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Dez anos sem Marlon Brando

Antonio Martín Guirado - EFE

01 Julho 2014 | 08h 00

Em 1º de julho de 2004, o lendário ator americano morreu por uma fibrose pulmonar; atuações históricas e problemas na vida pessoal marcaram sua carreira

Reprodução
Marlon Brando em cena de "O Poderoso Chefão"

Há exatos dez anos, o ator americano Marlon Brando, considerado por muitos o melhor da história, morria em Los Angeles, Estados Unidos, aos 80 anos. Brando, o eterno rebelde de talento prodigioso que transformou o ato de atuar para sempre – e que teve um vida pessoal turbulenta e trágica, morreu no centro médico da Universidade da Califórnia por causa de uma fibrose pulmonar.

Solitário e ciumento de sua própria intimidade até extremos insuspeitos, teve seu funeral presenciado por amigos íntimos, como Jack Nicholson, Warren Beatty e Sean Penn, e suas cinzas foram derramadas entre as idílicas águas do Taiti (onde ele possuía uma ilha) e as dunas do Death Valley, na Califórnia.

A última vez que Brando abandonou a tranqüilidade do seu lar foi para visitar o rancho Neverland, onde desfrutava da amizade de Michael Jackson. Para sua então inchada e deteriorada figura – havia engordado mais de 40 quilos – era necessário um tanque de oxigênio que fazia seu débil coração pender por um fio.

Suas últimas atuações apenas deixavam entrever aquele duplo vencedor do Oscar (Sindicato de Ladrões, 1954 e O Poderoso Chefão, 1972), que fez do “método” sua forma de vida e que protagonizou obras para serem lembradas sempre, como Uma Rua Chamada Pecado (1951), Viva Zapata! (1952), Júlio César (1953), Sayonara (1957), Último Tango em Paris (1972) e Assassinato Sob Custódia (1989). Por todas essas, foi indicado a prêmios da Academia de Cinema.

Falar de Brando é falar de um antes e um depois na história do cinema. Todas as estrelas posteriores beberam dele, de James Dean e Paul Newman, de Robert de Niro a Sean Penn, de Al Pacino a Gene Hackman. Seu legado é tal que não há um só intérprete que não tenha Brando como referência.

Reprodução
Marlon Brando em cena de "Último Tango em Paris"

O cinema, com ele, abraçou o risco. A imersão na psicologia do personagem até o sofrimento, abandonando técnicas mais tradicionais e convertendo-se no paradigma do método Stanislavski, onde se pregava a exploração dos sentimentos próprios para oferecer a interpretação mais real possível.

Tanto que Brando não atuava, ele era.

Poucos ícones do cinema uniram dessa forma talento, beleza e físico privilegiado. Isso sim, um talento forjado na dor de uma infância dura que resistiu ao desapego e aos abusos de pais alcoólatras.

O método lhe permitiu conduzir essas desgraças e não ter medo de demonstrar a ira, a sensibilidade ou a naturalidade que o converteram em um rosto tão carismático como temido por seus companheiros de elenco.

Um deles, Frank Sinatra, o batizou como “resmungos”, pela sua maneira de encerrar os diálogos.

Porém, Brando nunca quis a fama. Ficava aborrecido com a popularidade e tudo relacionado aos meios de comunicação, uma situação que se fez insuportável quando teve que lidar com escândalos como a prisão de filho Christian pelo assassinato do namorado de sua meio irmã Cheyenne, ou o suicídio dela alguns anos depois.

O julgamento de seu filho o deixou em uma situação econômica muito precária, já que também deveria se encarregar da manutenção dos três filhos que teve com sua assistente Christina Ruiz. Brando teve mais seis filhos de mulheres não identificadas, e outros sete reconhecidos.

Sua primeira mulher foi Anna Kashfi, depois ele casou com a atriz Movita Castaneda e finalmente com Tarita Teriipia, da ilha de Bora Bora. Entre uma e outra, incontáveis romances e relacionamentos fracassados para um gênio que dedicou parte de seus esforços fora do cinema para ajudar minorias, especialmente os índios americanos.

Assim que rechaçou seu Oscar por O Poderoso Chefão, enviou para representá-lo na cerimônia uma ativista descendente de índios americanos, Sacheen Littlefeather, que pronunciou, entre aplausos e vaias do público, uma parte de um discurso de Brando criticando a indústria pela maneira com que o cinema retratava essa população. Veja abaixo:

A partir deste primeiro de julho, quem desejar pode se atrever a se hospedar no The Brando Hotel, um conjunto de casas dotadas com energia solar que seus familiares construíram na remota Tetiaroa (sua ilha), o refúgio pessoal do mito, e que estarão disponíveis a um preço de 2450 dólares por noite.

“Minha mente se alivia quando me imagino ali de noite”, costumava dizer o ator. Naquele pequeno rincão do mundo, essa força indômita da natureza encontrava sua paz interior.