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Documentário celebra criatividade de Henfil

Agencia Estado

06 Agosto 2000 | 21h 54

O cartunista Henrique de Souza Filho, o Henfil, ganha nesta segunda-feira uma merecida homenagem do Museu da Imagem e do Som (MIS): será exibido, às 20 horas, um documentário em média-metragem inédito: Cartas da Mãe. O filme é dirigido por Marina Willer e Fernando Kinas e tem por objetivo, além da homenagem ao artista genial, mostrar que pouca coisa mudou no Brasil, desde que Henfil morreu, em 1988. "Ao contrário, as reivindicações de Henfil continuam mais atuais do que nunca", garante Kinas. A definição cartunista é apenas genérica. Henfil era uma espécie de multimídia, que atuou como jornalista, escritor, humorista, militante político, fez programas para a TV (principalmente o TV Homem, quadro da TV Mulher, na Globo) e chegou a dirigir e atuar num filme muito divertido: Tanga - Deu no New York Times. Em todas as áreas em que atuou, destacou-se pelo bom humor e pela preocupação social. "Henfil era uma pessoa tão querida que encontramos enorme facilidade para pesquisar e filmar; todas as portas abriam-se com facilidade", conta Kinas. Em uma das cartas, lidas pelo ator e diretor Antônio Abujamra, Henfil fala do mau atendimento dos hospitais no antigo INPS. Enquanto isso, mostram-se imagens atuais de hospitais em péssimo estado. O escritor e humorista Luis Fernando Verissimo afirma, em depoimento aos diretores: "Tudo que ele criticou continua aí." Os cartunistas Laerte e Angeli, amigos de Henfil, também dão depoimentos, bem como o petista Luiz Inácio Lula da Silva. Em meados dos anos 70, as Cartas da Mãe eram publicadas pela revista IstoÉ. Logo chamaram a atenção pelo jeito doce e sutil, às vezes quase imperceptível, de criticar o governo militar. O tom coloquial, como se fosse de um filho para a mãe, reforçado pelo retrato 3x4 de dona Maria no alto da página, driblava com facilidade os censores. Quando Henfil falava que estava com saudade do irmão, ao dizer "... não é a mesma coisa comer os biscoitos sem ter o mano por perto...", estava, na verdade, denunciando que havia exilados e cobrando a Anistia. O irmão distante ficou famoso mais tarde: era o sociólogo Betinho, da hoje esquecida campanha contra a fome. Na época, ele teve de se exilar, pois a ditadura militar o considerava "de esquerda". Essas cartas inspiraram o compositor Aldir Blanc, que imortalizou o drama com a música O Bêbado e a Equilibrista, no trecho "... que sonha, com a volta do irmão do Henfil/ e tanta gente que partiu..." O músico André Abujamra, que assina a trilha do filme, encaixou um pequeno trecho da canção durante os letreiros finais. Quem perder a estréia no MIS não precisa se preocupar. A TV Cultura exibe Cartas da Mãe no dia 23, às 23h30, com reprise no dia 27, à meia-noite, dentro do programa Zoom. Cartas da Mãe. Direção de Marina Willer e Fernando Kinas. Amanhã, às 20 horas. Grátis. Museu da Imagem e do Som. Avenida Europa, 158, tel. 282-0213

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