendo perseguida pelos dois playboys no carro. A cena se alonga e se alonga, parece interminável. O bom senso mandava cortar, para tornar a sequência mais palatável. Mas o artista sabia que ela tinha de ser alongada porque, no caso, a duração era fundamental, para que o espectador imergisse na história e compreendesse a situação e os personagens. “Será que hoje eu teria essa coragem? Não sei. Quero acreditar que sim, mas não sei”, diz. 

Quem assistiu a Estorvo, versão radical do romance de Chico Buarque, pode apostar que sim. 

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