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Cultura

Silva

Ditadura é desmascarada no documentário 'Estranhos na Noite'

Produção foi exibida para estudantes e professores da PUC-MG

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Leonardo Augusto,
ESPECIAL PARA O ESTADO

22 Fevereiro 2016 | 22h32

BELO HORIZONTE - Um filme para não deixar que um terrível capítulo da história brasileira seja esquecido. O documentário Estranhos na Noite foi exibido na segunda, 22, para cerca de 200 pessoas, a maioria estudantes e professores, na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), como parte de seminário sobre jornalismo.

O documentário mostra a atuação dos militares na ditadura para censurar o Estado, primeiro jornal brasileiro a ser alvo do AI-5, de 13 de dezembro de 1968, que retirou direitos da população, fechou o Congresso e calou a imprensa. No mesmo dia, policiais haviam, sem sucesso, tentando impedir a saída da edição do Estado do cais da expedição da rua Major Quedinho.

A ira dos militares foi provocada pelo editorial Instituições em Frangalhos, publicado no mesmo dia 13 pelo Estado. O texto criticava o presidente da República, marechal Costa e Silva (1899-1969), por tentar atropelar a lei e processar o deputado Márcio Moreira Alves, que havia feito discurso ofensivo às forças armadas. No dia anterior, a Câmara Federal rejeitou pedido de licença para que o parlamentar fosse processado pelo Supremo Tribunal Federal. Segundo levantamento da historiadora Maria Aparecida de Aquino, entre setembro de 1972 e 3 de janeiro de 1975 foram cortados 1.136 textos, substituídos por trechos de Os Lusíadas, no Estado, e receitas de bolo no Jornal da Tarde.

Dirigido por Camilo Tavares, filho de Flávio Tavares, ex-editorialista do Estado banido pelo regime militar, o documentário mostra em 27 depoimentos como a ditadura se articulou para tentar obstruir a prática do jornalismo pela empresa. O título Estranhos na Noite é em referência à música de Frank Sinatra Strangers in the Night, cantada na redação pelo diagramador Gellulfo Gonçalves para anunciar em código a presença de censores.

O roteiro do filme é do jornalista mineiro José Maria Mayrink, autor do livro Mordaça no Estadão, e o filme começou a ser produzido no segundo semestre de 2014, sendo concluído em dezembro do ano passado. “O documentário é importante porque vai mostrar, principalmente para as gerações atuais e futuras, o que aconteceu naquela época. São depoimentos de pessoas que sofreram dentro daquela quadro instalado pela ditadura militar”, afirmou o jornalista.

Uma das histórias dizia respeito ao jornalista Carlos Garcia, que trabalhava no Recife. “Por pouco não foi morto torturado pelos militares, que queriam saber sobre uma célula comunista no Estado. E isso não existia”, relembra Mayrink.

Para o integrante da Comissão da Verdade em Minas Gerais Robson Sávio, o filme vai contribuir para lançar luz sobre a ditadura. “Temos no Brasil grande déficit em relação à nossa história, principalmente no que se refere ao período de governo dos militares”, afirmou Sávio, que participou da sessão exclusiva do documentário na PUC-MG. “É fundamental também a atualidade, quando jovens repetem absurdos, como achar que um regime militar pode ajudar a superar problemas.” Segundo o estudante de jornalismo Henrique Margalith Henriques, de 19 anos, o filme, por mostrar o que os militares faziam com o jornal, deixa claro que a ditadura não pode ser defendida. “Se alguém acha que foi bom, é por falta de conhecimento”, diz.

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