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Cultura

Diretora Catherine Hardwicke fala do câncer que devasta em ‘Já Estou Com Saudades’

Filme é um 'A Culpa É das Estrelas' em versão adulta

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S. Paulo

03 Janeiro 2016 | 03h00

Catherine Hardwicke acaa de completar (em outubro) 60 anos. É a diretora do primeiro exemplar da série Crepúsculo e até hoje mantém o recorde da maior bilheteria de estreia de um filme realizado por mulher – ever, isto é, em todos os tempos. Você poderia imaginar que isso fosse facilitar a vida dela, mas não. No Festival do Rio, onde veio mostrar Já Estou com Saudades e deu uma master class, Catherine citou números para provar que as mulheres continuam sub-representadas na indústria. São apenas 4% de mulheres diretoras e, embora existam executivas em cargos de poder, são os homens que ditam as cartas em Hollywood, com melhores salários e rendas.

Isso vale para os astros, mas também para os diretores. O ano foi de protestos. O discurso de Patricia Arquette no Oscar, as recentes entrevistas de Meryl Streepo pegando carona na personagem de As Sufragistas – depois do encontro que o repórter teve com Catherine no Rio. Já Estou com Saudades estreou na quinta, 31. Catherine é uma mulher encantadora. Bonita, sexy. Veio com um filme de tema pesado, o câncer, que trata sem chororô. É a história de duas amigas através do tempo. Milly e Jess compartilham tudo, mas aí a primeira é diagnosticada com câncer no seio. Faz mastectomia, tenta retomar a vida, mas a doença generaliza-se. O cinema, em geral, conta essas histórias santificando as pacientes sofredoras. Não é o caso do roteiro de Morwenna Banks nem do filme de Catherine. Milly é 'a pain in the ass', chega um momento em que Jess grita que ela é uma 'cancer bully'. Uma peste cancerosa. É raro esse tipo de foco.

“Sou arquiteta de formação e isso faz com que, para mim, o roteiro seja tudo. É como a planta de uma casa que vou edificando, com o olho nos detalhes para que ela cresça sólida e confortável.” E Catherine concorda com o repórter, que diz que esse lhe parece seu filme mais pessoal. “É, sim, mas não no sentido de que eu tenha vivenciado essa experiência. Nunca tive câncer, mas quem nunca teve um amigo, um familiar, um ente querido que passou por essa provação? Câncer, aids, essas doenças não fazem apenas suas vítimas diretamente, mas de forma indireta, porque todos sofremos juntos.” E ela conta que o mais próximo que chegou do câncer foi através de seu pai. “Eu o amava, poderia fazer um filme sobre a ligação de uma filha com seu pai e acho que coloquei um pouco disso em Crepúsculo. Meu pai era um homem muito forte, internamente. O câncer não o abateu. Até o fim, ele tinha sempre uma piada, contava uma história para nos divertir e fazer rir. Encontrei um pouco disso no roteiro, ou coloquei, não sei. Foi muito prazeroso trabalhar com Toni e Drew.”

No palco do Cine Odeon, em plena Cinelândia carioca, Catherine ligou para Toni Collette, colocou o celular no viva voz e conversou com ela. Lembraram momentos tensos da filmagem. Riram. Toni disse que Milly é, num certo sentido, a personagem mais antipática que já interpretou. “Narcisista, irritante, egoísta. E, apesar disso, a gente se interessa por ela, se emociona. Mérito de Catherine.” A diretora reflete. “Por mais que me rebele contra executivos de estúdios – foi por isso que fiz só o primeiro Crepúsculo – carrego na cabeça a voz de um deles dizendo que os personagens têm de ser 'likeable', simpáticos. A essência de Milly é ser antipática. Como lidar com isso? Humanizando-a. Toni é maravilhosa e a química dela com Drew, total.”

A história passa-se em Londres e a cidade vira personagem. “É, de novo, meu lado arquiteta. A personagem tem de ter uma casa, uma vizinhança para ser verdadeira. Londres é uma cidade muito dura para se filmar. É caro e difícil restringir o trânsito, as distâncias são enormes. Mas a cidade tem uma vibe que me encanta e signos visuais muito fortes que incorporei à estética do filme.” O mais difícil, Catherine admite, foi colocar na tela as mudanças físicas que minam a feminilidade do corpo de Milly. “Ela raspa a cabeça para a quimioterapia e não poupamos o público de vê-la vomitando após a sessão, ou as cicatrizes da amputação do seio. Tudo isso é muito duro para qualquer mulher, principalmente uma narcisista como Milly.” E ela faz o que faz.

O quê? Olha o spoiler. Veja o filme para saber. Catherine conta sua experiência mais visceral com o filme. “Mostrei-o para pacientes de câncer e seus familiares. Havia esse homem durão, com a mulher no meio da quimioterapia. Perguntei se alguém podia entender e se conectar com Milly e seu comportamento egoísta? Ele levantou a mão e disse – 'Abolutely', completamente. A mulher tentava baixar a mão dele e os dois, apesar de tudo, riam. Chorei como um bebê e, naquele momento, tive a sensação de que havia feito o filme que queria.”

ANÁLISE: 'A Culpa é Das Estrelas', em versão adulta

Houve um aumento significativo do público de cinema no Brasil, em 2015. O grande estouro de bilheteria do ano passado, A Culpa É das Estrelas, seria o quinto ou sexto colocado entre as maiores rendas do ano. A Culpa É das Estrelas não deixa de ser a versão teen de Já Estou com Saudades. O câncer num casal de adolescentes é substituído pelo câncer na relação de duas amigas. Nenhum dos dois filmes idealiza a figura do doente. – leia a entrevista da diretora Catherine Hardwicke. É raro uma enferma como a personagem de Toni Collette, infernizando a vida de todo mundo ao redor. É o que faz a diferença, o foco, mas Já Estou com Saudades seria só uma tentativa se Catherine e seu elenco não acertassem o tom. Drew Barrymore e Toni Collette têm, como amigas inseparáveis, mais química que Drew com qualquer de seus parceiros nas muitas comédias românticas que fez. Talvez, como A Culpa, rotulado de ‘teen’, Já Estou com Saudades seja ‘women’s picture’, um filme de mulheres. Homens, não se intimidem. Vale até chorar, por que não? / L.C.M.

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