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Diretor de ‘Antes do Inverno’ prefere os subentendidos às certezas

Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo

14 Junho 2014 | 16h 00

Dublê de escritor e cineasta, Philippe Claudel faz sua arte a partir das áreas cinzentas

Depois de dois filmes interpretados pela inglesa Kristin Scott Thomas – Há Tanto Tempo Que Te Amo e Antes do Inverno, que estreou na quinta-feira –, o diretor francês Philippe Claudel proclama ‘Basta!’ Kristin Scott-Thomas, nunca mais. Claudel desabafa com o repórter durante encontro no Rio, em abril. A entrevista realiza-se no hotel de luxo que abrigou a delegação francesa presente ao Festival Varilux do Cinema Francês. Claudel reconhece que Kristin é uma grande atriz, mas confessa que ela o esgotou. “Já havíamos tido algumas diferenças no filme anterior, mas ela era tão boa que resolvi esquecer. Desta vez, foi pior. Kristin interpreta do jeito dela. E construiu uma ideia da personagem que não servia ao filme que eu queria fazer. Cansei dela.”

É raro um diretor falar tão abertamente de seus problemas com atores, mas Claudel não tem papas na língua. O filme em cartaz é bom (o anterior talvez fosse melhor). É um filme duro sobre casal (Kristin e Daniel Auteuil) que está junto há bastante tempo. Ele conhece essa jovem – Leila Bekhti, mulher (na vida) do ator Tahar Rahim, de O Profeta. Como em Há Tanto Tempo, sobre duas irmãs que retomam o contato após muito tempo, Claudel adora as verdades ocultas que terminam por aparecer, e minar as relações. E é um diretor que aposta nos silêncios (e nos subentendidos).

Divulgação
Cena do filme "Antes do Inverno", de Philippe Claudel, com Daniel Auteuil e Kristin Scott Thomas

Mestre de conferências na Universidade de Nancy, Philippe Claudel é escritor – e já esteve em São Paulo participando de um evento de literatura. Recebeu os prêmios Goncourt e Marcel Pagnol. Como conta, descobriu que fazer filmes o excita mais que escrever livros. “Tenho muitos projetos (de filmes) na cabeça”, confessa. Antes do Inverno passa-se no outono. O tempo reflete-se na interioridade dos personagens. Claudel diz que quis explorar a crise do casal, mas, principalmente, que transferiu para Auteuil, que faz um neurocirurgião de 60 anos, a pergunta que já se fez aos 52 (sua idade). “Chega aquele momento em que você se olha no espelho e avalia – estou sendo o homem que sonhava ser aos 27 anos? E o que você faz quando percebe que os caminhos da vida o distanciaram de suas metas?”

Claudel apressa-se em esclarecer que Antes do Inverno não é autobiográfico, embora muita coisa em cena tenha resultado de experiências e indagações pessoais. “Ele (o personagem) vive no ritmo agitado da vida moderna, sempre correndo atrás dos compromissos. De repente, a simples descoberta dessa mulher que vive em outro ritmo o leva a questionar a vida de aparência que leva. Existem fissuras no relacionamento com a mulher, que ele nunca quis encarar. E não há diálogo com o filho.” É um filme que tem seu movimento, e não é o trepidante da vida moderna. “O formato dos projetos é definido pelo próprio tema, ou pela história que quero contar. Nunca pensei em Antes do Inverno como livro. Ele já nasceu como filme, como um questionamento.”

Durante dois anos, entre 1998 e 2000, Claudel lecionou em prisões. A experiência foi decisiva para que fizesse Há Tanto Tempo Que Te Amo, com aquele segredo da personagem de Kristin Scott-Thomas. “A prisão me mostrou que nada é preto no branco. Existem muitas áreas cinzentas na natureza humana.” Sua literatura e o próprio cinema têm o pé no policial, mas em Brodeck’s Report, livro particularmente elogiado, enveredou pelo fantástico, numa mistura de Kafka com Irmãos Grimm.