Tobias Schwarz |AFP
Tobias Schwarz |AFP

No Festival de Berlim, 'Django' mostra a saga de um artista contra o nazismo

Filme de Etienne Comar, que abre a Berlinale, revê os dois anos em que o músico de origem cigana toma consciência do estado do mundo à sua volta

Luiz Carlos Merten, ENVIADO ESPECIAL

09 Fevereiro 2017 | 19h26

BERLIM - Coube à França, e a um diretor estreante – Etienne Comar –, a honra de abrir a Berlinale de 2017. Muita gente se decepcionou com Django e até ficou questionando se o filme merecia todo esse cuidado de Dieter Kosslick, programador do Festival de Berlim. É desconhecer a personalidade desse homem singular que, à frente do festival, se tornou conhecido e amado pelos berlinenses. Kosslick tem um lado clownesco. Se você o segue na rua, vai se surpreender com a quantidade de gente que o cumprimenta – “Hi, Dieter”. E ‘herr’ Koslick tem a sua agenda preferida – a questão dos imigrantes.

Django faz um recorte muito específico da vida de Django Reinhardt, entre 1943 e 45. Embora de origem cigana, um grupo caçado até a morte pelos nazistas, Django é muito popular em Paris. A elite do Reich que ocupa a França espera por ele no teatro, enquanto Django pesca no Sena. Ele é aplaudido de pé pelos generais de Adolf Hitler, que não ligam para sua origem nem etnia. Na França ocupada, os franceses que aderiram conseguem ser piores que os nazistas. Mas Django, mesmo adulado, tem seus limites. Nada de blues em seus concertos, a música dos negros norte-americanos. E o próprio Goebbels quer ouvi-lo tocar em Berlim, talvez o ‘führer’.

O filme descreve esses dois anos em que o artista toma consciência do estado do mundo à sua volta. O egoísta autocentrado conscientiza-se. Tudo isso tem a ver com a Berlinale e Dieter Kosslick – o imigrante, o excluído social, o papel do artista, o nazismo. OK, talvez não seja um filme 100% artístico, de festival, mas tem belos momentos, um Reda Kateb que ‘veste’ o personagem com propriedade e o mimetiza tão bem que você acredita que é capaz de estar tocando de verdade. E o filme ainda tem Cécile de France como Louise, uma personagem ficcional que vai fazer, dramaturgicamente, a passagem de Django para a resistência. É um filme bom de ver, de ouvir, mas não foi um começo de arromba.

Mas a coletiva foi ótima – as coletivas. Primeiro, a do júri. Herr president é Paul Verhoeven, que não apenas apresentou seu corpo de jurados – a atriz Maggie Gyllenhaal, o ator e diretor Diego Luna, o cineasta chinês Wang Qua’an, etc. – como teve de responder a incontáveis questões sobre Elle. Sim, ele tentou fazer o filme em Hollywood, mas o único estúdio que se interessou condicionou a aprovação do projeto a uma big star. Verhoeven recebeu uma lista de sete das mais belas e talentosas estrelas do cinemão. Todas declinaram. Ele tentou a sorte na França e descobriu que Isabelle Huppert era louca pelo papel e até se havia oferecido ao escritor..., no caso de uma possível adaptação. Verhoeven nem precisou ir até Isabelle. Ela veio até ele, pedindo para interpretar Michèle.

Seguiu-se uma discussão muito interessante sobre material ‘adulto’ entre Verhoeven e Maggie Gyllenhaal. O problema não é tanto procurar artistas corajosos, mas o fato de a indústria haver escolhido uma faixa – PG 13. Maiores de 13 anos, só guiados pelos pais. O problema não é a tecnologia dos efeitos nem os efeitos da tecnologia. O problema é essa escolha deliberada e restritiva. Berlim tem uma seção, Talent Campus, para se comunicar com os jovens aspirantes a críticos, atores, diretores. Não é a mesma coisa que a mostra Generation, Gerações. Nesta sexta, 10, Verhoeven e Maggie participam de um encontro com o público. O tema do Talent Campus deste ano é – Courage, Against all Odds. Os dois vão discutir o assunto.

Coragem contra tudo e todos. O festival tem fama de político, mas Verhoeven enfatizou que todo o cinema é sempre político e o que ele espera ver – filmes polêmicos, provocadores. Para ser eficazmente político, o filme tem de ser ‘cinema’. Foi mais ou menos o que disse Reda Kateb. Filho de checa com italiano, neto do grande escritor argelino Kateb Yacine, ele disse que prefere a sinceridade ao panfleto. No filme, quando o nazista pergunta a Django se conhece música, ele responde que a música o conhece. “Sou ator, não político, mas o que puder fazer para que haja compaixão e entendimento no mundo, coloco minhas ferramentas (de trabalho) a serviço dessa causa.”

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