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Diretor mostra documentário com Martinho da Vila na quadra da Unidos de Vila Isabel

Georges Gachot já documentou Maria Bethânia e Nana Caymmi

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Luiz Carlos Merten ,
O Estado de S. Paulo

22 Setembro 2015 | 03h00

Autor de documentários sobre música erudita, o francês (de Nanterre) Georges Gachot apaixonou-se pelo Brasil. Já documentou grandes artistas como Maria Bethânia e Nana Caymmi. Gachot faz nesta terça-feira, 22 de setembro - história como o primeiro diretor a mostrar um filme num território sagrado do samba carioca, a quadra da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel. Na quinta-feira, 24, O Samba estreia em salas selecionadas de diversas praças - São Paulo, Rio, Salvador. Martinho da Vila é o cicerone de Gachot (e do público) pelo universo do samba. O diretor documenta os preparativos para o desfile da Unidos de Vila Isabel no Sambódromo do Rio. Simultaneamente, Martinho se apresenta em shows e é revelado na intimidade.

Fala daquilo que Leci Brandão, outra expert em samba, chama de ‘africanidade’. Recebe outros artistas, revisita seus sucessos. Quando Gachot o contactou com a proposta do filme, o primeiro movimento de Marinho foi simplesmente dizer ‘não’. “Disse pra ele que não tinha tempo, que estava com a agenda lotada. Mas o Georges insistiu. Mart’nália já o conhecia do documentário sobre Bethânia. Dei uma pesquisada e descobri que o cara era fera, respeitadíssimo. E que, curiosamente, fizera documentários sobre artistas eruditos como Martha Argerich. Terminei sendo persuadido - por que não?”

Gachot conta que ouviu reações desencontradas quando colocou Mart’nália no documentário sobre Betânia. “Teve gente que achou que aquela erupção do samba não tinha nada a ver com a teatralidade de Bethânia. Mas eu confesso que gosto dessas coisas. Naquele momento, o filme ‘bascule’. Procurando saber mais sobre Mart’nália, cheguei a seu pai, Martinho. Falei a Bethânia que estava com o CD em que Martinho canta Noel Rosa. Ela estava sentada, levantou-se e ergueu as mãos. Me disse que era o maior cantor brasileiro. O depoimento de Bethânia, o CD sobre Noel, a importância de Martinho para a Unidos, tudo isso me levou a ele. E tinha mais - Martinho ama a França e é amado pelos franceses. Não tenho a pretensão de revelar o samba para os brasileiros. Inclusive, antes de passar aqui O Samba já foi exibido na TV europeia. Martinho me ajudou muito a dar visibilidade ao filme.”

Foram 120 horas de gravação, reduzidas para 52 minutos - a que foi exibida na TV - e outra de 86 - para o cinema. Como foi cortar tanto? “Nem me fale. Tinha momentos que chegava a doer, porque o material era muito bom.” E as duas versões? “A estrutura é a mesma nos dois filmes. Cortei dentro das cenas, e não foi fácil. Me dói lembrar.” Martinho lembra as origens ‘marginais’ do samba, quando cantores e compositores eram perseguidos pela polícia. Leci Brandão lembra que muitos desses fugitivos se escondiam em terreiros de candomblé. Na Unidos, Martinho bancou o enredo A Festa da Raça, compondo o tema Kizomba. Devolveu o samba às origens africanas. Nada de plumas e paetês. Tecidos e adereços rudes. “Foi uma aposta radical”, lembra Martinho no filme. “Era ganhar ou perder.” A Unidos ganhou.

Aos 77 anos - nasceu em 12 de fevereiro de 1938 em Duas Barras, no Estado do Rio -, Martinho adotou a Vila Isabel e foi adotado pela comunidade do samba. Um dos integrantes da escola fala justamente na ‘espetacularização’ dos desfiles da Sapucaí. “As celebridades ganham o holofote, a comunidade participa anonimamente. O sentido de mostrar o filme hoje para a comunidade faz parte desse movimento de valorização da turma de raiz.” E Martinho canta - Ex-Amor, Mulheres, Canta Canta Minha Gente. Para um cantor e compositor tão preocupado com o aspecto social do samba, o refrão “Vida vai melhorar” possui um significado mais que especial. 

“Conversei com o Martinho sabre essa coisa da idade, sobre como ele canta bem, dividindo as frases, quase como quem diz o samba. E o próprio Martinho acha que está cantando melhor”, diz o diretor. Um dos momentos mais bonitos de O Samba mostra o encontro de duas paixões brasileiras - a menina ritmista toca seu instrumento e o garoto, a seu lado, brinca com a bola, fazendo embaixadas. É um emocionante retrato do Brasil. “Era a intenção”, admite Gachot. Em outro momento lindo, Nei Matogrosso expressa outra vertente da música. “Não sou sambista. Venho do teatro, a música me interessa como letra, como drama”. Deixo o ritmo para quem é do samba de verdade.” Para Martinho. Ele pega o pandeiro e mostra como um só instrumento permite criar diferentes ritmos. Se Vila Isabel, associada a Noel, é o berço do samba, Martinho sabe, muito bem, embalar essa criança.

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