WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Documentário ‘Górgona’ exibe detalhes da corajosa luta de Maria Alice Vergueiro

Filme faz retrato da artista apaixonada pela cena

Entrevista com

Maria Alice Vergueiro

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

01 Abril 2018 | 06h00

A história da atriz e diretora Maria Alice Vergueiro se confunde com a do moderno teatro brasileiro. Aos 83 anos, dos quais 56 de carreira, ela participou da criação do irreverente grupo Ornitorrinco (que agora celebra 40 anos), tornou-se uma das principais intérpretes do teatro de Bertold Brecht, participou do Teatro Oficina e ainda protagonizou um dos hits da internet no curta Tapa na Pantera, que viralizou ao mostrar uma senhora que consome maconha sem se afirmar viciada.

Aclamada pela crítica, reverenciada por uma parte do público, Maria Alice, no entanto, sofre com a indiferença do mercado, incapaz de visualizar em sua irreverência uma rara qualidade. Mesmo com movimentos limitados e padecendo da doença de Parkinson, a atriz ainda oferece muito com poucos recursos. É o que se observa no documentário Górgona, de Pedro Jezler e Fábio Furtado, que acaba de estrear na cidade.

Rodado durante cinco anos, trata-se dos bastidores da peça As Três Velhas, do Alejandro Jodorowsky, dirigida por Maria Alice. A originalidade do documentário está em não simplesmente abordar o passado, mas mostrar como o passado moldou a Maria Alice Vergueiro que explode na tela. O título refere-se a uma figura mitológica que tem a capacidade de transformar em pedra qualquer um que olhe em seus olhos. Uma forma original de falar sobre a morte sem ser literal.

Senhora do palco desde 1962, quando ali pisou pela primeira vez em A Mandrágora, sob direção de Augusto Boal, Maria Alice Vergueiro encenou até recentemente a peça Why the Horse?, que mostra justamente o seu velório. Sobre seu trabalho, ela conversou com o Estado.

Em Why the Horse?, você encena o próprio enterro. A partir de quando a morte se tornou um assunto mais fácil de se encarar?

Tornou-se? Não sei. A morte foi se tornando um assunto, aos poucos, e por razões nem sempre óbvias. Tem a questão do tempo que passa, a idade, o Parkinson, as internações hospitalares. Mas teve também a morte de meu irmão, que me doeu muito. Ele disse que sentia medo, um pouco antes de morrer. Isso me deixou perplexa, fiquei pensando muito nisso. Why the Horse foi uma das formas de lidar com a questão. Sou uma pessoa de teatro, uma das formas de resolver certas questões, de conhecer, de explorar, é em cena. Quem sabe se eu ensaiasse bastante, sentiria menos medo na hora H?

Você se considera uma mulher corajosa? Por tudo que conseguiu e mesmo pelo que não conseguiu, mas batalhou para ter?

Eu me considero uma pessoa de sorte. Consegui realizar a maior parte dos projetos que quis. Isso não significa que foi fácil. Teve o tempo do Oficina, da ditadura, de segurar, ao lado do Zé e de outros parceiros, não só o próprio Teatro Oficina, que corria o risco de fechar (como corre de novo, achei que isso tinha acabado), como uma forma de viver, de criar e de se expressar. Mas eu tive a meu favor um certo recurso, de vir de uma família e de um contexto que me ajudavam. Sem isso talvez não fosse possível. O paradoxo é um pouco este: para fazer arte, para mergulhar em um processo, precisa de tempo, precisa errar, olhar, corrigir, ir de novo. Como viabilizar isso? Quem aposta nisso? Então parece que o sistema em si não está muito preparado. O filme Górgona é outro exemplo. O Fábio e o Pedro filmaram enquanto estávamos com As Três Velhas, que foi mais um processo que levou muito tempo até conseguirmos patrocínio. O próprio filme, que demorou bastante tempo sendo filmado, teve que ser produzido por conta própria. Então não é só com o teatro, nem só no tempo da ditadura. Tem a ver mesmo com um tipo de criação e com um tempo e espaço para se criar. Se eu tive condições de me dedicar ao que queria, até certo ponto, também gastei o que tinha e o que não tinha para realizar aquilo que achava importante.

Sua carreira tem uma importância fundamental para o teatro brasileiro. Por isso, o fenômeno Tapa na Pantera não deixa de ser uma injustiça, pois exibiu um pedaço ínfimo de seu talento. Como observa isso?

Eu achei o Tapa na Pantera ótimo! Foi muito divertido fazer, com o Rafa (Rafael Gomes), o Esmir (Filho) e a Mariana (Bastos), eles estavam na faculdade – o Rafa me conhecia. Eu não tinha a menor ideia do que se tornaria, nem eles! De repente eu estava na internet, eu mal sabia como mexer no computador. As pessoas falavam comigo na rua, uma moçada se aproximou de mim. Isso que é importante, essa moçada. Eles jamais teriam chegado a mim, nem eu a eles, se não fosse o Tapa. Tudo bem que é uma parte de tudo o que fiz, mas abriu uma porta.

O teatro ainda vale mais do que psicanálise?

Acho que são coisas diferentes, é claro. Mas, como falei sobre o Why the Horse, muitas vezes, para o artista, mergulhar em um processo é buscar respostas para as próprias questões. Não precisa ser apenas algo que te dá medo, como a morte. Mas algo que você não consegue entender totalmente, que quer explorar, que sente como importante. O Zé Celso falava que num processo realmente criativo sempre tinha um pouco de sangue, de sêmen e de suor no palco. Acaba sendo importante, no sentido do comprometimento com aquilo que você faz, com o que quer criar, mesmo que você não saiba direito o que é quando começa. Mas a psicanálise é importante também, não quero dizer que tudo se resolva pela arte, ou que precisamos fazer arteterapia. Mas são campos que estão ligados. Tudo o que envolve a subjetividade, como no caso de quem cria, de certa maneira envolve enfrentar suas próprias questões.

De Brecht, você já fez, somente para ficar em alguns títulos, Ópera dos Três Vinténs, Vida de Galileu, Dama Indigna, Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny, além de ter cedido a voz para dezenas de canções escritas pelo alemão. As palavras dele seriam aquelas que dão o verdadeiro contorno da sua voz no teatro?

Não só da minha voz, acho que Brecht dá contorno para muitas coisas no nosso tempo. No meu tempo, sem dúvida, mas até hoje. Um jeito de abordar os temas, uma certa irreverência que é muito séria, entender que as questões podem ter muitas respostas paralelas. Um contato com a vida também, eu acho, com as pessoas. É um teatro voltado para o contato com quem assiste, para um diálogo, de certa forma. E que encara angústias que são sociais, políticas e pessoais ao mesmo tempo. Mas não quer dizer que vamos fazer só peças de Brecht. As Três Velhas, e principalmente Why the Horse, acho que são montagens brechtianas, ao seu modo.

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