Festa do Cinema Italiano
Festa do Cinema Italiano

Diversidade dá o tom da grande Festa do Cinema Italiano

Evento que ocorre em oito cidades brasileiras tem como destaque a violência da máfia em 'O Fantasma da Sicília'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2017 | 17h01

Antonio Piazza e Fabio Grassadonia pertencem à nova geração de diretores italianos. Começaram a trabalhar juntos como roteiristas, viraram realizadores - em dupla. Vieram ao Festival do Rio para mostrar seu primeiro longa em 2013. Salvo - Uma História de Amor e Máfia fez sucesso de crítica, foi multipremiado. Piazza e Grassadonia estão de volta no Rio, e na sequência virão a São Paulo. Desta vez, participam da Festa do Cinema Italiano no Brasil - 8 1/2, como o clássico de Federico Fellini.

O novo longa chama-se Sicilian Ghost Story. Passou em Cannes, em maio. No Brasil, será distribuído pela Pandora, como O Fantasma da Sicília. A história é real e mostra o brutal assassinato de um garoto siciliano pela Máfia. Prepare-se, porque o que você poderá ver na sexta, 1.º, no Espaço Itaú Augusta é muito forte. Nesta quinta, 31, a Festa abre-se à noite, para convidados, com a exibição de uma comédia - Em Guerra por Amor. É uma realização do ator e diretor Pif, como é conhecido Pierfrancesco Diliberto.

De volta a O Fantasma da Sicília, um dos títulos mais aguardados desta edição, a história de Giuseppe não só é chocante como é real. O garoto foi sequestrado em 1993, como represália da Máfia contra seu pai. Permaneceu preso durante quase 800 dias - mais de dois anos. Foi morto em 1996. O caso veio a público somente depois da tragédia consumada. Os executores do crime foram presos e condenados. O filme segue toda uma pauta factual - os autos do processo -, mas Piazza e Grassadonia tomam liberdades. Criam uma fábula. Fazem da via crúcis de Giuseppe uma história de amor.

Giuseppe e Luna. “Ela é uma personagem fictícia”, conta Grassadonia. O casal jovem foi escolhido num processo enorme de casting. “Desde Salvo, gostamos (Piazza e ele) de basear nosso método na interação de atores e não profissionais. É uma dinâmica muito interessante e que cria veracidade.” Se Salvo foi um grande sucesso de crítica, com muitos prêmios, O Fantasma da Sicília manteve o prestígio da dupla e acrescentou algo muito importante - “O filme ainda está nos cinemas da Itália e é um grande sucesso de público, principalmente entre os jovens, que se identificam com a história. Achamos que é um pouco nossa função como autores - participar da formação do público, despertar nos jovens o interesse pelo cinema que espelha a realidade italiana.”

Como parte desse engajamento, Grassadonia e Piazza planejam várias ações em escolas italianas, com o retorno às aulas neste segundo semestre. “Vamos exibir e debater o filme com pré-adolescentes e adolescentes, que já terão condições de avaliar as consequências dessa verdadeira tragédia.” A Máfia - e as arcaicas estruturas de poder na Sicília - sempre foram temas do cinema político italiano. Surgiram grandes filmes nos anos 1960/70. “Vivemos hoje outra realidade e aquela fase de confronto com o aparelho do Estado felizmente passou. Isso não significa, claro, que a questão do crime organizado esteja resolvida. O caso de Giuseppe repercutiu muito na sociedade civil, que se sentiu atingida, ultrajada, violentada. Foi uma história terrível de contar, mas necessária.”

A Festa 8 1/2 do Cinema Italiano atinge este ano 8 cidades de todo o Brasil. Além da sessão de sexta, O Fantasma da Sicília terá nova apresentação na segunda, 4, em São Paulo. O curador do evento é Stefano Savio. Selecionou outros seis filmes em parceria com distribuidores. São obras que celebram a diversidade - além de um filme autoral como O Fantasma da Sicília, existe a comédia sobre a guerra de Pif (um imigrante alista-se no Exército dos EUA, que vai invadir a Europa, para tentar encontrar a mulher amada na Sicília), a obra de uma feminista militante como Cristina Comencini ( Histórias de Amor não Pertencem a Este Mundo), a sátira política A Hora Oficial, da dupla popular Ficarra e Picone, etc. Itália, sim, mas a festa é do cinema - ponto.

 

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